TAVERNA DO TIGRE #3: ERA UMA VEZ NO OESTE ou A vida não fica melhor que isso!

Sergio Leone é melhor que John Ford. Pronto, está dito e está feito. Quaisquer palavras que o crítico vier a proferir sobre a obra do diretor italiano não serão mais do que elogios rasgados de um fanático que se comporta diante da obra como um cristão novo em perante o Santíssimo. Trocando em miúdos, provavelmente não conseguirei fazer nada mais que puxar o saco do falecido Leone. Tudo o que conseguirei comprovar ao leitor é que não sou a pessoa mais indicada a fazê-lo, como um pintor de paredes que se metesse a analisar criticamente o trabalho de um Francis Bacon ou Pablo Picasso. Mas diabo, se ainda me acompanham até o presente período é porque ou ainda estão curiosos em ler um mínimo que seja de uma crítica, não tem muito mais a fazer ou querem apenas ter o prazer de ver este patético palhaço se embananar com o verbo. Já que me meti a escrever tudo isso, adentrarei ao picadeiro e darei conclusão ao espetáculo.

ERA UMA VEZ NO OESTE tem alguma coisa ligada a Morte, parafraseando Cheyenne (Jason Robards) acerca do personagem Gaita, de Charles Bronson. Mostra-nos um velho oeste com ares trágicos, que começa a definhar, transformando-se em algo novo como a urbanização e a tecnologia, representada pelos trens que começam a cortar suas entranhas, tarefa antes das diligências e cavalos. É o final de vida, também, para os pistoleiros. Homens maus como o atirador Frank (Henry Fonda), capazes de matar quem quer que seja ainda terão muito espaço, mas não de maneira tão direta. Afinal, arregaçar as mangas e “fazer o que tem de ser feito” é trabalho pra operário e não patrão. Pistola tem seis balas, dinheiro tem todas. Fonda, um dos grandes mocinhos dos filmes de bangue-bangue norte-americanos, que nunca em sua carreira havia interpretado um vilão, neste, onde os fracos realmente não têm vez, dá a Frank toda virulência que um homem armado pode ter. Se em outros filmes corria atrás de malfeitores que atrapalhavam a paz de pequenas cidades do Oeste, neste nem mesmo crianças estão ilesas de sua ira. Mesmo com certa idade, seus olhos azuis ainda impressionam e transmitem muita energia – e muita morte – sempre que está presente.

O dono do dinheiro, seu chefe, é o senhor Morton (Gabriele Ferzetti), um tísico que quer apenas juntar sua última bolada para vislumbrar seu fim no oceano pacífico. Uma figura patética, necessitada de muletas para poder se mover e cujas posses são a única força que possui. Diferente de Frank, não possui fibra ou colhões, apenas ouro. Morton, curiosamente, representa o novo. Um novo que se mostra incapaz de sustentar-se em suas próprias pernas, dependo acima de tudo do sacrifício alheio para poder manter-se no topo, sem verdadeiros méritos próprios, fora seu incrível poder de negociar a vida e a morte de todos dentro de seu trem particular. Um verdadeiro simulacro de homem poderoso, como os grandes poderosos que devem ter surgido com o “fim da selvageria” do Oeste.

Já Charles Bronson é o Fim. O homem que veio em nome de todos os homens mortos por Frank. Bronson, que construiu para si uma imagem de homem durão, foi uma acertada escolha para o papel. A expressão de pedra que o astro veste para interpretar o misterioso pistoleiro, conhecido apenas pelo apelido de Gaita, somado a sua presença cênica formidável, caem como uma luva ao personagem. Na “Trilogia do Dólar”, os faroestes que lançaram Clint Eastwood à fama mundial, o personagem sem nome de Clint, sempre misterioso e mítico, em algum momento sofria castigos físicos por parte dos vilões. Gaita não. Na única sequência em que leva um tiro, levanta-se e vai embora. Seu ferimento não parece capaz de feri-lo, ele continua, segue adiante em sua sina. A estranha melodia que sempre toca quando aparece em cena é como uma espécie de provocação e aviso, como que a própria morte anunciando que chegou. Afinal, não se mata aquilo que já morreu. Ele é a epítome de todos os anti-heróis vingativos e pouco virtuosos dos westerns à italiana.

A figura que quebra um pouco o ar de decadência e de fim que povoa a película é a personagem de Claudia Cardinale. A atriz, uma verdadeira flor em pleno deserto, num primeiro momento é a mocinha indefesa da trama, e é a única na trama que parece ter de verdade a possibilidade de uma vida menos ordinária. Feita viúva em menos de meia hora de projeção, sua personagem, embora não possua armas, mostra-se no decorrer da trama, apesar de todas as intempéries do destino, uma sobrevivente. Quando em provações terríveis, em momentos de fraqueza, apesar do medo, ela acaba ficando. Mesmo o cruel Frank, quando a toma em seus braços, fica surpreso em como ela se oferece em sacrifício para salvar a si mesma. O que deveria ser um estupro, o velho pistoleiro subjugando a beldade ao seu tesão, acaba sendo uma mostra da força da moça em encarar um homem em um território onde ela, uma ex-prostituta, já está acostumada a combater. Ela vai, o beija de volta, oferece seu lindo corpo, desnorteando o sujeito, que parece ficar ao mesmo tempo ofendido e encantado. Como quem estraga a graça de uma brincadeira.

Essa sua força somada à sua beleza infinita fazem com que Cheyenne arrume um ideal mais belo que matar e roubar. Líder de um bando de malfeitores, na verdade é apenas um bandidinho com algum talento na pistola e astúcia suficientes pra fugir da lei. Seu rosto barbudo, a cara de mal e a valentia nos enganam, mas na verdade por dentro não passa de um “fofo”, um menino que aprendeu a mexer numa arma para ganhar respeito. Ele mesmo um literal filho da puta, odiado e temido por todos – vejam só – ainda é capaz de morrer pelo amor. É o pária com alma de cavaleiro à moda antiga, do tipo que ainda enfrenta dragões pra salvar a princesa amada. Assim como acontece em outros filmes do Leone, Cheyenne é daqueles coadjuvantes que nos fascinam e chegam a roubar a cena dos outros atores em alguns momentos. O tom ao mesmo tempo corajoso e levemente cômico, sem resvalar ao ridículo, que Jason Robards dá ao personagem o tornam de uma belíssima figura humana, demasiadamente humana.

Numa época em que o cinema ganha cada vez mais cortes e muda de cenas com extrema rapidez em nome de uma impressão de agilidade e fluição é um colírio para os olhos ver a maneira lenta e contemplativa, porém ainda bastante fluida e magnética, com que o diretor trabalha os conflitos para que, de maneira súbita e intensa, eles eclodam diante de nossos olhos. A maneira como ele introduz os personagens centrais, sempre focando em seus rostos de frente, quase que parando o tempo por uns instantes, sempre acompanhado da trilha sonora magnífica de Ennio Morricone, dá um ar muito solene ao conjunto. Nos faz lembrar que hoje em dia, no lugar de Charles Bronson ser introduzido na ação por uma inspirada peça de um talentoso maestro nós temos o Vin Diesel aparecendo ao som de algum rock ou rap genérico. Dá um pouquinho de vontade de morrer também.

Com um diretor desse naipe e com um roteiro escrito por seis mãos tão importantes para o cinema italiano – Bernardo Bertolucci, Dario Argento e o próprio Leone – ERA UMA VEZ NO OESTE não é apenas o grande exemplar do faroeste spaghetti, é um dos melhores filmes do mundo. Dentre os colossos, possivelmente o maior.

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