REVIEW: GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL.2: Quadrinhos, western, Troma e trilhas.

Obs: Esse texto contém spoilers do filme!

Por que perder tempo com mais um filme da Marvel? Por que perder tempo vendo mais um filme de super-heróis? Quantas histórias eles podem adaptar dos quadrinhos, requentar a mesma fórmula? Quantos filmes de super-heróis eles ainda planejam fazer antes que essa porcaria dessa febre esfrie? A resposta da última eu dou agora. Talvez uns trezentos. Pelo menos foi assim com western. Há alguns anos (hoje esse discurso está sendo abandonado) críticos como o “finado” Devin Faraci do Birth. Movies. Death. e cineastas como Steven Spielberg alegavam que o filme de super-herói seguiria um rumo parecido com o do western nos anos 50 e 60, em relação ao interesse do público e dos estúdios de Hollywood e depois dos italianos com o ciclo do western spaghetti em se aproveitar deste cenário.

Para os que não estão familiarizados com o termo, o western spaghetti foi um ciclo de filmes italianos que se aproveitou dos arquétipos e paisagens do velho oeste americano para fazer dinheiro mundo afora com direito a uma dúzia, das centenas produzidas, de obras-primas. O que os italianos fizeram, usar de uma fórmula que era praticamente garantia de sucesso, dar uma nova roupagem e extravasar seus limites, foi muito criticado pelos americanos na época. Mas os próprios americanos adaptaram de lendas e folclore para criar um universo mítico do western clássico. Não importava tanto se aquelas cidades ou os caubóis e bandidos existiram, por mais que alguns roteiros fossem baseados em fatos históricos (os filmes de super-heróis trazem das hqs na maioria das vezes só caracterizações e temas). O grande trunfo do western, o que fez com que um gênero tão específico temporal e espacialmente fosse tão prolífico, foi que ele fornecia uma simplificação da sociedade com heróis e vilões se enfrentando num conto de moralidade do bem contra o mal. Assim como o filme do samurai no Japão, que gerou centenas de exemplares por lá e também poderia ser tão popular quanto o western se não pertencêssemos a uma cultura bem mais americanizada.

Eu amo os westerns spaghetti a ponto de querer fazer deles o tema do meu projeto de mestrado. Mas se há algo que temos que concordar é que os westerns italianos se preocuparam em lotar salas de cinema todas as noites com entretenimento barato e descartável (na sua maioria das vezes). A Marvel procura fazer filmes melhores e mais longevos em termos do universo compartilhado e no tom de matinê. Mas equilibrar a exigência de estúdios e imprimir uma carga pessoal a esses filmes é um desafio. Não haviam muitos precedentes para LOGAN, DEADPOOL e agora os dois GUARDIÕES DA GALÁXIA (talvez o HELLBOY do Del Toro). Filmes de quadrinhos com uma pegada autoral saídas das mesmas máquinas de produção dos filmes de chocadeira. Os filmes de quadrinhos precisam de mais do que Paul Verhoeven, John Woo, Luc Besson e Russel Mulcahy trouxeram para o sci-fi de ação holywoodiano dos anos 80 e 90. Até em seus fracassos dá para ver suas idiossincrasias, ousadia e se divertir com isso. James Gunn, o diretor de Guardiões não veio da Holanda ou de Hong Kong, mas de um lugar ainda mais inusitado para falar a linguagem do dinheiro em Los Angeles. James Gunn é filho da Troma Enterteiment, a infame produtora de filmes sarcásticos de baixo orçamento ultra-violentos.

E então, por incrível que pareça, o mesmo diretor e roteirista do azedo SUPER, de 2010, é o responsável pelo filme mais emocionante da Marvel. Eu chorei com GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL.2. E não aquelas lágrimas de redes sociais de o-herói-da-minha-infância-morreu-no-filme. Eu chorei porque o filme me emocionou. Mesmo que o drama do filme não seja uma novidade eu cheguei ao ponto de sussurrar, “Por favor, não fala isso”, já esperando as palavras do personagem de Chris Pratt e lá veio ele:

Às vezes, aquilo que estamos procurando a vida toda esteve bem ao seu lado e você nem percebeu

Filho da puta!

Chorei num filme da Marvel. De super-heróis. Algo que sempre tirei sarro quando via alguém se “orgulhando” disso. Foi numa longa cena de despedida com notas parecidas com as de outras duas partes 2 de aventuras espaciais, O IMPÉRIO CONTRA ATACA e A IRA DE KHAN. Enquanto o sacrifício de Han Solo é somente um até logo e o de Spock te pega de surpresa, o desfecho trágico da relação de Yondu com Peter Quill é algo plantado desde o começo do filme. É trágico no sentido grego da palavra, aquele da morte honrosa, da purificação.

O segundo filme começa algum tempo depois do fim do primeiro. Peter Quill, Gamorra, Drax Rocket e Baby Groot agora são mercenários intergalácticos. Depois de Rocket roubar as baterias pelas quais foram contratados para proteger o bando acaba com a nave destruída e recebe a visita de Ego, o verdadeiro pai de Peter. A história então tem o foco dividido entre o grupo que vai conhecer o planeta de Ego: Peter, Gamorra, Drax, a companheira de Ego, Mantis e Rocket e Groot que acabam prisioneiros junto de Yondu depois de um motim dos Saqueadores. Não vou entrar nos detalhes da trama, mas o interessante é que todos os personagens têm seu arco desenvolvido em par com outro personagem. Gamorra descobre que a rivalidade incitada pelo pai delas, Thanos é o motivo de Nebula odiá-la tanto. Rocket se vê em Yondu como alguém que não consegue expressar seus sentimentos e por isso ama ser odiado. Drax liberta Mantis de sua posição de animal de estimação de Ego através de ofensas carinhosas. E Peter Quill descobre que Ego na verdade é o responsável pela morte de sua mãe. Ela atrapalharia seu plano de controlar planetas inteiros através de uma conexão cósmica somente possível com a ajuda de um herdeiro de igual poder. E o Senhor das Estrelas não fica nenhum pouco feliz com isso.

O bacana é que GUARDIÕES DA GALÁXIA VOL.2 se assume como uma comédia, diferente de outros filmes de quadrinhos, e as cenas de ação funcionam com propósitos bem específicos dentro do enredo. Acho até que são melhores por conta disso. Eu tenho como exemplo o filme, OS OUTROS CARAS com o Will Ferrel e o Mark Walbergh que é uma excelente comédia mas que carrega muito no clímax com uma cena de ação genérica de perseguição de carros. Qualquer cena com Will e Mark brigando é melhor que ela. Brigas, aliás, que em Guardiões chegam a cansar um pouco. Ainda bem que Gunn separa Peter de Rocket no começo do filme. Depois do longa batalha no centro do planeta vivido por Kurt Russel, os Guardiões conseguem fugir antes que tudo vá pelos ares pela bomba acionada por um milagre pelo bebê Groot. Mas Yondu tem de entregar o traje espacial para salvar seu filho adotivo e assim morrer congelado no espaço.

A trilha sonora então brilha como nunca. Se Gunn já tinha sido brilhante ao inserir uma música que eu mesmo nunca tinha ouvido falar, Brandy (You’re a Fine Girl) da banda Looking Glass, dentro do contexto do filme para explicar as escolhas megalomânicas de Ego, a luta entre Peter e Ego ao som de The Chain do Fleetwood Mac e depois o funeral embalado por Father and Son do Cat Stevens fazem o Marvin Gaye e Tammi Tarrell encerrando o primeiro filme parecer coisa de amador. Tarantino encontrou um concorrente à altura na seção de trilhas sonoras de lojas de discos (aquelas que ainda existem).

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1 Comentário

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  • Muito bom o seu texto sobre esse filme ” Guardiões da Galaxia “.. que diria que um HQ fracassado iria virar febre no cinema ,mas os tempos são outros é essa é uma outra geração.. eu não gosto mais de filmes de herois tanto da Marvel quanto da DC,fui colecionador de HQ tenha varios gibis e tive que vender tudo quando me mudei para uma casa menor,ate hoje não me arrependi de ter vendido os meus gibis e para mim quem assisti um filme de heroi já assisti-o todos,pois todos são iguais na minha modesta opinião.