REVIEW: O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS (Welcome to Hard Times, 1967)

Deparei-me com o título desse curioso western com direção e roteiro de Burt Kennedy meses atrás durante uma busca por filmes norte-americanos do gênero realizados nos anos 60. O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS era completamente desconhecido para mim até então, apesar do elenco e de seu diretor. Kennedy é mais conhecido pelos seus faroestes cômicos (UMA CIDADE CONTRA O XERIFE, O MAIS BANDIDO DOS BANDIDOS) e por seu trabalho como roteirista, inclusive em 4 dos sete longas da parceria entre o realizador Budd Boetticher e o astro Randolph Scott: SETE HOMENS SEM DESTINO, O HOMEM QUE LUTA SÓ, O RESGATE DO BANDOLEIRO e CAVALGADA TRÁGICA. Outro trabalho do Kennedy que não é tão conhecido e que posso destacar é GATILHOS EM DUELO (Six Black Horses), estrelado por Audie Murphy, Dan Duryea and Joan O’Brien. Um ótimo western B.

Só que O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS não apenas é diferente de todos esses filmes mencionados acima como também bate de frente contra tudo o que esperávamos dele. O mundo estava mudado em 1967 e o western – assim como ocorreu com vários outros gêneros cinematográficos – passava por uma grande transformação.

No ano de 1962, Sam Peckinpah nos entregou aquele que deve ser o filme-testamento do western romântico americano, PISTOLEIROS DO ENTARDECER (Ride the High Country), que já concedia uma morte lenta e majestosa para o Velho Oeste e seus míticos personagens muitos anos antes de Sergio Leone lançar ERA UMA VEZ NO OESTE. E foi de Leone que veio um filme estrelado por um então jovem ator chamado Clint Eastwood cuja fama se restringia ao seu papel em um seriado de TV chamado RAWHIDE. Estamos falando do explosivo POR UM PUNHADO DE DÓLARES (For a Fistful of Dollars), cuja influência foi imensurável. John Sturges (SETE HOMENS E UM DESTINO) não poupou doses elevadas de uma violência mais realista em A HORA DA PISTOLA – também de 1967 – a sua continuação para o sucesso SEM LEI E SEM ALMA, estrelada por James Garner como Wyatt Earp e Jason Robards como Doc Holliday.

Adeus, romantismo. Olá, cinismo e violência.

Adaptado do romance de estréia do autor E. L. Doctorow (que também ganhou outras adaptações de seus livros para o cinema como NA ÉPOCA DO RAGTIME e BILLY BATHGATE), O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS é um legítimo filme de transição do gênero. Os seus primeiros 20 minutos são nada menos que excelentes. Temos a chegada d’O “Homem de Bodie” na então pacata cidade de Hard Times. Um impressionante Aldo Ray interpreta esse homem que não faz nada além de bater, estuprar, matar, destruir e rir muito enquanto faz tudo isso. O personagem não possui uma mísera fala no longa inteiro e subtende-se (na opinião deste que vos escreve) que ele seja uma encarnação do Mal.

É fácil de compreender o porque desse filme continuar despertando a ira dos fãs mais puristas e românticos de faroeste. De largada, o ‘Prefeito’ Will Blue revela-se um sujeito um tanto covarde e egocêntrico logo em seus primeiros diálogos, mesmo adotando uma postura mais justa depois do vilão destruir Hard Times por completo.

Detalhe: Will é encarnado por ninguém menos que Henry Fonda, que praticamente só interpretou personagens fortes, íntegros e corajosos em sua filmografia do gênero.

Mesmo que a sua carreira não estivesse mais no auge, não era comum que um ator como o Fonda, que possuía essa imagem construída por décadas e décadas de atuação corresse riscos desse tipo. Estamos falando do homem que interpretou um jovem Abraham Lincoln para John Ford. Só escalando alguém do porte de Fonda para convencer o espectador de que esse problemático personagem seria capaz de fazer com que os sobreviventes (além dele próprio, claro) se empenhem na reconstrução da cidade. Will também demonstra compaixão ao preservar a honra de Molly (Janice Rule), a única prostituta sobrevivente do ataque do ‘Homem de Bodie’ ao Saloon, quando assume um relacionamento de aparências com ela diante dos novos habitantes que chegarão ao local.

E são esses outros personagens apresentados ao espectador como o Zar (Keenan Wynn) que chega em Hard Times acompanhado de um grupo de prostitutas para ser o novo administrador do Saloon e o andarilho Leo Jenks (Warren Oates) que fazem com que O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS seja mais leve e até um tanto cômico, se assemelhando aos trabalhos mais conhecidos de Burt Kennedy como diretor e isso faz com que o longa num geral não compartilhe da força de seu início. Ainda assim, Kennedy volta e meia injeta algumas doses de pessimismo e melancolia, sem falar da ameaça constante do inevitável retorno do Mal que voltará para tocar o terror em Hard Times outra vez.

É curioso como as metáforas empregadas ao longo de todo o filme passaram completamente batidas pela enorme maioria dos seus espectadores. Olha o nome da cidade, por favor!! O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS merecia ser mais conhecido, nem que seja pelo elenco que ainda inclui figuras muito queridas como John Anderson, Lon Chaney Jr., Paul Fix, Elisha Cook Jr. e Edgar Buchanan.

A Classicline resgatou esse belo longa esquecido e o lançou no nosso mercado doméstico. O filme é apresentado com uma cópia de qualidade de som e imagem acima da esperada com áudio original em inglês, dublagem em português e em fullscreen (4x3), mas faz-se necessário um pequeno ajuste nas configurações da TV para que ele seja assistido no formato widescreen (16:9) sem qualquer perda de sua fotografia original. O HOMEM COM A MORTE NOS OLHOS pode ser adquirido nas melhores lojas.

 

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1 Comentário

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  • Boa tarde. Caro amigo, você poderia, por favor, escrever extensa resenha sobre A CONQUISTA DO OESTE, À MON AVIS, o mais espetacular ( na mais ampla acepção da palavra) western do cinema? É absolutamente cativante e hipnótica aula de parte da história americana. É a maior reunião de astros e diretores de um faroeste ( se bem que esse termo reduz, e muito, essa MASTERPIECE). Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.