HOMBRE (1967) | REVIEW

Humanidade e balas

Colocar homens brancos em papéis indígenas era algo frequente no cinema americano. Ainda é, infelizmente. É complicado acreditar que Burt Lancaster é um líder apache em O ÚLTIMO BRAVO, de Robert Aldrich. Charles Bronson até que engana bem em RENEGADO IMPIEDOSO, de Michael Winner. Licenças poéticas (ou preconceito mesmo) à parte, houve uma vez em que um ator branco não apenas convenceu como um pele vermelha como ainda conseguiu uma das melhores atuações de sua carreira. Senhoras e senhores, com vocês: HOMBRE, de Martin Ritt.

Tudo bem que Paul Newman não interpreta um índio legítimo, mas um garoto que fugiu da dita civilização para viver em uma reserva apache no Arizona. O importante é que, depois de uma performance caricata em UM DE NÓS MORRERÁ, de Arthur Penn, o ator encontrou o ponto certo para compor John Russell. Calado, de gestos precisos e pouca caridade, ele surge na tela acompanhado de dois companheiros de reserva em plena caçada para garantir o jantar. Só que a rotina de Russell irá mudar, já que ele precisa dar um destino a pensão que o pai lhe deixou de herança na cidade de Sweetmary. O espectador então pensa estar diante da jornada de um quase-selvagem para voltar às suas verdadeiras origens. Porém, Martin Ritt adora uma brincadeirinha e logo a trama muda de rumo. E à galope!

HOMBRE trabalha com uma das temáticas mais costumeiras no western sessentista, que é a chegada da ferrovia substituindo as carruagens. De certa forma isso remete a volta de Russell ao convívio com o homem branco, como se o “progresso” chegasse até ele assim como os trilhos se encaixam no chão unindo as cidades. Fora o erro de continuidade da direção de arte, que parece ter esquecido que, por baixo da peruca castanha que Newman usa no início do filme há um cabelo grisalho, HOMBRE segue sua jornada com a chegada de outros personagens que irão se unir dentro de uma diligência em direção a Contention: o jovem casal Doris e Billy (Margareth Blake e Peter Lazer), o intelectual Alex Favor (o sempre ótimo Fredric March) e sua esposa Audra (Barbara Rush), o misterioso Grimes (Richard Boone, malvado como nunca) e a independente Jessie (Diane Cilento). Ah, não podemos esquecer de Mendez, o condutor, vivido por um carismático Martin Balsam.


Toda essa gente reunida, balançando pela estrada empoeirada, não lembra algo? É impossível não pensar no clássico de John Ford No Tempo das Diligências, onde um microcosmo se forma dentro de um meio de transporte nada confortável. Ritt remete ao filme de Ford criando também o seu pequeno universo, que vivencia seu primeiro atrito quando Favor pede para Russell viajar junto com o condutor por considerá-lo perigoso para as mulheres presentes.

Ah, as mulheres de HOMBRE! São apenas três mas simbolizam muito bem os principais estereótipos do sexo feminino no western, sendo Jessie a durona que teve que assumir uma postura dita masculina para sobreviver (assim como acontece com a Jill de Claudia Cardinale em Era Uma Vez no Oeste), Doris a garota ingênua que usa o casamento para fugir da família repressora e Audra a moça estudada que é tratada como mero elemento figurativo pelo marido, apesar de dar uma boa dura nele logo no início do filme.

A atmosfera de suspense que surge na parte final de HOMBRE, fazendo lembrar inclusive alguns trabalhos de Alfred Hitchcock como O HOMEM QUE SABIA DEMAIS, é considerado o grande momento da produção. Sem desmerecer o bom ritmo que Ritt imprime às cenas, vale aqui relembrar um acontecimento que precede a reunião na diligência e também o embate com os bandidos.

Na estação, enquanto todos esperam, Grimes tenta conseguir um bilhete para seguir para Contention. Primeiro, ameaça Russell, mas os olhos azuis e frios e as respostas ríspidas fazem ele dar um passo atrás e, como bom covarde, humilhar um soldado que acaba de deixar o campo de batalha. De bilhete na mão e deixando claro que não será a melhor companhia de viagem, Grimes protagoniza um tipo de esquete dentro do filme, mostrando que Richard Boone não era só o cowboy da TV, mas um ator capaz manter a tensão mesmo com poucos diálogos e nenhuma trilha sonora para colaborar.

A aridez dos cenários de HOMBRE é simbólica. Russell parece o mais vazio de sentimentos dos personagens, mas as reviravoltas acabam por mostrar que os “civilizados” é que trazem consigo os piores defeitos, como a inveja, a ganância e o egoísmo, são secos por dentro. Das muitas adaptações dos escritos de Elmore Leonard, sempre primoroso ao narrar o homem do oeste e a mitologia construída em torno dele, HOMBRE é a que mais se aproxima de sua prosa sem deixar de introduzir um elemento novo. Nesse caso, os belíssimos planos conjuntos que Ritt filma equilibrando modernidade e o aroma dos clássicos do gênero.

HOMBRE tem humanidade. Algo que, quando não falta em filmes de ação, é mostrado sem preocupação dramática, quase um intervalo calmo entre um tiro e outro. Um western humano, demasiado humano.

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