RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS (No Retreat, No Surrender, 1986)

O fato de Jean-Claude Van Damme estampar as artes de capas de DVDs lançados no mundo afora do filme RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS não passa da mais pura e simples picaretagem. Afinal, o único rosto conhecido atualmente na produção é o dele. Mas Van Damme só aparece mesmo no início e no final do filme, interpretando o russo Ivan Kraschinsky. E é também o vilão da bagaça, com quem o protagonista terá de medir forças à base do chute na cara pra saber quem é o melhor.

O herói é um tal de Kurt McKinney, do qual eu nunca tinha ouvido falar. No filme ele é Jason Stillwell, um rapazinho cujo pai, Tom, possui uma academia em L.A. onde ensina karatê, inclusive a Jason. Os problemas aparecem quando o crime organizado russo decide fazer uma “oferta irrecusável” para comprar a academia, dessas que alguém pode sair muito machucado caso um dos lados não goste da palavra final. E é o que acontece. Um gangster, acompanhado de seus guarda-costas, incluindo o tal Kraschinsky, expulsa o sujeito de sua própria academia, com Van Damme já demonstrando golpes ultra rápidos e aqueles chutes incríveis que fizeram sua carreira.

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Estou querendo reavaliar a obra de JCVD, mas meus favoritos dele, por enquanto, são CYBORG e SOLDADO UNIVERSAL, que no campo da “pancadaria” perdem para, por exemplo, GOLPE FULMINANTE, que é dirigido pelo Tsui Hark, um monstro do cinema de ação oriental. O negócio é que quando se mete com diretores orientais Van Damme obtém alguns resultados bem mais interessantes. Temos aqui nessa cena inicial de RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS, que não dura nem um minuto, uma pequena demonstração que comprova que o sujeito não é só pose. Ele se tornou “posudo” porque decidiu firmar carreira em Hollywood trabalhando com diretores e equipe que não dominam cenas de porrada como os orientais, por mais divertido que sejam os seus filmes. Aqui temos o grande Corey Yuen no comando, por isso não me surpreende o resultado na tela.

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Enfim, voltando a RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS, Tom (o pai, pra quem já se esqueceu) decide respirar novos ares e se muda para Seattle depois de levar a surra e perder a academia. Muda também sua mentalidade sobre o karatê e a finalidade de se usar violência, ou seja, o cara virou um bundão. E até que ele luta bem, embora seja de longe o pior ator do filme! Já Jason, a primeira coisa que faz quando chega em sua nova casa é transformar a garagem num centro de treinamento, com cartazes de Bruce Lee e toda a parafernália. Fã do grande astro de OPERAÇÃO DRAGÃO, o rapaz vai visitar o túmulo de Lee, que se encontra na cidade, além de procurar uma outra escola de karatê para continuar seus ensinamentos.

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A trama é totalmente voltada à Jason, que transforma o filme numa espécie de rip-off de KARATE KID. A estrutura intercala momentos de treinamento, de flerte com a garota bonitinha, com confrontos contra bullies, que sempre lhe dão porrada, além de problemas com o pai, que a cada briga na rua precisa levar um sermão danado, até que Tom rasga o poster do Bruce Lee servindo de estopim para um “NÃÃÃÃÃÃOOO!!!” daqueles! Em outra cena, Jason ajoelha no túmulo de Bruce Lee e implora por ajuda… Para melhorar ainda mais a história, o espírito de Bruce Lee aparece em sonhos e delírios do personagem para lhe aplicar vários ensinamentos. O problema é que o ator que faz o fantasma não tem nada a ver com o Bruce Lee, mas Jason não cria caso com isso, então ok. Aliás, o ator que dá vida ao falecido é Kim Tai Chung, que era dublê de Bruce Lee.

Como já adiantei que Van Damme aparece novamente no final, presume-se que os gângsters russos também vão à Seattle tentar abocanhar mais academias e escolas de artes marciais. E é numa dessas academias que há um campeão de artes marciais que decide resolver tudo da forma mais besta possível: realizando um torneio de luta. O vencedor ficaria com o estabelecimento. E assim rola a pancadaria final, o que inclui um confronto entre McKinney e Van Damme.

Kurt McKinney é muito carismático. E não é tão mirrado como Ralph Macchio, o Daniel San de KARATE KID. É claro que na vida real, McKinney não teria chance com Van Damme, que era um monstro cheio de músculo, mas nada tão impossível também. O rapaz tem bom físico. Possui também um relacionamento meio estranho com RJ, um vizinho que se torna seu melhor amigo. RJ não luta, mas é um excelente dançarino, mais um motivo pra achar esquisito… ainda mais depois da cena em que R.J toma sorvete sentado… digamos, na região do quadril de Jason, enquanto este faz um exercício. Bom, não estou chamando-os de viadinhos, nem tenho nada contra, mas acho que eles já passaram da idade da inocência pra um enquadramento como este abaixo não soar extremamente homoerótico.

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Sei que KARATE KID deixou uma irrecuperável boa impressão na infância de muitos de nós, mas vocês vão me desculpar, RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS é muito mais divertido, tem aquele climão de Guerra Fria, EUA x URSS, estilo ROCKY IV, tão típico do cinema oitentista, além de ser dirigido por um cara que realmente entende de artes marciais, coreografou uma penca de filmes e dirigiu meu ninja movie favorito, NINJA IN THE DRAGON’S DEN! As lutas aqui não chegam ao mesmo patamar de outros trabalhos do Corey Yuen, mas é muito acima da média, especialmente aquelas com Van Damme (não foi a toa que seu sucesso dentro do gênero começou aqui).

O filme tem algumas atuações das mais vergonhosas que eu me lembro de ter visto na vida… Fora alguns furos evidentes de roteiro, os clichês de sempre, até microfones aparecendo no canto da tela, mas tudo isso serve de bônus para quem entrar na onda do filme, uma diversão escapista, que passa rápido, tem um bom ritmo e as cenas de luta fazem valer o programa. Pra mim, já virou clássico do cinema de artes marciais dos anos 80.

RETROCEDER NUNCA, RENDER-SE JAMAIS teve duas continuações que não possuem muita ligação com este aqui. O segundo apenas acrescenta o número “2” na frente. Também é dirigido pelo Yuen e tem no elenco Cynthia Rothrock, Loren Avedon e o brutamontes Matthias Hues! Já o terceiro filme recebeu o título aqui no Brasil de OS IRMÃOS KICKBOXERS, que assisti quando era pequeno, numa VHS da saudosa TOP TAPE, e tem umas lutas alucinantes de outro mundo!!! Recomendo tudo, assistam a essa merda toda.

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1 Comentário

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  • no retreat no surrender 1986 também foi lançado no Brasil numa VHS que levava o nome de Karate Tiger. Essa fita não tinha fotografia alguma e a sinopse dizia algo como “Aquele garoto tinha dentro de si um poder, um espírito de luta…”, não recordo do resto, mas dizia algo desse tipo na sinopse.