COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973) | REVIEW

Sem dó nem piedade!

Exemplares de blaxploitation não economizam em seios à mostra, garotas que atendem telefone só de calcinha e sutiã ou em dar clima erótico a uma briga entre mulheres. Lembremos: produtores queriam a bilheteria transbordando, mesmo que isso custasse o bom senso. COFFY, do lendário diretor de blax Jack Hill (que era branco, diga-se de passagem) tem todos os elementos citados acima. E nunca um filme foi tão empoderador. Primeiro, temos Pam Grier capitaneando o elenco no papel título. Ser batizada com uma palavra que é um diminutivo para coffin (caixão, em inglês) já diz muito sobre a enfermeira que decide fazer justiça com as próprias mãos depois de ver a irmã mais nova cair no vício em heroína.

Este é só o primeiro drama da protagonista. Sua outra irmã era prostituta e seu irmão teve o fim dos traficantes dos bairros mais pobres, que é a morte por dívida. Estas informações chegam ao espectador em um diálogo curto e sem nenhuma lágrima. Coffy sabe que a coisa não é fácil, mas simplesmente se queixar não leva a nada. Ao invés da caixa de lencinhos, ela pega a espingarda cano duplo e estoura a cabeça do responsável pela primeira e viciante dose de sua irmã. Sem titubear. Vale ressaltar aqui que em vários momentos Coffy afirma que sentia estar em um sonho quando realizou as mortes. Parece um truque de roteiro para amenizar um pouco a violência do ato, mas as atitudes da personagem reforçam que não resta um pingo de arrependimento. Matou, mataria de novo. O uso do sonho parece mais para reforçar a atmosfera catártica da vingança que, mesmo quando vai contra a lei, é saborosa.

Outro estereótipo ligado a feminilidade subvertido em COFFY é o dos segredinhos. As propagandas de cosméticos dizem que são cremes e maquiagens. Coffy os utiliza com um charme extra. Seu penteado black power esconde agulhas e lâminas e seu leãozinho de pelúcia, tão meigo, vem recheado com uma pistola com silenciador. Kit básico de heroína badass. Na forma, COFFY esbanja sensualidade e violência, bem ao gosto do público masculino. Seu diferencial fica por conta de ter sua vingança motivada pelo amor pela irmã caçula e não por um homem. A ideia de que mulheres só lutam para voltarem aos braços do príncipe encantado não tem espaço no filme. Até há um homem em sua vida, o político Howard Brunswick, interpretado por Booker Bradshaw, mas ela lembra dele pouquíssimas vezes. Suas prioridades são outras.

Na melhor sequência de COFFY, onde ela é perseguida por um carro da polícia, temos a personalidade da protagonista em forma de imagem. Ela corre, se esconde, tropeça, levanta. A informação de bastidores de que Pam Grier estava com a perna quebrada durante as filmagens só reforça que estamos diante de uma mulher que não irá sossegar enquanto não finalizar seus planos. E Brunswick, que no começo do filme ela chamava de seu homem com brilho nos olhos, estão neles e não é para programar a próxima viagem juntos.

Traída, e não apenas no sentido amoroso, é preciso frisar, Coffy ainda precisa ouvir um papo furado que inclui a promessa de ser “colocada nos eixos”. Coffy sabe que nem ela, nem você e ninguém precisa ser colocada em lugar nenhum. O tiro na região logo abaixo do umbigo não foi mirado à toa. Mais que matar um canalha ambicioso, Coffy matou um machista. Sim, COFFY termina com uma cena delicada, onde a protagonista caminha trôpega pela beira da praia. Um final que é um recomeço e onde há interesse em explorar as perdas da moça. Coffy não é digna de pena, assim como nenhuma mulher deve ser. Fica a sugestão de substituir a piedade pelo respeito. Todas nós agradecemos.

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