REVIEW: DEZ MINUTOS PARA MORRER (10 to Midnight, 1983)

Quando se fala da fase oitentista de Charles Bronson, normalmente a crítica a desqualifica como decadente, unidimensional e gratuita, se comparada à época em que protagonizou obras de Sergio Leone, Robert Aldrich, René Clement, Don Siegel, etc. O que muitos não observam é que, para o bem ou para o mal, exatamente tais supostas limitações de ordem dramatúrgica representam os fatores responsáveis pela mitologia criada ao redor da persona de Bronson, dado que obras mais refinadas de décadas anteriores impossibilitava. Mas não é bem essa questão (a da construção do mito) que se pretende observar aqui, e sim a reinstalação do noir fundido a uma rudeza típica da lavra boca-do-lixo da fase oitentista de Bronson no subestimado DEZ MINUTOS PARA MORRER.

Advindo da cultura pulp, o noir, popularizado nos anos 40 sob a tutela de Raymond Chandler, Dashiel Hammet e outros escritores que o submeteram a uma tintura marginal e acessível, (lembremos que o noir era um gênero popular, vendável, para se ler no ônibus, editado em papel vagabundo, por isso outrora subestimado como literatura menor), logo foi incorporado ao cinema sob a lupa expressionista de realizadores como John Huston, Fritz Lang, Orson Welles, Billy Wilder e etc, todos grandes estetas que, ao não se limitarem à transposição para as telas das características mais reconhecíveis da gramática dessa literatura “vagabunda”, exatamente por isso esculpiram obras perenes, icônicas e de largo alcance que fazem desse decênio a era de ouro do gênero.

Em 1958, Orson Welles com sua obra-prima A MARCA DA MALDADE redimensiona sua rudeza, e a ressignifica sob ângulos até então inéditos, alçando seu espectro a uma categoria mais artisticamente prestigiada. Desde então, praticamente todos os olhares que se voltam para o noir o fazem no intuito de resgatar seus dados mais icônicos filtrados por um cruzamento metalinguístico. Cruzamento este que, se por um lado dão amplitude dramatúrgica a seu arcabouço, por outro o edulcoram ao não serem mais apenas portadoras da rusticidade de literatura “rápida e eficaz” de outrora. Basta observarmos o exemplo máximo desse cruzamento, já dos anos 70: CHINATOWN, obra maior de Roman Polanski, um noir de tinturas solares e febris, que constantemente dialoga com sua própria mitologia. Outros exemplos poderiam ser citados (A PISCINA MORTAL, de Stuart Rosenberg, UM LANCE NO ESCURO, de Arthur Penn, UM AGENTE NA CORDA BAMBA, de Richard Tuggle, CLIENTE MORTO NÃO PAGA, de Carl Reiner, etc), todos eles desdobramentos envernizados de suas bases poeirentas. E o que DEZ MINUTOS PARA MORRER tem a ver com isso tudo?

dez minutos para morrer

Exemplo do pacote de filmes ditos menores responsáveis pelo rótulo de “vingador urbano” de Bronson, sua rusticidade sem filtro o remete a uma tradição do noir dos anos 40 que o tal olhar mais refinado construído ao longo de décadas despreza por completo. O que se torna um paradoxo, pois em seu cerne, antes mesmo de se tornar um gênero, o noir nunca almejou transpor suas películas do drive-in mais ordinário para as mostras em centros culturais (onde CHINATOWN é presença garantida), mas sim oferecer uma hora e meia (um noir legítimo nunca dura demais) de entretenimento simples, lógico e eficaz para o espectador comum. Aliando-se a esses fatores, temos o subgênero boca-do-lixo do Bronson 80’s (cuja desglamourização da vida urbana, com suas ruelas sujas, becos, mendigos e estupradores seria seu traço mais notório) e um parentesco com a estética do slasher movie, em voga na época pelas franquias SEXTA-FEIRA 13 e HALLOWEEN, características cujas ressonâncias estão no cinema de terror dos anos 30 e no suspense investigativo dos anos 40 (aliás,duas das bases do noir). Não há aqui as mulheres fatais, o sobretudo e o quebra-cabeças lógico típicos do gênero em sua forma intacta, mas sim ressonâncias suficientemente fortes, principalmente no âmbito de um certo obscurecimento visual e narrativo, para que sejam notadas.

A trama de DEZ MINUTOS PARA MORRER não poderia ser mais simples: jovem serial killer, conhecido por se despir antes de praticar um assassinato, é perseguido incessantemente pelo rude inspetor de polícia Leo Kessler (Bronson, óbvio), que aqui constrói um personagem similar ao de KINJITE, DESEJOS PROIBIDOS (também de J. Lee Thompson), ambos dotados de uma moral conservadora de “justiça a qualquer custo”, mesmo que para isso alguns métodos ilegais sejam utilizados. Esses elementos arquetípicos do gênero por si só o categorizariam como mero apêndice de uma gramática explorada em demasia, caso não fosse essa mesma simplicidade exatamente o fio condutor de sua escuridão rudimentar ao núcleo mais legitimamente básico do cinema boca-do-lixo. Não se observa, por exemplo, uma certa claridade refrescante típica dos anos oitenta aqui, ou ornamentos que o revitalizem, mas uma volta às bases, tingida de um cromatismo carregado de borras obscurecidas, sujas, pobres (mesmo que essa pobreza seja um fator involuntário).

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A atuação de Bronson é um capítulo à parte. Sua face envelhecida, desgastada, mas ao mesmo tempo preocupada com a eficácia do seu trabalho (como fica nítido na introdução, vergonhosamente ceifada da edição em DVD, em que, ao fim de um rápido diálogo com um repórter sensacionalista sobre o tal psicopata, Bronson interrompe seu preenchimento de relatório – aliás, feito com explícito apuro profissional, como convém a alguém que está disposto a antes de tudo, ser eficiente em seu trabalho – e diz: “só quero pegar esse filho da puta”, mais uma prerrogativa de uma mitologia do que uma frase, para imediatamente surgir na tela o nome CHARLES BRONSON, isomorficamente ornamentado com um solo torto de guitarra, em uma óbvia celebração da persona obsessiva e justiceira que se tornou sua marca. No decorrer da narrativa percebemos que a faceta cana-brava de Bronson é muito mais a prerrogativa de uma postura incompatível com os novos tempos do que necessariamente a índole maniqueísta de um anti-herói dos anos oitenta. Seu terno de advogado de sobrado, seu senso de disciplina (como na mencionada introdução do filme), de organização (quando dá um esporro em um policial que retira uma prova da cena do crime com a mão), moralismo (ao esfregar na cara do assassino um aparelho de se masturbar encontrado em seu banheiro), e muitos outros arquétipos o tornam incongruente com a postura pop dos heróis daquela década, que revitalizou o cenário de ação com frescor juvenil. Bronson é vetusto, feio e velho, o que dá verossimilhança à sua composição de alguém que não só pertence a outro tempo, mas também despreza por completo as tais conquistas libertárias advindas da juventude (o filme explora até em demasia esse lado juvenil sem rédeas, em cenas de nudez, festas, bebedeiras, etc.).

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No entanto o senso de justiça a qualquer preço segundo a gramática de Bronson segue vias por vezes fora dos eixos mais estreitos da lei. Ele quer, a qualquer custo, remover esse câncer em forma de gente da sociedade, e vendo que os meios padrões se mostram ineficientes, inicia um jogo de gato e rato extremamente pessoal, que desemboca em uma claudicante sequência de perseguição na rua, cujo clímax explicita o cansaço extremo do tira ao interpelar o maníaco e, ofegantemente, desabafar sobre suas tentativas em “enquadrá-lo” segundo o sistema. Bronson, nesse momento, com a veracidade que suas rugas lhe conferem, transmite toda exaustão do tira à beira de um colapso, aquele que não vê outra solução para a resolução do problema a não ser a óbvia. DEZ MINUTOS PARA MORRER pode surpreender inclusive aqueles que buscam uma extensão da franquia DESEJO DE MATAR. São propostas completamente distintas, apesar de preconceituosamente postas sob a mesma categoria. O Bronson de DEZ MINUTOS PARA MORRER é muito mais investigativo e sutil, por isso o momento em que, por fim, entra em ação, torna o clímax desse pequeno grande filme muito mais chocante e dramático. E um ponto altíssimo na carreira desse grande mito incompreendido.

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2 Comentários

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  • Caro amigo, seus textos são primorosos ( tanto na forma quanto no conteúdo). ALORS, gostaria que, quando puder, escrevesse sobre O Telefone ( de Don Siegel ) e Perseguição mortal ( de Peter Hunt), dois ótimos filmes também com Bronson. Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.

  • Mais classico genero casca grossa estrelado pelo o saudoso Charles Bronson,esse filme foi exibido muitas vezes exibido na TV ,hoje em dia esse filme sumiu da programação das emissoras assim com varios outros filmes de Bronson não são mais exibidos e que diria que os filmes de Bronson passava todo o domingo na Globo e hoje dia os filmes dele não são exibidos em sessão de filmes nenhum da Venus Platinada ,foi lançado em VHS pela Globo Video lá decada de 80 e foi lançado de forma lamentavel em DVD pela Flashstar Home Video.