REVIEW: JOHN WICK: UM NOVO DIA PARA MATAR (John Wick: Chapter 2, 2017)

Após o sucesso inesperado de DE VOLTA AO JOGO (John Wick, 2014), Keanu Reeves retoma a parceria com Chad Chahelski, um dos diretores do primeiro filme (David Leitch, o outro realizador, atua por aqui apenas como produtor executivo), para continuar a saga do pistoleiro petlover. Criadores do grupo 87 Eleven, atualmente a maior equipe de dublês de Hollywood, os diretores surpreenderam público e crítica com cenas de ação maravilhosamente bem encenadas, com planos longos, poucos cortes, como raramente se vê nos últimos vinte anos dentro do cinema de ação. Em JOHN WICK: UM NOVO DIA PARA MATAR (John Wick: Chapter 2, 2017), Chahelski conta com um orçamento dobrado e expectativas idem. Com roteiro do mesmo Derek Kolstad, a história segue do ponto onde o primeiro filme parou e nos mostra, com mais detalhes, a sociedade de assassinos da qual John Wick (Reeves) faz parte.

Após recuperar o seu Mustang (roubada por Alfie Allen no primeiro filme) do desmanche de Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão do vilão Viggo (Michael Nyqvist) do primeiro filme, John acredita finalmente poder descansar. Até que é procurado por Santino D’Antonio (Riccardo Scarmacio), um perigoso mafioso a quem John deve um importante favor. Ao ser coagido – leia-se, ter sua casa explodida – pelo criminoso e preso às regras do submundo, como bem lhe lembra o aliado Winston (Ian McShane, o melhor) do Hotel Continental, John Wick se vê incumbido de voltar à velha vida mais uma vez. Mas as coisas, notoriamente, tomam rumos bem piores que o (ex)matador esperava.

Quando vai pra Itália, para finalmente sanar sua dívida de sangue, Wick fica em outro Hotel Continental, desta vez gerido por Julius (Franco Nero), que aqui tem a mesma função de Winston, receber os assassinos e manter a ordem e as regras: negócios não podem ser feitos dentro do Continental. Conheceremos Cassian (Common), um assassino tão letal quanto Wick, que faz a segurança da irmã de Santino, Gianna (Claudia Gerini). Temos também Ares (Ruby Rose) a debochada assassina muda a serviço do vilão, que só se comunica em libras. Assim como no primeiro, os personagens não fogem de estereótipos, mas são tão bem resolvidos e inseridos nesse universo, nessa trama tão ágil e movimentada, que eles também não te passam a sensação de vazio. Por menor que seja a participação, cada personagem tem seu momento. Está difícil, atualmente, filmes de ação com vilões, especialmente secundários, que marquem presença, e o filme acerta nisso.

Mas, também, JOHN WICK: UM NOVO DIA PARA MATAR já te passa “confiança” logo no comecinho. Vemos em um plano um filme de Buster Keaton sendo exibido por um projetor em um edifício na cidade. Na cena em exibição, vemos um acidente de moto com consequências hilárias. No mesmo plano, a câmera desce ao nível do asfalto e vemos um motociclista caindo de sua moto e, em seguida, levantando e subindo na garupa da mesma. Ele foge de um homem em um carro, que saberemos depois ser John Wick. Futuramente o homem da moto irá sofrer um destino semelhante ao de Keaton no curta, mas com resultados menos cômicos. A referência aqui não foi gratuita. O falecido comediante realizou algumas das cenas de humor físico mais perigosas do cinema, não à toa Jackie Chan (cujo cinema também é uma grande influência aqui) o tem como um modelo.

A próxima grande cena de ação, já no desmanche de Abram, começa com uma perseguição de carros que se desdobra numa longa cena de luta. Keanu Reeves teria feito 95% das cenas de ação do filme, e essa cena ele fez quase toda. É uma cena de luta “suja”, Wick não luta como Neo. Ele usa socos, chutes baixos, torções e técnicas de judô e jiu jitsu. Reeves notoriamente não é um lutador, mas a coreografia e a edição o favorecem. Se ele nunca pôde ser o Jet Li, pelo menos um Jimmy Wang Yu ele consegue ser com esmero. Planos de corpo inteiro, poucos cortes, muito tempo ensaiando, técnicas de queda aplicadas em cima do concreto. Cinema mais físico, improvável. Definitivamente não tem uma cena de ação que não seja no mínimo muito boa. A alta qualidade das lutas e tiroteios, junto com uma ainda mais elevada contagem de inimigos abatidos, mostram que o orçamento dobrado (o primeiro foi feito com 20 milhões e este com 40) foi usado, em boa parte, para aprimorar o espetáculo visual.

Se as cenas de ação, aqui, vão para um novo patamar, o mesmo não se pode dizer da história. A relação de Wick com Santino não faz muito sentido. Se Wick é “O Bicho Papão”, por que cutucá-lo com vara curta? Se eles fazem parte da mesma ordem de assassinos, e Wick tenha passado anos de sua vida atirando, esfaqueando, espancando e explodindo pessoas, como pode ele achar que seria só dizer: “não, amigo, tô de boa” que tudo ficaria bem? O primeiro filme partia de uma premissa absurda, mas a trama seguia um, fluxo, um ciclo bem demarcado. JOHN WICK: UM NOVO DIA PARA MATAR já começa vitimado por ser o “Capítulo 2”: inicia fechando uma pequena aresta do primeiro filme, termina garantindo que ainda não acabou. A trama se encerra, mas temos o cada vez mais surrado final com margem para a continuação. Nada contra, que venha a parte três, mas para um filme que veio resgatar “velhos valores” na maneira de se fazer ação, seria de bom grado que os realizadores resgatassem o velho hábito de encerrar cada filme como se fosse único. Está aí algo “old school” que podia voltar.

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