Monte Hellman e Anti-ação: Queimando gasolina e celulóide

Tanque cheio, cabeça vazia. Introspecção mecânica

“As noites são quentes e as estradas são retas”. GTO

Quando você cruzar pelo último parágrafo deste texto, talvez este que vos escreve já não faça mais parte da equipe do site Action News. Você estará se perguntando se o chefe redator ficou maluco por permitir a publicação de um dos filmes mais introspectivos de todos os tempos num espaço de referência para o cinema de ação e violência. Um filme que por mais brilhante que seja, provavelmente não tenha espaço na pauta desta galeria e se encaixaria melhor em outras plataformas. De fato posso ser justificadamente demitido por estar se desgarrando da proposta principal do site, mas tenho certeza que o redator irá concordar comigo que trata-se aqui de um artigo sobre uma das mais absolutas obras-primas que o cinema americano já produziu. Isso mesmo, brincadeiras a parte TWO-LANE BLACKTOP aka CORRIDA SEM SIM, de Monte Hellman, é uma experiência sensorial que transpassa o contexto dos anos 70 e pode ser apreciada de maneira atemporal, tanto como um cruel retrato do vazio existencial do ser humano por todas as gerações, quanto uma das películas de “anti-ação” mais puras de todos os tempos.

Entenda-se como anti-ação quando os cineastas possuem a sua disposição as ferramentas necessárias para o estouro (carros velozes, armas, contraventores, cenários hostis), mas acabam optando por um outro direcionamento que não explora devidamente estes recursos inerentes, virando do avesso as expectativas com um viés contra-comercial que provavelmente deve ter enfurecido muitos investidores e por isso conceituado de anti-ação. O cinema do diretor Monte Hellman em grande parte se baseia neste conceito, o trabalho pode ser anunciado como um filme alucinante de corrida sem limites de velocidade, mas no final das contas é tudo, menos isso. Esta contravenção artística custou muito caro aos produtores que na época perderam muito dinheiro com o fracasso nas bilheterias. O reconhecimento como clássico veio somente muitos anos depois.

Os realizadores não viram aqui nenhuma necessidade de começo, meio ou fim. E por causa disso, os quatro personagens principais “apenas existem”. Não têm nome e nem passado, são eles o Piloto, o Mecânico, a Garota e o GTO e por isso vamos colocar letra maiúscula nestas denominações. Existe o Piloto e o Mecânico, dois aficionados por carro que dirigem e reparam constantemente um Chevy 1965 pelas estradas rurais e secundárias do sudoeste dos Estados Unidos. Sem rumo certo, invariavelmente eles desafiam outros carros para corridas de arrancada conseguindo assim dinheiro para muita gasolina e para o quanto menos de comida que for preciso para sobreviver. Sem apresentações, em certo dia, uma jovem andarilha (interpretada por Laurie Bird, na época das filmagens com 18 ou 19 anos) pula no carro deles (sem pedir permissão) para uma carona de ocasião e como também não tem destino, acaba se juntando para a viagem.

Cabe ressaltar agora que o Piloto (interpretado pelo músico James Taylor) e o Mecânico (por Dennis Wilson) são inexpressivos e raramente sorriem, suas atitudes são literalmente mecânicas, eles não se exaltam, não demonstram emoções e conversam somente o necessário (invariavelmente sobre a manutenção do motor). Não têm vínculos, família, emprego e nem casa, resumindo não se importam com nada a não ser com o Chevy 1965. Ao contrário do que você possa estar imaginando eles também não são hippies com a cabeça feita e muito menos estão curtindo a vida adoidado. Aliás, eles não usam drogas e bebem apenas esporadicamente. Eles não precisam de nenhum componente extra e também não sofrem de nenhum tipo de depressão ou tristeza, eles simplesmente permanecem sempre sóbrios e automaticamente focados na direção e no motor. É aí que entra o quarto elemento e talvez o único personagem com características mais humanas, apenas denominado de GTO, interpretado pelo icônico ator Warren Oates, um homem mais velho, contador de histórias e exímio mentiroso que dirige um chamativo carro amarelo. Em um posto de gasolina ele acaba conhecendo os três jovens e parece encantado pela liberdade e indiferença da Garota, mas ao mesmo tempo aparenta se sentir confrontado com a animosidade dos dois rapazes.

Desprendidos de amarras e sem expectativas para o futuro, os quatro então decidem apostar uma corrida por dias e noites até a capital do país, sendo que o perdedor terá que entregar o seu carro ao que chegar primeiro na estação de correio para a qual eles despacharam, em um mesmo envelope, os documentos de ambos os veículos. Acontece que no caminho eles acabam se revezando na direção e muitas vezes até ajudando no conserto do carro do adversário, tornando a corrida totalmente abstrata e sem nenhum sentido. Tanto que em certo ponto os quatro acabam até esquecendo o porquê e o que estão fazendo.

Uma das forças aqui (assim como em toda a filmografia do diretor Monte Hellman) é a capacidade do cineasta de construir uma atmosfera convincente e envolvente a partir do ambiente retratado, reforçada pela fotografia natural das rodovias americanas com todo o realismo climático (seja filmando embaixo de chuva ou em sol aberto) capturado pelas lentes das câmeras e pela ausência de trilha sonora. Ao longo de uma hora e quarenta e dois minutos de duração, as únicas músicas que escutamos são aquelas que tocam naturalmente nos rádios dos carros, nos postos de gasolina e nas lanchonetes. Dois exemplos abaixo, para a famosa canção country “Me and Bobby McGee” (desta vez na voz de Kris Kristofferson ), como pano de fundo para a cena do posto de gasolina, e para “Moonlight Drive”, um dos melhores clássicos do The Doors.

CORRIDA SEM FIM é um road-movie desprovido de preconceitos e não julga como improdutivas as escolhas de seus viajantes, eles são o que são, estão de passagem e nada mais importa. Por breves momentos, o diretor se permite descosturar um pouco mais de suas soturnas personalidades, como na cena na qual o Piloto adentra um bar para tomar uma cerveja e relaxar sozinho e é obrigado a escutar um casal de meia-idade discutindo em voz alta e por motivos fúteis. Ali observando as rugas de desespero do homem e da mulher, ele deixa transparecer um certo alívio por não ter este tipo de problema, por ser um “outsider” sem família e sem religião.

Em outro momento, desta vez no carro, o mesmo personagem Piloto está compenetrado na direção de forma quase robótica, quando GTO, sentado no banco do carona, para puxar conversa começa a contar um pouco da sua história de vida, sobre o drama da separação com a esposa e tudo mais. O Piloto o interrompe sumariamente dizendo que não se importa, que não quer escutar os problemas dos outros, demonstrando que tudo que ambiciona é ficar em silêncio e dirigir, rotina que irá repetir diariamente até que ele ou o seu veículo pare de funcionar, como se o próprio Piloto fosse uma máquina com o organismo composto provavelmente por peças mecânicas, uma extensão do seu próprio automóvel. A obra é tão seca e a direção tão sóbria que não há espaço para dramas aqui e nenhum deles lamenta a sua própria solidão e deslocamento, mas em um dos raros discursos figurativos do Piloto gerado enquanto lagarteia ao sol com a Garota, a referência social sai assim: “Está ouvindo essas cigarras? Falamos aqui sobre sobreviventes, não só sobre insetos. Elas saem da terra depois de sete anos. Vivem debaixo da terra todo o tempo e só saem de lá para trocar de pele e ganhar asas pra poderem transar. Aí elas morrem. Mas, antes de morrer, elas conseguem colocar alguns ovos então outras podem repetir o processo”. A Garota responde algo como: “Mas somos melhores que eles, não? Você me entedia”.

Mas fica subentendido que para eles, a introspeção mecânica nada têm a ver com o tédio, muito pelo contrário, têm a ver com o entendimento das coisas simples como as mais importantes e escassas, do reducionismo de sua existência para uma única causa e da aceitação egoísta de que sem suas concretas obsessões (aqui no caso as corridas do carro) eles não são nada e a compreensão que optar pelo silêncio e a inércia muitas vezes é o melhor remédio contra os “tolos e aproveitadores” que almejam coisas maiores, mas não têm nada a dizer e se gastar palavras inúteis custasse dinheiro, estes estariam devendo milhões para meio mundo. Em outros filmes do Monte Hellman, como CAMINHO PARA O NADA (2010), CHINA 9 LIBERTY 37 (1978),  ou GALO DE BRIGA (1974), este conceito se repete, para os personagens abandonados ao acaso da profissão, em busca de revanche no velho-oeste ou em voto de silêncio/promessa por um troféu (respectivamente). A solidão nunca será melancólica se eles souberem encará-la com naturalidade.

Depois de transar com a Garota, o Mecânico não demonstra preocupação se ela vai ou não continuar ficando com ele e a Garota vice-e-versa. Certo dia durante uma parada para o almoço, ela decide sem prévio aviso e sem despedidas, achar uma nova carona, desta vez com um motoqueiro. O detalhe é que a Garota carrega uma mochila com todos os seus poucos pertences durante todo o tempo que a acompanhamos, mas no momento que ela percebe que a mochila não poderá ser levada na moto, simplesmente a abandona no chão, no acostamento da rodovia. Pois em seu desprendimento, os personagens concedem uns aos outros e aos seus objetos, a mesma liberdade que o asfalto de duas pistas permite a eles próprios. Velozmente a silhueta dela já na carona da moto, some horizonte afora e para os seus antigos companheiros, só restou como recordação aquela mochila rasgada parada na beira da estrada, mas eles nem se preocupam em buscá-la.  Estas situações provam que em TWO-LANE BLACKTOP os três tripulantes originais do Chevy 1965 não se importam emotivamente com bens materiais (com exceção do carro, pois manter a máquina em funcionamento é a única forma de manterem os seus corpos em velocidade e movimento) nem com uns aos outros, mas ao mesmo tempo não magoam propositalmente e nem fazem mal deliberado para ninguém neste mundo, a indiferença deles é apenas produto da alienação.  Isso já basta, então seguem em frente, afinal porque eles iriam se importar se sequer sabem qual é o dia da semana (veja nesta manhã as pessoas deste vilarejo parecem estar dormindo até mais tarde, então provavelmente deve ser sábado ou domingo).

Mais uma aposta qualquer de corrida encomendada, uma nova grana para tomar o próximo café da manhã, então inesperadamente em um intervalo de segundos o filme se torna lento, primeiro perdemos o som e depois o movimento, então a celuloide pega fogo, se desintegrando gradativamente e a película literalmente se autodestrói. Difícil igualar uma forma tão original de finalizar no cinema, talvez um dos momentos conclusivos mais poéticos em toda sétima arte. Acabou, como se ao final desta linha eu tocasse fogo no texto e não pudesse tornar a ler o que acabo de escrever em linhas tortas. Talvez fosse melhor assim.

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