TAVERNA DO TIGRE #1: DRAGON GATE INN: uma trama, dois filmes

O artigo a seguir contém spoilers

Sinopse: Um eunuco ordena a morte de um general rival e de seus filhos. Uma pousada no meio do deserto será o cenário onde essa trama irá se desenrolar.

No célebre livro “HITCHCOCK/TRUFFAUT-ENTREVISTAS”, em certo momento, os dois diretores conversam sobre adaptações literárias para o cinema. Se minha memória não falha, o Truffaut comenta algo sobre frequentemente ser mencionado que Hitchcock deveria adaptar “CRIME E CASTIGO” de Dostoievski. O Hitchcock responde, entretanto, que jamais adaptaria esse romance (e jamais o fez mesmo). É dito algo sobre uma obra-prima, na concepção original do termo, ser algo que se encontra na sua forma perfeita, e por consequência, não ter como ser melhorada.

Faz todo o sentido. Eu, por exemplo, amo a graphic novel WATCHMEN, a considero uma obra-prima e demorei quase dez anos pra ver o filme do Zack Snyder. Não odiei no fim das contas, mas era um hater por anos porque sabia que nada ia ser superior ao quadrinho de Dave Gibbons e Alan Moore. Muita gente me acusava de ser purista, mas eu sabia que estava certo. Pro Snyder fazer uma adaptação fiel à obra original ele teria que não apenas transportar a trama pras telas, mas revolucionar de alguma forma a linguagem cinematográfica. Muitos esquecem, mas o mérito de WATCHMEN vai pra além da excelente história e das belas ilustrações, mas todo o approach narrativo, todo o transbordamento da estrutura de uma HQ tradicional, indo das capas até os “epílogos”, que continham coisas variadas como trechos da biografia escrita pelo Coruja original, um artigo de ornitologia escrito pelo segundo Coruja, um perfil jornalístico do personagem Ozzymandias, entre outros detalhes que expandiam a mitologia dos personagens… Fora uma mini história de piratas/horror cujo autor dela na trama, descobre-se, tem ligação com um plano do vilão-mór da trama. É muita coisa, definitivamente. Mais uma vez, não odeio e nem acho que fez um trabalho ruim. Se assistirmos WATCHMEN mais como um filme de Zach Snyder, é possível se divertir. Eu me diverti, pelo menos. Mas acho que anos depois do “visionário” ter feito sua fama, já ficou bem claro que ele não é tudo isso.

Mas vamos voltar no tempo. No ano de 1966, mais precisamente, quando um filme chamado “COME DRINK WITH ME” (no Brasil, “O GRANDE MESTRE BEBERRÃO”) foi lançado em Hong Kong. Antes da indústria cultural sair distribuindo adjetivos pra diretores de cinema, um ex-ator que havia decidido trabalhar por trás das câmeras chamado King Hu basicamente revolucionou a maneira de se contar uma história de espadachins. Aparentemente Hu não cresceu cinéfilo, seu interesse por cinema só teria vindo já na idade adulta. Mas, por outro lado, sempre foi um apaixonado por óperas. Sua maneira de filmar os corpos, os combates, além de sua mis én scene, foram certamente influenciadas por isso. As ações dos espadachins diziam tanto ou mais do que suas palavras; a música é um elemento tão importante quanto a fotografia, o figurino ou às locações. O termo esteta, embora um pouco fora de uso, serve bem para definir o sujeito.

Depois do sucesso estrondoso de “O GRANDE MESTRE BEBERRÃO”, King Hu saiu de Hong Kong e foi para Taiwan, onde filmou no ano seguinte seu outro clássico DRAGON GATE INN. Embora provavelmente não seja uma influência, o filme é quase um “irmão espiritual” de algum faroeste do Howard Hawks. Trocam-se os pistoleiros por espadachins; as pradarias pelas montanhas e desertos chineses; os mexicanos, índios ou fazendeiros inescrupulosos por maldosos Mings, tártaros ou algum outro povo oriental. Homens e mulheres corajosos se conhecem em uma situação de conflito e amizades são forjadas no calor do momento. Indivíduos que, possivelmente, jamais trocariam um “bom dia”, precisam colocar suas vidas nas mãos uns dos outros para poderem sobreviver e conseguirem alcançar seus objetivos.

dragon gate inn

Hu é considerado o pai dos Wuxias modernos, aquelas tramas de espadachins com habilidades sobrenaturais. Não estranhe ver aqui sujeitos capazes de devolver flechadas com as mãos, darem saltos incríveis, derrubarem vários inimigos de uma só vez com um golpe de espada, presente na literatura chinesa, mas elemento certamente emprestado do cinema de samurai japonês, uma conhecida influência dos chineses. A coreografia das cenas de luta é bastante eficiente, mas ainda um pouco dura se comparada ao que se tornaria o cinema de artes marciais chinês dentro de poucos anos. Vale mais pela habilidade de Hu como narrador e pela edição, sem querer fazer pouco da criatividade do diretor de ação Han Ying Cheh, que já trabalhara com Hu em “O GRANDE MESTRE BEBERRÃO”. Os movimentos são relativamente econômicos pros que estão acostumados com lutas longuíssimas e intrincadas, menos parecidos com o belo balé marcial que figuras como Lau Kar Leung e Yuen Woo Ping estariam fazendo em dez anos. Mas são muitíssimo eficientes.

A pousada que batiza o filme é um personagem à parte. Os personagens centrais e os vilões estão todos dentro dela e precisam manter as aparências para poderem sobreviver. Começa um curioso jogo onde os heróis precisam manter os vilões sobre a ilusão de que eles estão sobre o controle: os vilões se passam por meros oficiais de justiça quando na verdade são da guarda secreta; Os mocinhos (assim como o dono da estalagem) possuem ligações afetivas ou familiares com as crianças que estão sob o risco de serem executadas sob o mando do eunuco. É preciso que os heróis se passem por ignorantes, é preciso sempre fazer parecer que o adversário está a um passo à frente. Dá-lhe tentativas de envenenamento, sabotagens, trocas de olhares, conversas às escondidas…

DRAGON GATE INN foi um tremendo sucesso. Não só um sucesso, mas um filme que marcou sua geração. Tanto que vinte e cinco anos depois um certo produtor/diretor decidiu levar às telas a sua própria versão do clássico. Um sujeito que, ele mesmo, trouxe novas regras ao Wuxia: Tsui Hark, o Steven Spielberg de Saigon. Ele que surgiu como cineasta ainda no final dos anos 70, fez nos anos 80 ele mesmo um Wuxia bastante conhecido e influente, ZU WARRIORS FROM THE MAGIC MOUNTAIN, protagonizado por dois gigantes do cinema de kung fu dos anos 70 e 80, Sammo Hung e Yuen Biao. Hark trouxe ao seu gênero os excessos: mais cortes, mais cores, menos sutilezas. Não há no cinema do sujeito espaço para um meio olhar, para subjetividades: aquilo que você observa é aquilo que ele quer dizer mesmo. E é incrível. Ao longo da década de 80, seja como diretor ou produtor, o homem contribuiu para que alguns dos melhores filmes da indústria de Hong Kong fossem realizados, como o clássico Alvo Duplo, de John Woo, que em seu core nada mais é do que um Wuxia com pistolas ao invés de espadas. Como dizia um funk de uns anos atrás, respeita o moço. Patente alta, dá aula de bigode grosso.

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Dirigido oficialmente por Raymond Lee (embora há quem credite a co-direção ao veterano coreógrafo Tony Ching Siu Tung e ao próprio Hark) a história segue basicamente o mesmo roteiro, com uma alteração aqui e acolá. A pousada ganha ainda mais destaque, ganha passagens secretas, tornando-se ela mesma uma metáfora de seus personagens, com mais segredos e mistérios do que sua aparência denota ao primeiro olhar. No original, o dono da estalagem (interpretado por Go Ming) é um velho amigo do general executado, que junta-se aos heróis em seus planos; aqui Maggie Cheung é a dona, uma ladra maliciosa, dissimulada, que usa de sua sensualidade para seduzir malfeitores para seu quarto, executá-los e, em seguida, ao puxar de uma corda sobre sua cama, mandar os corpos para a cozinha, para que os cozinheiros tenham carne para servir. Como disse, Tsui Hark não é um diretor chegado há sutilezas. Aqui é um querendo comer o outro. Mesmo.

Na trama original Polly Shang Kwan, uma das mulheres pioneiras do cinema de artes marciais, interpreta Chu Huei, uma das filhas mais velhas do general, que busca tanto vingança pela injustiça cometida contra seu pai quanto encontrar seus dois irmãos mais novos; no remake o papel fica por conta de Brigitte Lin, uma das melhores atrizes a surgir na China nos anos 80, que já havia trabalhado com Hark em seu clássico PEKING OPERA BLUES. Tanto no original quanto na refilmagem, as personagens se travestem de homens para enganarem os adversários (outra vez, ninguém aqui é quem aparenta ser quem é num primeiro momento). Na versão de Hark ela é introduzida logo no início, diferente do filme de Hu, e não tem um irmão. Este personagem no filme original (interpretado com esmero por Sit Hon) acabou sendo diluído em dois personagens, vividos por Yuen Cheung Yan (irmão do citado Yuen Woo Ping) e Yen Shi Kwan. Uma pena. Separar o personagem em dois acabou por aumentar o número de personagens na trama, que já é imenso. Fora que nenhum deles ganha nenhum arco, fora alguns momentos pequenos aqui e acolá na ação com as crianças citadas, que na nova versão já estão na pousada com os heróis. Aliás, diferente do filme original, que explora belas paisagens externas, o filme se passa quase inteiramente dentro da pousada.

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Outro personagem que vale a pena ser destacado é do espadachim Xiao Shaozi, interpretado por Shih Chun na versão original e por “Big” Tony Leung Ka-fai na refilmagem. Na obra de Hu, o espadachim, que vaga com um guarda-chuva que esconde sua lâmina (vocês já entenderam o meu ponto, não é?) é um sujeito aparentemente despreocupado, que não busca fama ou fortuna: ele trabalha de acordo com suas necessidades, um contrato por vez, mas sempre honrando com suas obrigações. No Jianghu (“Mundo Marcial” numa das possíveis traduções) as ações de um guerreiro dizem muito mais do que suas palavras, sua reputação caminha muito mais do que seus próprios passos. O sorriso que carrega no rosto engana quem pensa que se trata de um mero andarilho, um indolente, como gosta de referir a si mesmo; ao longo do filme descobriremos que Shaozi é tão leal quanto letal. Na versão de Hark, ele é bem mais sóbrio, sério, comprometido desde o início com a missão, enquanto no filme de Hu ele só se envolve depois de quase ser assassinado pelos ardilosos membros da guarda secreta.

No remake ele tem também um relacionamento amoroso com Chu Huei, enquanto no original, o máximo de “romance” que há entre os dois personagens é uma tenra troca de olhares, após uma tensa batalha onde a moça escapa por muito pouco com vida e o herói insiste para que ela volte ao seu quarto. Ela sobe as escadas da pousada e olha pra trás. Em seguida ele a fita de volta. Esse breve olhar entre homem e mulher, onde tanto é dito em tão pouco tempo, é o máximo de afeto que os personagens se permitem naquela situação. Francamente, prefiro o “romance” aqui. No filme de Hark, a química entre Lin e Ka-fai fica muito presa ao clichê “bom moço” do gênero: eles se olham, eles se amam, eles estão sempre vestidos, e é isso. A coisa fica mais interessante, entretanto, com a presença de Maggie Cheung. Aliás, a atriz dá um show aqui: sua personagem é, disparada, a melhor do filme. Nunca se sabe se ela penderá ao lado dos heróis ou dos vilões; sua preocupação é com o seu, sua pousada, suas vontades. Ela se encanta imediatamente por Shaozi, fará de tudo para passar uma noite que seja com o herói. Ela chega a roubar a flauta que este deu de presente a sua amada Chu Huei para obrigar este a passar uma noite com ela. Como se fosse necessária uma extorsão pra que alguém fosse pra cama com alguém que se parece com a Maggie Cheung. Ai, o mundo fantasioso dos Wuxias…

Outro ponto que a refilmagem peca, é nos vilões. Nenhum deles têm o carisma e a presença dos do filme original. Tanto o chefe da Guarda Secreta quanto seu assecla – interpretados respectivamente por Miu Tin e pelo coreógrafo do filme Han Ying Cheh – transbordam carisma. O eunuco Tso, vivido por Pai Ying, é um aríete invencível. Sua presença cênica e o combate travado com os heróis ao fim da película demonstram que o temor que todos sentem não era vão. Na versão de 92, porém, a Guarda Secreta entretém, sem dúvida, mas os vilões são por deveras caricatos. Eles não transmitem ameaça. Nem mesmo o eunuco, vivido aqui por Donnie Yen, é assim tão ameaçador. Aliás, poderia ter sido vivido por qualquer ator.

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Como disse antes, as coreografias marciais dos anos 60 ainda estavam aquém do que o gênero se tornaria ao longo das décadas. Em 92 o wire-fu já estava em alta e Hark utilizava a técnica como um artesão. Vale lembrar que o filme saiu um ano após ERA UMA VEZ NA CHINA, que alçou Jet Li ao estrelato. Fora que um dos co-diretores era um dos homens que melhor entende de Wuxias, Tony Ching Siu Tung, do clássico DUEL TO THE DEATH, que ficou mais famoso no Ocidente pelo filme HERÓI. As coreografias são um dos pontos fortes do filme, todas as lutas são de uma criatividade impressionante. Ching Siu Tung trabalhou juntamente a Yuen Bun, outro coreógrafo de peso, menos lembrado pela cinefilia do que deveria. Para quem não sabe, Yuen trabalhou com Hark e muitos outros diretores de Hong Kong em clássicos dos anos 90 como THE BLADE – A LENDA. É interessante que mesmo com tantos cortes e com tanta rapidez, o espectador consiga compreender o que está acontecendo diante dos seus olhos. Ou seja, nada da maldita “câmera tremida” que viria atrapalhar a fruição de quem cresceu nos anos 80 e 90 assistindo as fitas de artes marciais. Ainda que se perceba que, provavelmente, os atores tenham participado de uns 20% das cenas de ação – é preciso lembrar que praticamente ninguém do elenco principal é artista marcial – o trabalho dos dublês é devidamente valorizado. Porém, diferente do original, fica-se a impressão de que a aspereza e o esforço deram lugar a plasticidade. É triste quando tantos movimentos são feitos, mas quase nunca alguém morre ou é atingido numa cena de luta. O duelo final, também, é bastante inferior. Um desperdício. Especialmente quando o vilão do filme é interpretado por um performer do calibre de Donnie Yen. A luta final do original, embora menos plástica, é bem mais tensa, longa e emocionante. Aqui ela é curta e anticlimática, embora tenha seus momentos.

No fim das contas, fica a impressão de que Hark e sua equipe tinham uma boa ideia e lampejos de criatividade e até mesmo, ouso dizer, genialidade. A tecnologia estava mais avançada, definitivamente o diretor trouxe algo novo ao jogo. O elenco é espetacular, os cenários são dignos de um Indiana Jones (o Spielberg de Saigon, lembra?), os coreógrafos excelentes e a maquiagem, assim como os figurinos, não deixam a desejar. Entretanto, a poesia imagética de Hu, sua sensibilidade, somente vendo o original. Nada se compara ao clássico de 67. O filme de Hu é único. No fim, o mérito maior é o fato de que Hark fez um filme novo, deu a sua cara ao projeto. Mas não é isso que um remake, no fim das contas, deveria servir?

P.S: Tsui Hark voltaria ao universo de DRAGON GATE quase vinte anos depois com O RETORNO DO DRAGÃO A CIDADE PERDIDA. O filme, protagonizado por Jet Li, se passa três anos depois dos acontecimentos do filme de 92 e nos mostra o que aconteceu com os personagens ao fim do filme, além de nos trazer de volta a pousada. Vale a pena pra quem é fã.

 

A Taverna do Tigre é a coluna semanal publicada pelo Luiz Campos

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2 Comentários

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    • Sim, sim. Isso pra mim já é uma contribuição do Hark, que é bem mais… visual! hehehe.
      Como li em algum lugar, o homem não é nada sutil!