A MORTE NÃO MANDA RECADO (1970) | REVIEW

O spaghetti western de Peckinpah

Os defensores da estratégia de que se deve fechar tudo com chave de ouro podem até discordar, mas não se pode negar o valor de um primeiro momento, aquele minuto que prende nossa atenção e nos mantem atentos por toda uma história, não importando qual seja o seu final. Sam Peckinpah não era apenas o poeta da violência. Era também o rei das aberturas cinematográficas. Começar bem era com ele mesmo e talvez por isso seus espectadores costumam perdoar alguns deslizes que ocorrem no meio do caminho.

A MORTE NÃO MANDA RECADO (título genérico para o original e mais preciso The ballad of Cable Hogue), lançado em 1970, começa na aridez do deserto, onde três homens, Cable Hogue (Jason Robards), Bowen (Strother Martin) e Taggart (L.Q. Jones) tentam capturar um lagarto para o jantar. Sem motivo aparente, um deles atira no réptil e ele explode, seu sangue frio escorre na areia. Traição à vista. Armas em punho, Bowen e Taggart abandonam Cable Hogue sem lenço, sem documento e, o pior, sem água.

Isso é apenas o prólogo, mas já podemos sentir o aroma de talento no ar. Robards está incrível e sua caminhada seca pelos quilômetros de areia em busca de algo para beber já dá uma ideia da força da câmera de Peckinpah, que persegue o protagonista enquanto apresenta os créditos inicias. Créditos com a história já em andamento e mostrados com dedicação artística fazem lembrar as produções do spaghetti western, que na época do lançamento de A MORTE NÃO MANDA RECADO já se encaminhava para sua fase mais voltada para o humor. Mas voltaremos a este assunto logo mais.

Eis que, depois de muito conversar com Deus, sem deixar de lado o sarcasmo (os monólogos de Robards nessa primeira parte são simples e divertidíssimos!), nosso amigo Cable Hogue muda o ritmo de sua balada e encontra água. É o início de sua reviravolta, que vai incluir compra de terras, investimento neste bem tão precioso para quem cruza o deserto e a construção de um pequeno paraíso batizado de Cable Springs. Apesar da promessa de vingança para com os dois companheiros feita no início do filme, Hogue tem seu foco na venda de água por boa parte do longa. É criando raízes na terra árida que ele vai conhecer o reverendo Joshua, uma ótima atuação de David Warner, um religioso que não resiste a um par de peitos e que acaba tornando-se seu amigo. Um canalha típico das películas de Peckinpah. Mas ele está mudado. Acreditem, senhores, o rei do tiroteio parece ter encontrado a paz em A MORTE NÃO MANDA RECADO. Ou pelo menos pedido uma folga das pistolas.

Hogue até chega a matar, mas logo seu coração fica mais interessado na prostituta Hildy. Stella Stevens não é soberba como atriz, mas encarna muito bem a personagem feminina da trama e até subverte alguns clichês, como seu ataque de fúria ao não ser paga por Hogue na sua primeira, digamos, prestação de serviços. A moça arrebenta uma porta com um chute e coloca a homarada para correr. Quem disse que precisamos de um cavaleiro solitário quando estamos em perigo, hein?

Peckinpah conduz uma história de redenção bem diferente do restante de sua filmografia. Robards passa de mercenário violento para homem de negócios com planos de constituir família. O desejo de vingança contra quem o abandonou para morrer no meio do nada ainda existe, mas uma certa serenidade se instaura em seu rosto. Há romance com direito a declaração de amor em A MORTE NÃO MANDA RECADO. Até o mais violento dos homens fraqueja diante da paixão. Peckinpah, quem te viu, quem te vê!

Lembram do spaguetti western? Pois bem, junto com a chegada da água na história, chega o humor. Cenas aceleradas à lá TRINITY, tombos e brigas ao som do piano do saloon são algumas das referências claras ao subgênero. Diferente, mas não impensável, já que Peckinpah foi um dos diretores que trouxeram mais sangue para o western clássico americano depois do sucesso do spaguetti na América. Sergio Corbucci nos deu DJANGO, Peckinpah nos deu CABLE HOGUE, cada um na sua, mas todos com um pé na Itália.

A MORTE NÃO MANDA RECADO costuma ser esquecido quando se lembra da obra de Sam Peckinpah, talvez porque ele tenha feito verdadeiras obras de arte movidas à pólvora e violência como MEU ÓDIO SERÁ SUA HERANÇA e TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA. Mas vale conhecer (ou revisitar) este filme que prova que o título brasileiro de um outro clássico pode ser uma verdade: os brutos também amam.

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