ASSASSINO A PREÇO FIXO (The Mechanic, 1972) | REVIEW

A Face de Bronson

Um diretor de cinema que sabe a força que um rosto pode exercer na tela grande merece respeito. Michael Winner pode não ter merecido o título de gênio de seu ofício, mas soube como poucos explorar a face de Charles Bronson. Não que o ator nascido na Pensilvânia seja um primor em expressão facial, mas quem acompanha o cinema de ação sabe que a simples aparição de sua cara amarrada é sinônimo de uma dose bem charmosa de tiros e pancadaria. Talvez por isso, dois anos antes de Winner e Bronson alcançarem o ápice de suas carreiras com DESEJO DE MATAR, o mais direto filme de ação da dupla comece com uma imagem do rosto de Bronson e a trilha marcante composta por Jerry Fielding ao fundo.

Winner e Bronson, nos bastidores de “Desejo de Matar” (1974)

ASSASSINO A PREÇO FIXO tem todas as características que um bom matador deve ter. Como avisa a capa da edição brasileira do filme, lançada pela Flashstar, é limpo, rápido e profissional. E também é humano, logo, passível de erros. Mas falaremos deles mais adiante.

Agora voltemos a sequência de abertura. São 15 minutos sem diálogos onde admiramos o integrante de uma rede de assassinos e aluguel Arthur Bishop (Bronson) investigar a rotina de sua próxima vítima, preparar a armadilha que não deixará rastros e esperar calmamente pelo momento de entrar em ação. Tudo isso dentro de um quarto de hotel barato, com a cama coberta por suas maletas que escondem armas e outros instrumentos de trabalho. Se o Django de Sergio Corbucci arrastava um caixão e ninguém desconfiava, não seria uma simples maleta que levantaria suspeitas. A tensão criada faz o espectador até suspeitar de que Assassino à Preço Fixo será um filme com pouca ação, já que o clima está mais para Janela Indiscreta, com direito a lente de longo alcance. Mas basta a primeira explosão acontecer para respirarmos aliviados. Tio Bronson não perdeu a mão.

Os erros aparecem no filme junto com a chegada de Steve McKenna, interpretado pelo fraco Jan-Michael Vincent. Bishop encontra o garoto no enterro de seu amigo Harry (Keenan Wynn), pai de Steve, cuja morte foi provocada por… Bishop. Ossos do ofício de matador. Bom, a questão é que ele fica impressionado com o rapaz. Óbvio que este olhar de interesse está no roteiro, já que o público mais atento vai perceber que Steve parece ter talento para tudo, menos para tornar-se um assassino profissional. Falhas de atuação à parte, Bishop é o homem que está sentido o peso dos anos e das balas disparadas em suas costas. Após uma crise de ansiedade, ele resolve que é chegada a hora da aposentadoria e, seguindo a lei dos cowboys que treinavam jovens pistoleiros para o tiroteio no Velho Oeste nunca ter fim, propõe a Steve uma parceria, indo contra as regras rígidas da organização para qual trabalha.

As cenas que retratam os primeiros contatos entre Bishop e Steve são tão dispensáveis quanto as que nosso protagonista aparece de pijama vermelho ouvindo música clássica em sua casa decorada em estilo rococó. A ideia é mostrar que ele é um homem de gostos refinados, o que contrasta com a violência de seu ganha-pão. Há quem não contenha o riso ao vê-lo admirar obras de arte entre um gole de vinho e outro. O importante é que logo estes momentos passam e vemos Bishop vestir sua jaqueta surrada e embarcar em seu carrão. Ele também sabe que bom mesmo ele é de arma na mão.

Vale ressaltar aqui uma tentativa um pouco mais corajosa de trazer humanidade para a figura de Bishop. Ele chega na casa de uma garota, interpretada por Jill Ireland, esposa de Bronson na vida real, e ela se agarra ao seu pescoço cheia de saudade. Ele parece não dar muita importância para a recepção calorosa e escuta sem muita atenção a carta que ela escreveu para ele mas não teve tempo de enviar. Ela segue demonstrando carência e ele frieza. Na manhã seguinte descobrimos que a moça apaixonada é uma prostituta que exige seu extra, já que teve o trabalho de escrever a carta requisitada por seu cliente. O homem que mata sem remorso tem problemas sérios com relacionamentos amorosos. A questão não é aprofundada e nem cabia dentro do gênero, ainda mais numa produção feita para arrecadar uma bilheteria majoritariamente masculina. Mas fica no ar a ideia de que por trás da fantasia de macho destemido há um prato cheio para uma sessão de análise. Freud iria adorar Michael Winner, pelo visto.

O tiroteio no barco e as investigações nas ruas de Nápoles que Bishop divide com Steve mantem a qualidade de ASSASSINO A PREÇO FIXO e são os motivos que fazem deste um clássico absoluto do cinema de ação dos anos 70. Mas assim como acontece na abertura sem rodeios, Winner deixa para dar sua assinatura rápida e certeira nos dez minutos finais do longa-metragem. Não é qualquer um que mata Charles Bronson, o matador que parece invencível. Também não é qualquer um que faz dele um profissional da morte até depois de morto. Se você acha que isso foi um spoiler, acalme-se. Nenhuma frase conseguirá transpor a beleza que é a conclusão de ASSASSINO A PREÇO FIXO. E você jamais vai entrar no Mustang alheio sem lembrar de um certo rosto.

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2 Comentários

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  • Boa noite. Hoje é meu níver. Então, de presente, poderia escrever, ao menos uma vez por semana, uma resenha como essa ( quem sabe até maior) de um filme de ação/ aventura dos anos 70 ou 80? A filmografia do Bronson seria um belo começo. Muito obrigado pela atenção e um forte abraço!!!!

  • É um baita filme, aquela sequência inicial seria muito cultuada e bem falada se o filme fosse dirigido por um diretor ”queridinho” dos pseudocults, mas enfim, deixemos isso de lado.

    Para mim é um filme que entra fácil no top 10 do Bronson.

    Aquele RMK do Jason Sthatan é bizarro, mudaram totalmente a ideia do filme original, que era a de mostrar um assassino ”calculista” para uma espécie de John Matrix de Comando para Matar, e olhe que teve continuação, coisa que jamais poderia ter devido à obra original ser bem diferente.

    Espero que o Desejo de Matar do Willis seja mais digno.