AMOR À QUEIMA-ROUPA (True Romance, 1993) | REVIEW

O GRITO DE AÇÃO DE SCOTT E TARANTINO

Alfred Hitchcock dizia que ser cineasta é ter sempre projetos na gaveta. Esta definição serve também para outras profissões ligadas à arte, já que só quem já perdeu o rabisco de uma ideia sabe o quanto é triste não lembrar daquela que poderia ser a primeira linha de uma boa história. Quentin Tarantino, o melhor criador de colcha de retalhos de referências do cinema, moldou um roteiro de filme de ação tendo como base um personagem de um curta-metragem que ele dirigiu em 1987 e que nunca foi lançado comercialmente. O que era rascunho de um diretor amador virou uma das mais criativas histórias filmadas nos anos 90.

AMOR À QUEIMA-ROUPA encontrou o público após a boa recepção de CÃES DE ALUGUEL, primeira grande produção de Tarantino. É de se pensar o que teria acontecido se coubesse a ele o trabalho de dirigir a louca trama que envolve o casal Clarence e Alabama, interpretados pelos jovens Christian Slater e Patricia Arquette. A única certeza é que muito do charme e do ritmo seria perdido. Não que Tarantino não tenha estilo, mas Tony Scott, falecido em 2012, sabia como poucos conduzir cenas de ação. Sua principal influência de câmera em AMOR À QUEIMA-ROUPA fica clara já na abertura. O primeiro encontro de Alabama e Clarence acontece em um cinema durante uma sessão tripla de filmes de Sonny Chiba. O diálogo cheio de nomes de filmes B de kung-fu e outras paixões tarantinescas soa mais romântico e menos pop ao ser conduzido por Scott. A verborragia acelerada dá lugar aos quase sussurros de Arquette e Slater, numa química impressionante que vai num crescente ao ponto de tornar-se uma paixão obsessiva. O tal romance verdadeiro do título original parece piegas demais. Alabama e Clarence são fogo e gasolina. À queima-roupa remete aos tiros, mas também ao amor no filme de Scott.

Alabama é quem começa como narradora do conto de desejo e balas proposto por Tarantino. É nestas primeiras divagações que podemos perceber que a personagem é bem construída, ainda mais se levarmos em consideração que Tarantino não é lá muito talentoso em escrever para mulheres. Óbvio que o talento de Arquette, que equilibra o visual inocente com uma personalidade forte e decidida, colabora para que o público simpatize com Alabama. Mas não se pode negar que é a sua voz mansa que nos puxa para dentro do filme e nos faz torcer por um final feliz. E ele acontece. Mas voltemos a ele depois, pois chega a hora a mais esperada para quem não senta numa poltrona de cinema à toa: o tiroteio final.

Mas já?” é o que o prezado leitor deve estar pensando. Sim, é o ponto alto de AMOR À QUEIMA-ROUPA, mas e o meio do caminho? Ele é o aquecimento, o engatilhar das armas. O diálogo incrível entre Christopher Walken e Dennis Hopper sobre os sicilianos não acrescenta nada para o desenvolvimento da trama (a não ser pela morte de um personagem, mas não daremos spoilers) mas serve para nos manter presos na cadeira, hipnotizados pelas interpretações e a câmera econômica. Um esquete dentro de uma peça longa, que Scott filma com uma elegância que talvez Tarantino jamais tivesse. As participações de Brad Pitt, Gary Oldman e Samuel L. Jackson são divertidas, mas também são iscas para que sigamos atentos para o último ato. O porém fica por conta do pouco aproveitamento do mentor de Clarence, interpretado por Val Kilmer, um Elvis com conselhos motivadores à lá Grilo Falante do Pinóquio.

O leitmotiv composto por Hans Zimmer, quase uma canção de ninar, simboliza a ternura que só se faz presente quando Alabama e Clarence estão juntos. Seus carinhos ininterruptos podem soar juvenis, mas é o único escape dentro do roteiro. Ao olharmos em volta, tudo é roubo, tráfico e morte. O casal não pretendia entrar em algo deste gênero, mas como os acasos sempre rendem nos escritos do jovem Quentin, tudo conspirou para que eles chegassem onde chegaram. No meio do fogo cruzado que envolve mafiosos, policiais e traficantes, Scott orquestra corpos que são perfurados por diversos calibres. Tiroteios existem muitos, mas como o de AMOR À QUEIMA-ROUPA são poucos. Pode-se apreciá-lo tanto pela coreografia da violência e seus arroubos sanguinolentos, mas também se pode ter foco no casal que tenta sobreviver para seguir o romance que teve início na primeira cena.

O desfecho conto-de-fadas, com Alabama e Clarence em uma praia brincando com o filho numa praia é inofensivo, mas verossímil. No fundo, é uma história de amor açucarada com toques de cultura pop e que, no meio do caminho, encontra uma pedra que envolve máfia e morte. A boa condução desse meio é, no fundo, o que vale para o espectador e também o ponto responsável por ter feito o filme envelhecer bem, afinal, lá se vão 25 anos de lançamento. Por ser uma espécie de ensaio das temáticas que viriam na sequência da carreira de Tarantino como diretor, AMOR À QUEIMA-ROUPA ganha um extra para os fãs do americano, já que é divertido encontrar momentos que depois seriam desenvolvidos com mais dedicação em obras como PULP FICTION e KILL BILL. Mas não se pode negar que as palavras escritas pelo garoto Quentin ganham muito mais vigor nas mãos do senhor Scott.

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