REVIEW: BALA NA CABEÇA (Bullet in the Head, 1990)

Um Tiro na Inocência

A Guerra do Vietnã deixou marcas indeléveis na juventude americana dos anos 60. Graças ao cinema hollywoodiano, estas marcas se espalharam pelo mundo, servindo como inspiração para filmes incríveis. Bem longe dos Estados Unidos, um chinês abria uma cicatriz no cinema de ação de Hong Kong tendo a cidade de Saigon como pano de fundo. Em plena entrada dos anos 90.

O roteiro de BALA NA CABEÇA, de John Woo, aparentemente é um clichê, mas a simplicidade da trama tem explicação. A base precisa ser simples, limpa, para que os tiros e o sangue escorram com maior facilidade e o drama, quando ativado, possa ser apreciado com mais força. Três amigos: Ben, Frank e Tom. O mais sensível deles (Frank) se mete em confusão e isto é o estopim para que o trio embarque no mundo do crime, cada um com um objetivo diferente.

Sinopse concluída, é hora do que realmente interessa. Logo na cena de abertura fica claro que a América do Norte é a terra prometida ou algo semelhante. Uma versão instrumental de I’m A Believer, do grupo The Monkees, embala um mini videoclipe de apresentação do trio protagonista. A fonte são os musicais como Grease, mas estamos na terra do Kung Fu e as coreografias incluem socos, tombos, chutes e alguns tapas. Os créditos iniciais surgem para apresentar o romance, a pobreza da periferia de Hong Kong. E o desejo de mudança dos três protagonistas. Estamos diante garotos que vão perder a inocência no meio do fogo cruzado.

É do meio para o final que BALA NA CABEÇA deixa fluir sua magia. O longo tiroteio dentro do cabaré Bolero, que culmina com o sequestro do chefe do contrabando, Leung, dá uma prévia das cenas maravilhosas que Woo iria criar ao longo de sua carreira. Os tiros ininterruptos, o sangue em slow-motion e as mortes insólitas. Está tudo lá, ainda em estado bruto. E é a partir da fuga de Ben, Tom e Frank, acompanhados de Luke e sua namorada Sally, que a aparente aventura no Vietnã ganha seu peso. Saem de cena os amigos fiéis em busca de grana e entram homens com diferentes formas de lidar com o poder.

Tom, que desde o começo deixou claro que faria qualquer coisa para enriquecer, é o mais frio e o primeiro a colocar em jogo a amizade de mais de uma década com Ben e Frank. As balas disparadas, a princípio pela sobrevivência, agora atingem soldados americanos e vietnamitas no meio do lamacento acampamento de guerra. A loucura, instaurada em muitos sobreviventes do Vietnã após o término do conflito, fica visível em Frank da maneira mais tradicional. Seu riso nervoso diante da ordem de matar e o começo da ladeira. A bala na cabeça do título será dele. E o responsável por ela será Tom. Parece um pequeno spoiler, mas é preciso assistir como Woo constrói essa transformação.

A insanidade de Frank tem a estética crua, com direito a baba escorrendo e a procura eterna por drogas que mascarem a dor e as lembranças. Impacta mais o espectador, mas é uma preparação para o verdadeiro insano da trama surgir. Ben, depois de sobreviver mais de uma vez, encontra em Tom a loucura mascarada. Em silêncio, ele fugiu com o ouro que devia ser dividido com os amigos, comprou a tão sonhada Mercedes e agora prepara-se para ser chefe de uma organização. Galgou o cargo atirando sem pestanejar ou identificar a vítima. Ou melhor, houve a identificação. E é isso que comprova sua loucura.

A apresentação da verdadeira face de Tom é o capítulo final de BALA NA CABEÇA. E, honrando sua vocação para a tragédia, o filme de Woo encerra com um duelo. Misturando o momento auge dos faroestes e as perseguições e explosões que lhe são caras, o diretor encerra seu filme com maestria. Na sequência ele faria maravilhas como FERVURA MÁXIMA e RAJADAS DE FOGO, mas a força de BALA NA CABEÇA ainda persiste. Da primeira sessão, em VHS, passando por algumas madrugadas televisivas e agora, em formato DVD, surgiram novos significados e algumas cenas, que antes passavam despercebidas, ganharam novo brilho. Bons filmes são assim.

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