A MÁFIA NUNCA PERDOA (Across 110th Street, 1972) | REVIEW

As portas coloridas do Harlem

O lançamento no Brasil dos principais livros da filósofa e ativista americana Angela Davis, em especial o indispensável Mulheres, raça e classe, tem feito uma nova geração de mulheres, ou jovens demais para terem acompanhado o início da luta pelos direitos das mulheres negras de Davis ou mesmo contemporâneas da autora que passaram incólumes aos seus escritos, repensarem a força da segregação nos Estados Unidos. Questões surgidas ainda nos tempos da escravidão ainda abalam a sociedade americana e poucos livros fazem seus leitores refletirem sobre elas e a força que, infelizmente, elas ainda têm na mentalidade do povo. A redescoberta dessas leituras também nos leva a questionar a força da arte como forma de libertação do povo negro americano. O blaxploitation, também conhecido como soul cinema, foi mais que uma leva de filmes rentáveis e que valorizavam artistas negros. Foi um grito de revolta que rendeu produções importantes não apenas para o cinema de ação, mas para toda a revolução que acontecia na Sétima Arte naquele início de anos 70.

A MÁFIA NUNCA PERDOA, lançado em 1972, não é apenas um dos melhores exemplares do gênero. Basta um olhar atento para perceber uma metáfora em sua trama. O roubo de uma banca de jogo comandada pela máfia italiana, realizada por três amigos sem muita experiência com assaltos, acaba em muitas mortes, incluindo um policial negro entre as vítimas. Para investigar o crime, são designados dois policiais que não combinam em nada. O experiente capitão Mattelli, interpretado por Anthony Quinn (que também é um dos produtores), e o novato Pope, vivido por Yaphet Kotto. Um ítalo-americano e um negro juntos no mesmo caso. Algo simbólico, já que a guerra entre os mafiosos italianos com os donos de bairro como o Harlem é um tema recorrente no blaxploitation. Só que A MÁFIA NUNCA PERDOA não é mais do mesmo.

Paralelo ao conflito de gerações dos policiais que investigam o caso, temos a esperança causada pelo dinheiro que toma conta dos três amigos que cometem o roubo. Paul Benjamin, nome constante nos elencos blax, tem uma das melhores atuações da carreira na pele de Jim Harris. São nas cenas em que ele está presente que a dramaticidade aflora sem nunca transbordar para a queixa barata. Num quase monólogo, Benjamin explica os motivos pelo qual quer usufruir do dinheiro roubado, que incluem a sorte de ter sobrevivido a um plano arriscado e o fato de ter passado pela prisão. Ele sabe, e verbaliza, que a sociedade não lhe dará boas chances de crescer e melhorar de vida. É negro, já esteve preso e cresceu num dos bairros mais violentos de Nova York. Sua bolsa cheia de dinheiro é a chave para a mudança.

Por falar em chave, A MÁFIA NUNCA PERDOA tem várias portas. Todas pintadas com cores vibrantes, bem ao gosto da paleta que guia o figurino e a direção de arte de muitos blaxploitations. A cada uma que se abre, o suspense e a violência se acentuam dentro da trama. O espectador já prende a respiração quando algum personagem coloca a mão na maçaneta. Algo novo está por vir. E não é nada pacífico.

Outro ponto interessante é um breve, porém facilmente reconhecível, influência de Sergio Leone. Sim, ele é mais um italiano a se fazer presente no filme. O diretor Barry Shear, que imprime assinatura e mostra também um equilíbrio entre direção de atores e boas sequências de ação, abusa dos close-ups no rosto dos atores durante a cena de abertura. Há um misto de força e tensão nos olhares que remete as vistas cansadas pela poeira do oeste vistas na Trilogia dos Dólares, em especial em sua última parte, o clássico absoluto TRÊS HOMENS EM CONFLITO a.k.a O bom, o mau e o feio. Se Leone fez um trielo onde não há vilão definido, Shear colocou mafiosos e ladrões lado a lado, ambos com a mesma dose de medo estampadas nos rostos.

E já que Hollywood adora uma redenção, A MÁFIA NUNCA PERDOA também tem a sua. Sutil, quase mal executada. O racista Mattelli acaba tendo que rever seus conceitos mais por medo da morte do que por peso na consciência. Afinal, é um policial branco que não pensa duas vezes em receber propina dos chefões negros, mas não poupa porrada para “obter a verdade” dos suspeitos moradores do Harlem. A raiva de seus socos só aumenta ao perceber que pode perder seu cargo para um jovem negro que evita a violência e é muito mais inteligente nas investigações do que ele. Quinn tem uma atuação discreta. Como produtor, ele sabe que quem deve brilhar são os atores negros. É a história deles que importa.

A MÁFIA NUNCA PERDOA é baseado em um romance obscuro de autoria de Luther Davis, provavelmente difícil de encontrar nas livrarias. Mas Angela Davis está até nas vitrines neste tempo em que até quem é racista está se valendo de autoras feministas para encher o cofrinho. Leia e desfrute de um outro sabor do blaxploitation. Ácido, mas necessário.

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