John Sturges: Renegado Impiedoso

Se o Action News, ou mesmo qualquer outro site sobre filmes, fosse se dedicar a falar de diretores injustiçados, os prezados leitores iam cansar as vistas tal o tamanho da turma que deu o sangue por um filme e não foi devidamente reconhecida. E isso nada tem a ver com não ter um Oscar na estante. Prêmios são acasos e não atestado de qualidade. É o fato de suas obras serem lembradas pelo elenco e pelo roteiro, quando na verdade nada disso teria um bom resultado se não houvesse um diretor organizando as coisas. Bons diretores são, no fundo, bons de improviso a partir de uma base inteligente. São muitos os nomes que se encaixam neste perfil, mas um em especial me perturba com mais intensidade.

O americano John Sturges nunca foi um cineasta autoral e chama-lo de diretor de filmes por encomenda não seria um erro. O estúdio comprava os direitos do roteiro, o escalava, dava as coordenadas e ele dirigia. Assim, prático e sem grandes aspirações artísticas. O que não quer dizer que Sturges apagasse sua criatividade ao entrar no set de filmagem. É perceptível em cada plano sua preocupação com ser claro sem deixar de ser belo e, em alguns momentos, até poético. A chegada do vilão Calvera na vila dos mexicanos em SETE HOMENS E UM DESTINO é um bom exemplo. Não apenas somos apresentados ao personagem, mas enxergamos sua alma, a fúria em seus olhos e o pouco caso com o próximo. O peso da interpretação de Eli Wallach é sentido, não há dúvidas, mas os ângulos escolhidos colaboram muito para que nossa antipatia aumente. A responsabilidade de fazer uma releitura de um clássico insuperável como OS SETE SAMURAIS, de Akira Kurosawa, parece não ter assustado Sturges. Ele sabia que não iria marcar uma época, mas algumas vidas iria afetar. A desta que vos escreve, inclusive.

Filmagens de SETE HOMENS E UM DESTINO

É a velha história do filme que se sobrepõe ao diretor, já que Sturges nos deu obras incríveis como FUGINDO DO INFERNO, A ÁGUIA POUSOU, CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO, o já citado SETE HOMENS E UM DESTINO e SEM LEI E SEM ALMA, filmes que marcaram os gêneros de guerra e faroeste. E aí está mais um motivo para Sturges ser pouco ou quase nunca lembrado: seus filmes não eram revolucionários, não mudaram a história do cinema mas estão presentes na lembrança de muitos admiradores da sétima arte por serem bem acabados e empolgantes, características que os críticos que esquecem que cinema também é entretenimento não costumam levar muito em conta. Uma boa amostra disso foram as críticas pesadas em cima de SETE HOMENS E UM DESTINO. Os mais tradicionais acharam quase uma ofensa trazer a obra de um dos mais importantes cineastas japoneses para um cenário tipicamente americano. Quem pensou assim esqueceu que entre as influências declaradas de Kurosawa está John Ford, o homem que fazia questão de dizer que seu trabalho era “fazer westerns”. Ou seja, samurai pode sim dar uma volta na poeira ianque.

Com Donald Sutherland nas filmagens de A ÁGUIA POUSOU
Os astros de FUGINDO DO INFERNO: James Coburn, o diretor John Sturges, Steve McQueen e Charles Bronson

John Sturges era um trabalhador do cinema. Cumpria prazos, não dava chilique e mantinha um clima de harmonia entre seus atores, uma camaradagem que muitos que ostentam o título de gênios sequer sabem do que se trata. Chegou, inclusive, a aumentar a duração proposta no roteiro para a cena de perseguição de moto em FUGINDO DO INFERNO a pedido do amigo e astro Steve McQueen. O moço adorava velocidade e dirigir um veículo de época era um de seus sonhos. Ator feliz e diretor com material dos bons em mãos. Resultado: uma das melhores cenas de fuga que o cinema dos anos 60.

Steve McQueen e John Sturges
Filmagens de CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO

RENEGADO IMPIEDOSO é o nome de um western indígena protagonizado por Charles Bronson, um outro amigão de Sturges. Não foi dirigido por ele, mas por Michael Winner, mas o título cai como uma luva para defini-lo. Um diretor sem medo da labuta, mas sempre disposto a colocar o seu tempero na receita que lhe era conferida. Mesmo pouco lembrado, ele tem muito a nos ensinar nestes tempos em que muitos querem ser gênios, mas não querem sentir o peso da câmera.

Confira as resenhas de CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO e FUGINDO DO INFERNO.

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1 Comentário

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  • Boa tarde. Cara amiga, se poucos lembram do mestre Sturges, dê uma espiada na filmografia do ” obscuro ” Brian G. Hutton. Se gostar ( EU ADORO), poderia, por favor, escrever sobre alguns filmes dele. Muito obrigado pela atenção e um beijão no coração.