DEFENDOR (2009) | REVIEW

Equivocadamente vendido como um filme leve, congênere de KICK ASS, SUPER, e outras paródias de filmes de heróis, DEFENDOR é na verdade um drama pungente sobre a busca de um homem em ludibriar a inexorabilidade de seu destino. Essa premissa inicial já foge completamente da tradição do justiceiro que ganha seus poderes a partir de acidentes radioativos e afins, pois o protagonista interpretado por Woody Harrelson carrega seu fardo exatamente por não suportar sua identidade de origem, seu lado “humano”. O acaso sob um ângulo fantástico não participa de seu backstory, mas pelo contrário; sua formação carrega o peso de uma realidade que só pode encontrar abrigo no âmbito fantasioso de um heroísmo demarcado por uma inocência completamente adversa aos próprios parâmetros do herói moderno. É nesse confronto entre o real em sua faceta mais mórbida e o inverossímil em seu espectro mais inócuo que se concentra a narrativa, talvez uma das parábolas mais tristes e céticas sobre perdas que, por mais que se force o contrário, são definitivas.

Harrelson interpreta Arthur Poppington, um sujeito que leva uma vida completamente medíocre trabalhando como guia de trânsito e morando numa oficina repleta de entulhos e gibis. Essa faceta perdedora de Poppington faz desvelar em seu alter ego DEFENDOR seu (aparente) extremo oposto, um super herói imbuído do mais nobre senso de justiça, carregado de frases feitas e caricatas. Sua postura mais desperta o riso e a chacota do que o temor, a despeito de uma vez ou outra até dar algum trabalho para a bandidagem. Suas armas nada mais são do que inocentes bolinhas de gude ou vidros repleto de abelhas. Esse é o elemento que grossíssimo modo pode insinuar algum traço cômico no filme, e o responsável por falaciosas chamadas como “uma comédia para toda família”, “um dos filmes mais engraçados do ano”, e outros absurdos que demonstram que os distribuidores se valem das mais medíocres estratégias ao concentrarem seu poder de força num padrão altamente simplório de público.

Boa parte do filme é narrada pelo próprio Poppington à sua psiquiatra, a Drª Park (Sandra Oh). Alguns desses planos propositalmente demorados nos dão uma mostra do domínio cênico de um dos melhores e mais subestimados atores de sua geração: Woody Harrelson. A forma como intercala momentos de evasão extrema com outros de absoluta infantilidade nos dão a dimensão dos extremos em que ele trafega com maestria e sutileza, sem apelar para o hipervalorizado arcabouço dos maneirismos alucinados de, por exemplo, um Heath Ledger. Harrelson é da escola de Brando quando se trata de minúcia expressiva e de Pacino, quando destila fúria biliar (vide o soberbo UM TIRA ACIMA DA LEI, de 2010, baseado em obra de Elmore Leonard). Infelizmente, o excesso de produções ordinárias de que participou acabou por encobrir o ótimo ator que consegue transitar desde o demencial (ASSASSINOS POR NATUREZA, a obra-prima de Oliver Stone) até o trágico (O POVO CONTRA LARRY FLYNT, pelo qual foi indicado ao Oscar), passando pelo psicótico (no belo e subestimado SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU). Ou seja, o manancial interpretativo de Harrelson se instala com genialidade no contingente do errático, naquele que pende para fora da linha – e isso em tempos politicamente corretos como os nossos é quase um pedido de bancarrota.

Em dado momento do filme, o processo de desconstrução da mitologia heroica em DEFENDOR se desdobra em outra personagem: a prostituta Katerina Debrofkowitz (Kat Dennings), de rumo tão trágico quanto o do herói. Sua vida é um verdadeiro desfile de desgraças, e para suportar seu cotidiano, também precisa se amparar em um subterfúgio que entorpeça seu foco sobre o real, ainda que não tão digno de nota quanto o heroísmo de Defendor: o uso desenfreado de cocaína. Essa personagem representa o anverso absoluto da epistemologia do parceiro usual, pois em momento algum ela coaduna com seus ideais. Pelo contrário. Ela representa a face da moeda virada para o que de pior o mundo real tem a oferecer, daí os constantes escárnios com que a princípio destrata o herói (que em momento algum a acolhe; ela é quem resolve se alocar em sua casa). A desfiguração dos protocolos da parceria se dá em boa parte do filme, pois suas vidas estão aparentemente tão perdidas, que se torna impossível enredá-las umas nas outras. É um processo lento até que isso de fato aconteça. A única teia da qual Katerina não consegue se libertar é a da bandidagem para a qual trabalha oferecendo seus serviços, uma cadeia da qual fazem parte policiais corruptos, chefões de droga, cafetões, etc.

Interessante observar que o diretor Peter Stebbings conta essa pequena história de forma completamente não-linear, ainda que ancorada em planos longos. Ou seja, não há concessão alguma para o tal público em busca de diversão ligeira. Durante boa parte da projeção o espectador não tem ideia dos porquês que levam aquele pacato sujeito a se vestir de herói à noite, a despeito de seu nítido desequilíbrio mental, sempre mencionando um certo “Capitão Indústria” como o objeto maior de suas empreitadas. Nos momentos em que a narrativa se desdobra em pequenos flashbacks da infância de Poppington, tomamos conhecimento de que sua mãe, que já não era presente em sua criação, morrera vítima de overdose de drogas. Deixado aos cuidados de seu tio, o jovem Poppington a certa altura pergunta: “minha mãe morreu de quê?”. Ao que ele responde: “os capitães da maldita indústria a mataram”. Essa frase, lida sob a ótica de uma criança que encontrara alento para tanta dor no universo dos quadrinhos, adquire um valor metonímico que se fixará em sua mente de maneira irremovível. O sintagma desprovido de glamour “capitães da indústria” dá espaço para um inocente “Capitão Indústria”, e é nesse diapasão entre a realidade perversa, povoada de tiras corruptos, e o universo maniqueísta das histórias em quadrinhos de outrora (onde um tira nunca revelaria essa faceta) que se aloca a vida dúbia de Poppington/Defendor. Nota-se, inclusive, que seu alter ego diurno assume todas as balizas da mediocridade, da vida sem ambições, o que se reflete em seu comportamento dentro desse esquadro, completamente isento de vitalidade. Poppington é um ser metafisicamente morto. Quando assume a persona de Defendor, ativa o único mecanismo passível de uma mudança de postura, ironicamente advindo da irrealidade. O maniqueísmo do herói provém da única redoma de felicidade – e também o único parâmetro de moralidade digno de menção – que ele tivera contato na vida: o universo das HQs.

Ao final dessa pequena anti-parábola, o peso com que o verossímil atinge o universo fantasioso de Defendor acaba sendo a única possibilidade do real penetrar em sua esfera inquebrantável, mesmo que para isso o custo seja sua própria vida física – a metafísica já se estilhaçara há muitos anos. Contraditoriamente, a realidade penetra na existência de Defendor a removendo de seu corpo, numa das cenas mais dolorosamente excruciantes do filme. Mas é nesse ponto de partida que o ideal de conduta do herói transmigra para a esfera até então refratária da prostituta, que a partir desse momento imiscuirá em sua vida os tais paradigmas de moralidade de seu amigo.

O herói físico morreu, mas seu legado permanecerá ecoando na existência de outra pessoa; o que, por extensão, podemos afirmar sobre esse filme. Sua morte em vida (menos de meio milhão de arrecadação) não impedirá que os poucos felizardos que o assistiram (e compreenderam) perpetuem sua beleza.

Gostou do conteúdo? Seja o nosso patrão! Yippee Ki Yay, Motherfucker!

2 Comentários

Deixe uma resposta