Rip-Offs de INDIANA JONES. Parte 1: ARMOUR OF GOD (1986)

Com uma filmografia tão numerosa, chegando a fazer quatro, cinco filmes por ano durante os anos 80, Jackie Chan obviamente sempre procurava por novas narrativas e conceitos para seus filmes. E ARMOUR OF GOD é um dos seus trabalhos mais curiosos, se aproximando do terror e com um ar de filme B. O filme surfa na onda de OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA e a sequência inicial é chupinhada da abertura do filme de Indy. Aproveitar-se de fórmulas de sucesso é uma constante dentro do trabalho de produtoras fora do mainstream de Hollywood. Talvez muito do charme dessas produções, como as da Cannon ou as de Dino de Laurentiis, esteja no fato de que as pessoas envolvidas estão suando sangue para conseguir se aproximar do resultado de produções mais endinheiradas.

Como caçador de relíquias, Jackie Chan tem de viajar o mundo a procura de tesouros em grandiosas locações, paisagens e um orçamento pequeno fica mais evidente nesse tipo de história. Não sei a qual diferença em relação ao dinheiro investido nos filmes, masPROJECT A, mesmo sendo um filme de época, parece que recebeu o triplo. Outro ponto que parece dar ao filme um toque de exploitation à italiana é a seita secreta que faz às vezes de antagonista de Jackie, assim como a violência e a nudez, incomuns na sua filmografia.

Os primeiros vinte minutos voam. O filme abre com uma cena em que Jackie rouba uma espada de uma tribo primitiva. Se você é fã do trabalho do homem provavelmente sabe que foi pulando em uma árvore para escapar de lanças molengas nessa cena que ele sofreu o pior acidente da sua vida. Um corte rápido vai da tribo se curvando em “respeito” a fuga espetacular do explorador num monomotor para um videoclipe de uma banda de surf music com Jackie nos backing-vocals.

O homem na posse do controle remoto pausa o vídeo e explica para seus superiores que para conseguir todas as partes da Armadura de Deus basta sequestrar a antiga namorada de Jackie que ele fará o serviço. Prosseguimos para um show solo do antes vocalista principal daquela banda intercalado com a sequência do “sequestro” da ex-namorada. Acontece que em vez de descobrir o endereço da moça e capturá-la sozinha e indefesa, os membros dessa seita macabra preferem entrar metralhando todos os participantes de uma feira de moda mambembe.

O resultado é um clipe que alterna e relaciona as cenas do show com a matança no desfile parisiense numa montagem MTV, fundada em 1981, que influenciaria todo cinema que buscava um público jovem. Até a parte quatro da série Loucademia de Polícia tem uma clipe gratuito de skate com ninguém menos que Tony Hawk. Ou seja, nada mais anos 80. As cenas do show de Alam, o amigo de Jackie, servem para mostrar que ele seguiu carreira na música. E as cenas do sequestro violento de Laura, a terceira peça do triângulo amoroso entre os amigos, mostram que esses homens não medem esforços para atingir seus objetivos, mesmo que tenham que matar. Se apresentadas em sequência e não intercaladas perderiam a graça. Seriam simples cenas de exposição, sem encanto, se essa é a palavra adequada para descrever massacres ao som de synth pop.

Jackie acaba conhecendo Lola, que coleciona as outras partes da Armadura de Deus. Depois, Jackie recebe a visita de Alam avisando que Laura foi sequestrada e o resgate é a Armadura. Os três decidem ir atrás dos sequestradores e voltar com Laura e a Armadura completa. Essa é a trama principal. Simples. É difícil entender como o filme consegue se tornar tão arrastado em alguns momentos.

Eu não costumo pegar muito no pé de atores e nesse tipo de filme até prefiro atuações caricatas e exageradas. Mas Lola Forner, que apareceria depois em WHEELS ON MEALS, realmente incomoda. Sabe quando às vezes você lê uma crítica e o redator chama a atenção para falta de carisma de um ator? As vezes não é questão de “ir com a cara” de alguém. Lola não faz esforço nenhum para entreter, comover ou quer que seja. Transparece a má vontade de alguém que queria só alavancar a carreira de modelo. Triste. Jackie se porta mais como o herói, deixando que Alan assuma a maioria das piadas, deixando o ator mais reservado. Mesmo em POLICE STORY, um filme mais sério, o lado cômico de Jackie consegue aparecer com mais facilidade do que aqui.

Outra coisa difícil é ter paciência para os diálogos. Sejam os longos discursos do colecionador (atenção no flashback com soldados trombando no campo de batalha) ou toda a sequência que envolve as confusões “românticas” entre Jackie, Lola e Laura. Há uma cena similar em PROJECT A 2 em que Jackie e vários outros personagens se escondem na casa de uma jovem, presa no meio da confusão. O ritmo e o suspense ajudam cena a ficar engraçada. O que passa longe em ARMOUR OF GOD.

Os problemas de ARMOUR OF GOD estão ligados a falta de peso nas consequências das ações das personagens. O trio formado por Jackie, Alan e Lola decide levar adiante o que seria a troca da armadura por Laura, uma isca à la Walter Sobchak. Os sequestradores abrem o saco de Alan para descobrir algumas panelas velhas. Na sequência, é claro começam as confusões com Jackie e Alan perseguindo os responsáveis pela troca para se deparar com o resto da gangue de tocaia (como no ataque  do Han Solo).

Mas acontece que diferente dos niilistas de Lebowski, esta gangue realmente estava com a pessoa que dizem ter sequestrado e o erro de Alan se prova mais tarde não ter nenhuma gravidade. Não faz com que Laura perca um dedo do pé. Eu sei que esse é um filme de pancadaria e comédia mas então não colocassem aqueles assassinos sanguinários do começo e criar toda essa expectativa!

Os homens da seita se mostram neste momento uma gangue de motociclistas, que passa então a perseguir Jackie no seu Mitsubishi cheio de gadgets. Ou seja, há uma variedade de figurino que você pode escolher ao entrar nessa seita. Seja o estilo monge, terrorista árabe ou rebelde de motocicleta. Imagine como seria interessante se fosse melhor explorada a ideia de que eles na verdade são a manifestação do mal encarnado. Vilões genéricos como uma força da natureza.

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Há uma cena inclusive que mostra um dos líderes da seita detalhando aos cúmplices a produção recente de drogas. Mas se eles estão vestidos de monges enfurnados num monastério, quem está lucrando? O velho da barbicha?  Quem sabe eles poderiam ser uma fração de uma organização criminosa mais complexa. Infelizmente a ação desses mal feitores fica restrita a se relacionar com prostitutas e tomar sopa de legumes. A cena em que Jackie finalmente sai na mão com os monges te lembra porque você aguentou todo esse vai-e-vem. Ninguém consegue criar cenas de lutas mais satisfatórias, divertidas e exageradas que Jackie Chan. Os monges voam pela sala de jantar, batendo a nuca na parede, as canelas nas tábuas dos bancos de madeira e as costas aterrizam no chão de concreto. Esses caras merecem medalhas!

Por fim o embate final. Como final-bosses temos quatro mulheres negras e fortes. Personagens realmente inesperados e que  seriam um acréscimo interessante na teoria da organização maligna que levantei a pouco. Esse quarteto não faria feio ao lado de grandes exemplares da Spectre, organização criminosa dos filmes de James Bond.

O problema é que na hora em que o quebra-pau começa é possível notar que as atrizes dão lugar a dublês vestidos de mulher. Já é possível notar esse tipo de troca na briga do refeitório. O que seria o grande atrativo de uma cena tão incomum perde um pouco a força. Imagine se as atrizes que tivessem sido escolhidas realmente lutassem como a Michelle Yeoh (de POLICE STORY 3) por exemplo? Seria mais interessante. Mas a cena não deixa de ser bem divertida. Num momento Jackie sobe numa plataforma com espaços entre as tábuas para fazer a oponente prender o salto do sapato.

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Por fim, Jackie foge da fortaleza que está desmoronando pelos explosivos que acendeu lá dentro para pular para dentro do balão de ar quente, pilotado por ninguém menos que Lola, acompanhada de Laura e Alan. Do base jumping o filme corta para uma take de Jackie, como na queda do carro nazista em BLUE BROTHERS, pulando de uma altura consideravelmente maior do que aparenta ser a montanha. O filme tem poucas cenas de ação. E a impressão que se tem é que nosso amigo deu uma pisada no freio depois do acidente que sofreu no começo das filmagens. Mas ARMOUR OF GOD não deixa de ser um dos trabalhos mais curiosos do ator.

Segue a crítica bem mais otimista que a minha no Kung Fu Kingdom 

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