CONDENAÇÃO BRUTAL (Lock Up, 1989) | REVIEW

Stallone na solitária

Sylvester Stallone já havia sido a cura para o crime em 1986 com COBRA e, um ano depois, dirigia um caminhão e ganhava um campeonato de queda-de-braço em FALCÃO – O CAMPEÃO DOS CAMPEÕES. Quando agosto de 1989 chegou, o diretor John Flynn, um dos grandes quando o assunto é filme de ação, decidiu que era chegada a hora de colocar o homem de olhar melancólico atrás das grades. E para sofrer. CONDENAÇÃO BRUTAL segue a linha dos filmes que deixam o espectador um pouco perdido em suas sequências iniciais. Em meio a empoeiradas fotos em uma oficina mecânica, Frank Leone (Stallone) verifica motores e organiza lembranças. Recebe a visita da namorada, Melissa (Darlanne Fluegel), joga futebol americano com as crianças do bairro e se despede apaixonado, cobrando cartas frequentes. É aí que o cenário principal da trama vem à tona. A viagem do amado de Melissa é até a prisão, onde cumpre pena por agredir um grupo de jovens (chamados de punks pelo personagem) que matou o dono da oficina que fez as funções paternas para Leone.

A vida atrás das grades, apesar de tudo, parece pacífica, com direito a brincadeiras com os guardas e uma cela com livros e referências à arte. Um homem pagando pelo que fez, quieto no seu canto. Óbvio que nem sempre foi assim, pois os papos entre seus companheiros de prisão explicam que ele já empreendeu uma fuga que era dada como impossível. O que para seus colegas é uma marca heroica, para um certo Donald Sutherland é um trauma nunca superado. O ator canadense dá vida a Drumgoole, diretor de uma prisão de segurança máxima nada exemplar, da qual ele virou responsável após a tão aclamada fuga de Leone. O rancor guardado, aliado ao poder, faz Drumgoole mexer os pauzinhos para que Leone vire prisioneiro do seu “estabelecimento”. É onde começa o inferno.

Tortura, espancamento, armações e até tentativa de homicídio. Essas são as principais estratégias de Drumgoole para fazer com que Leone pegue a pena máxima. É nesses momentos que Sutherland deixa claro seu talento até mesmo em trabalhos não tão elaborados como é CONDENAÇÃO BRUTAL. Seu vilão lembra monstros de desenhos animados, de bigode avantajado e com discurso de ódio que, não se pode negar, chega a transparecer uma tensão sexual. Sabemos que muitas bruxas malvadas nada mais eram que apaixonadas pelas princesas lindas e loiras. Polêmicas à parte, a atmosfera de conto infantil também pode ser sentida na interação entre Leone e seus amigos da cadeia. Um jogo de futebol americano é encarado como batalha na lama e demarca território entre o bem e o mal dentro da prisão. É durante esta atividade que Leone inicia a amizade com Eclipse (o sempre ótimo Frank McRae), responsável por um projeto de oficina mecânica dentro da cadeia.

O local é o espaço para o sonho, com a reforma de um Mustang que é extremamente simbólica. Se o carro é o símbolo da liberdade, um carro que não pode sair para além dos muros repletos de guardas é o espaço onde se pode ouvir o barulho do motor e imaginar um passeio pela Broadway em uma noite quente de verão. Um respiro juvenil num lugar onde é preciso ser homem, ou pelo menos aquilo que a sociedade machista acredita ser um. Já que lá fora, Melissa tenta a todo custo ter notícias sobre a transferência de Leone e é mostrada apenas quando conversa com policiais. Assim como a guerra ignora as mulheres que fizeram o mundo andar enquanto maridos, filhos, irmãos e pais estavam no front, CONDENAÇÃO BRUTAL torna Melissa uma eterna namorada perfeita, que não faz outra coisa a não ser buscar respostas sobre seu amor.

CONDENAÇÃO BRUTAL tem boas cenas de briga, alguma das melhores da carreira de Stallone, e abusa do slow-motion para não perder o estilo oitentista e ganha a plateia por colocar o sempre disposto e corajoso Stallone em situação de vítima. Sua fragilidade fica evidente após uma temporada na solitária e poderia ter sido melhor explorada, não fossem os ingressos vendidos para um público que quer ver Leone dar a volta por cima e voltar para os braços de Melissa tão forte quanto era antes de toda essa jornada de sacrifícios. Hollywood condena seu público a finais felizes mesmo quando cabe uma maldade extra. A cena da cadeira elétrica, por exemplo, poderia ter sido encerrada de outra forma. Mas Stallone não vai se rebaixar ao nível do vilão. Antes de tudo, ele é um bom cidadão americano. Seja isso lá o que for.

CONDENAÇÃO BRUTAL foi lançado em DVD no Brasil pela Flashstar com uma edição bacana, que apresenta o filme com imagem em widescreen, legendas, áudio 5.1 em vários idiomas (incluindo inglês original e português dublado) e bons extras, como Making of, bastidores, entrevistas e trailer. O disco também pode ser encontrado na versão DVD Light, que são aquelas edições simples, sem caixas e em embalagens de papel – e por isso mesmo, bem baratas – que são comumente encontradas em lojas como a Americanas.

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