ABUTRES HUMANOS (1948) | REVIEW

A FÚRIA DO HOMEM TRAÍDO

Para criar um bom roteiro de faroeste, muitos realizadores gostam de ter como ponto de partida a motivação de vingança do protagonista. Vão faltar dedos se o prezado leitor tentar contar quantos filmes partem da idéia de um pistoleiro que transforma a amargura em tiros certeiros. Mas sempre é possível trazer algo de novo ao front. ABUTRES HUMANOS, dirigido por Leslie Fenton, é daqueles filmes que demoram para engrenar, mas que fazem de sua parte inicial um tabuleiro repleto de pistas para o espectador.

Alan Ladd – no auge do charme e cinco anos antes de brilhar em OS BRUTOS TAMBÉM AMAM, de George Stevens – interpreta Luke “Sussurrante” Smith, um homem da lei que, após usar sua pontaria para acabar com dois dos três irmãos Barton, que andavam causando alvoroço com seus assaltos aos trens da região, é atingido no braço e necessita de cuidados. Quem lhe oferece casa, comida e uma bala à menos no corpo é seu amigo Murray Sinclair, interpretado com simpatia por Robert Preston. A temporada de recuperação faz renascer em Luke uma paixão antiga, Marian, vivida por Brenda Marshall. O amor seria um elixir extra em sua melhora não fosse Marian esposa de Murray. Desde o primeiro encontro dos dois fica claro para o público que há algo mal resolvido ou, no mínimo, interrompido durante a juventude. Tudo isso apenas com olhares e frases soltas, quase indiretas. Uma estratégia sutil num gênero onde o romance costuma ser explícito e relegado a segundo plano nas tramas.

Pois em ABUTRES HUMANOS, é o amor incompleto que faz a pólvora explodir. Após ser demitido de seu emprego na estrada de ferro, Murray une-se a uma dupla nada confiável da cidade, Rebstock e seu capacho Du Sang, especialistas em roubos de carga. De homem trabalhador da ferrovia, Murray passa a cúmplice das armações dos dois. Na esteira da nova vida, chegam as noitadas no saloon e a raiva crescente da esposa. Por mais que pareça uma vingança contra a ferrovia que o mandou para o olho da rua, a mudança radical de Murray dá-se, na verdade, pela descoberta do interesse de Marian por Luke. Não que fosse algo plenamente desconhecido, mas perceber que os suspiros da esposa não são endereçados à ele, faz Murray chutar o balde. E ele está cheio de whisky e dinheiro sujo.

ABUTRES HUMANOS não chega a ser uma obra digna de nota na história do faroeste dos anos 40, mas uma revisão é bem-vinda, ainda mais em tempos revisionistas sobre a própria figura do cowboy e suas reais motivações. À primeira vista, é um exemplar clássico, onde as mulheres, no caso Marian, é tratada como coadjuvante, a tal presença feminina que Hollywood acha necessária mesmo em um filme “de homem” como é taxado um faroeste. Mas basta um pouco de sensibilidade para perceber que, caso Marian não estivesse na história, ABUTRES HUMANOS seria mais um filme onde um homem comum se rende ao crime para vingar algo que ele considera uma traição. No caso de Murray, a demissão após anos dedicados ao trabalho. Ficar sem salário é aterrador, mas perder a mulher para um amigo é um ataque ao ego masculino.

Marian aparece em cena sempre em trajes recatados, cuidando a água na chaleira e preparando o jantar. Era mais uma mulher no faroeste, responsável pela barriga cheia dos homens e equilibrando uma imagem entre a esposa sempre disposta e o cuidado maternal. Mas se há algo que o tempo traz para as pessoas e os filmes são novos significados. Os homens de ABUTRES HUMANOS giram em torno de Marian. Eles podem até serem os donos das armas, mas é ela a motivação dos tiros.

Gostou do conteúdo? Seja o nosso patrão! Yippee Ki Yay, Motherfucker!

Adicione um comentário

Deixe uma resposta