REVIEW: DJANGO, O BASTARDO (Django, il Bastardo, 1969)

UM DEMÔNIO EM ALMERÍA

Chame um personagem de Django e garanta mais ingressos vendidos. Parecia ser esta a estratégia de alguns produtores do período mais produtivo do subgênero spaghetti western, que movimentou a Itália de 1964 até o finalzinho da década de 70 (há quem diga que foi antes, mas vamos considerar SELA DE PRATA, dirigido por Lucio Fulci e lançado em 1977 como o último spaghetti, ok?). Entre os muitos Djangos que habitaram as telonas, um se destaca por não querer ser apenas uma cópia barata do original dirigido por Sergio Corbucci em 1966 e estrelado por Franco Nero. Um outro Sergio (e na Itália eles são muitos!), o Garrone, optou por ir além do caixão guardião da metralhadora do original e levar a questão da morte a outros níveis. Para ser mais precisa, ao universo fantástico.

DJANGO, O BASTARDO (Django, Il Bastardo a.k.a The Stranger’s Gundown) chegou aos cinemas em 1969 aparentando semelhanças com seus filmes-irmãos. Baixo orçamento, foco nos tiros que assobiam e um protagonista marcante. No caso, um que que não se contentou em ser apenas protagonista e meteu a mão no roteiro. Anthony Steffen, ou Antonio Luiz de Teffé, o ítalo-brasileiro que estrelou 26 exemplares do subgênero, sempre gostou de sugerir aos seus diretores pequenas modificações nas histórias que interpretava, mas foi na produção de Garrone que ele assumiu sua porção roteirista. O protagonista, que ao contrário do homem que inspirou seu nome é um ex-confederado, surge na abertura do longa vestido de preto e com ar misterioso, semelhante a apresentação do filme de Corbucci. Só que o sol escaldante do deserto de Almería, cenários de nove em cada dez spaghettis, ganha filtros azulados e torna-se um local de atmosfera claustrofóbica.

É quase sempre noite em DJANGO, O BASTARDO. Mesmo as cenas diurnas trazem um clima sombrio, com Steffen surgindo em cena como uma aparição. Suas vinganças se destinam a antigos colegas de guerra, traidores de sua confiança. A cada morte, a cruz que vai adornar a sepultura já é garantida pelo próprio matador. O olhar de pavor de suas vítimas e alguns diálogos deixam no ar a ideia de que Django é um fantasma. A trilha sonora gótica só reforça a ideia de um pistoleiro que volta do além para fazer o que ele entende por justiça. Talvez por ter sua parte criadora no roteiro, Steffen reforçou aspectos de sua atuação, sempre acusada por críticos de ser inexpressiva. Seu olhar quase imóvel e sua caminhada ritmada encaixam com perfeição nos ângulos de câmera insólitos escolhidos por Garrone para filmar o mais fantasmagórico dos spaghetti westerns.

Quatro anos após a estreia de DJANGO, O BASTARDO, um rapaz que havia dado início a uma carreira de sucesso na Itália ao protagonizar POR UM PUNHADO DE DÓLARES, dirigiu e estrelou O ESTRANHO SEM NOME. Clint Eastwood não nega, nem confirma, mas seu filme tem a mesma premissa e até cenas muito semelhantes ao trabalho de Garrone. Seja homenagem ou plágio, o que vale é conferir as duas obras e descobrir que há muitos mistérios no oeste e alguns homens trazem suas pistolas do inferno.

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