KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO (Kickboxer, 1989)

KICKBOXER – O DESAFIO DO DRAGÃO forma uma espécie de trilogia do “Dragão” com outros filmes que Jean-Claude Van Damme estrelou em sequência no fim dos anos 80, no seu período de ascensão. Pelo menos aqui no Brasil podemos chamar de “trilogia”, já que BLOODSPORT recebeu o título nacional de O GRANDE DRAGÃO BRANCO e CYBORG tem o subtítulo O DRAGÃO DO FUTURO.

Claro, uma picaretagem dos nossos distribuidores para associar os filmes de JCVD de alguma forma diante do público. No trabalho seguinte do belga, resolveram dar uma variada e mudaram o animal: LIONHEART ficou LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990), que em breve eu comento por aqui. Por enquanto, ficamos com KICKBOXER. É hora de enfaixar as mãos, molhar com resina, afundar em cacos de vidro e voilá, tudo pronto para mais uma sessão nostálgica com um dos nossos action heroes favoritos.

BIGODE E MULLETS. AH, OS BONS ANOS 80!

Dirigido pela dupla Mark DiSalle (produtor de O GRANDE DRAGÃO BRANCO) e David Worth (LADY DRAGON), a partir de uma história do próprio Van damme (que ficou responsável aqui pela direção das cenas de luta e provavelmente da famigerada sequência da dancinha), KICKBOXER é centrado em Kurt Sloan (Van Damme), um aspirante a lutador e companheiro do seu irmão mais velho, que por um acaso é o campeão mundial americano de Kickboxing, Eric “The Terminator” Sloan (Dennis Alexio, que realmente era campeão de kickboxing), cujos mullets e o bigodinho de trocador demonstram claramente que estamos num bom e velho filme da década de oitenta.

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LIÇÃO DE KICKBOXER: NÃO SEJA UM BABACA ARROGANTE

Procurando por novos desafios, Kurt e Eric viajam para a Tailândia, onde estão os melhores lutadores do mundo. Eric desafia o campeão local, Tong Po (Michel Qissi), para um combate. Na cabeça de Eric, arrogante pra cacete, ele pensa que será moleza chegar no país, diante de uma cultura alheia, e vencer o campão tailandês com a mesma facilidade que seus oponentes habituais. Mas os problemas começam a poucos instantes do início da luta, quando Kurt busca gelo para o irmão e acaba vendo pela primeira vez o temido adversário.

Tong Po surge em cena de costas, balançando sua longa trança na cabeça careca. E praticando seu aquecimento antes de ir para luta. O que consiste em chutar o pilar do seu aposento e ver o pó cair do teto ao chão. Desculpem meu francês, mas não precisa ser um gênio para perceber antes mesmo da luta que Eric Sloane está literalmente fodido.

O estilo de luta comum da Tailândia é o Muay Thai. Ou seja, usa-se cotovelos e joelhos. Bem diferente do kickboxing que The Eliminator está acostumado. Mas Eric, orgulhoso e confiante, não acha que tem que se importar com esses pequenos detalhes, por mais que Kurt lhe suplique para que a luta seja cancelada. E, obviamente, o inevitável acontece. Eric é estraçalhado por Tong Po de todas as formas possíveis, com direito a uma cotovelada na coluna vertebral que deixa o campeão americano paralisado o resto da vida da cintura para baixo.

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O ingênuo Kurt, obviamente, fica chateado com a situação. Até porque os funcionários do ginásio não lhe dão exatamente um tratamento VIP. Os caras pegam Eric, levam-no para fora em uma maca, colocam-no na rua e trancam o portão do recinto. E pronto. Felizmente, num momento de fúria ainda em cima do ringue, Tong Po desfere um chute Em Kurt, que cai, literalmente, no colo de um americano, ex-forças especiais, chamado Winston Taylor (Haskell V. Anderson III) que estava assistindo aos combates. Um jeito estranho de começar uma amizade, mas Winston acaba levando Eric e Kurt para um hospital.

“… E QUE A MÃE DELES FAZEM SEXO COM MULAS”

O resto do filme é o básico. Desejando vingança, Kurt procura treinamento para poder enfrentar Tong Po como forma de honrar seu irmão. Winston lhe apresenta Xian (Dennis Chan), um treinador localmente famoso, mas há muito tempo recluso. Relutante no início, Xian percebe algo em Kurt e concorda em treiná-lo. E tome montagens de treinamentos dos mais bizarros ao som de músicas oitentistas e inspiradoras. Kurt tem as pernas esticadas à força, pratica movimentos de artes marciais sob a água, quase quebra a perna chutando uma árvore até cair duro no chão, corre de um cão com carne presa à coxa, treina nas ruínas de antigas civilizações orientais, entre outras coisas…

Mas nada nos prepara para a melhor sequencia de KICKBOXER. O melhor teste é de longe quando Xian leva Kurt a um bar, deixa-o totalmente bêbado e o manda para dançar na jukebox com algumas senhoritas. O que leva a um bando de locais a atacá-lo. A sequência de luta é boa, mas o que torna todo este momento lendário é o gingado entusiástico de Van Damme, com um sorriso maroto, rebolando e descendo até o chão. Ui!

Mais tarde, Xian comenta o que fez os sujeitos mal encarados do bar ficarem tão nervosos, numa das frases mais brilhantes de KICKBOXER: “Eu contei que você disse que eles não eram bons lutadores… E que a mães deles fazem sexo com mulas“. Mas se fosse pra ficar ofendido apenas pela dancinha do Van Damme, eu acho que também faria todo sentido.

TONG PO E A MÁFIA TAILANDESA

Como se não bastasse apenas um vilão, que é cão chupando manga na luta, em meio a todo o treinamento de Kurt tomamos conhecimento de que há também um mafioso por trás de Tong Po. Freddy Li (Steve Lee) comanda uma organização criminosa que toca o terror nos pequenos comerciantes. E ainda apimenta mais a situação de Kurt em sua jornada de vingança. Em determinado momento, por exemplo, ele sequestra Eric para chantagear Kurt e garantir que o americano perca o combate. A coisa fica mais pesada ainda quando seus capangas chegam ao ponto de prender a namoradinha de Kurt, sobrinha de Xian, para que seja estuprada por Tong Po. Tudo para desestabilizar o nosso herói. Esses caras não têm escrúpulo algum…

E Tong Po, como podem ver, não é apenas um adversário a ser batido em cima do ringue. O sujeito é o mal personificado e tem esse background ligado à máfia. Além de ser um estuprador filho da puta. Po não tem tanto tempo em cena para apresentar realmente uma personalidade. Da mesma maneira que Chong Li em O GRANDE DRAGÃO BRANCO. É apenas o típico vilão retratado como um monstro, uma unidimensionalidade que se encaixa perfeitamente ao tipo de filme que temos aqui.

Curioso que nos créditos iniciais, Tong Po seria interpretado por “ele mesmo.” Como se Tong Po realmente existisse. Seria algum famoso lutador que não se importa de ser retratado dessa maneira? Era o que eu pensava quando assistia ao filme na minha infância. Bem, por mais tentador que seja essa ideia, a verdade é que o sujeito é interpretado por Michel Qissi, um lutador profissional, amigo de infância de Van Damme. Foi o seu treinador pessoal para O GRANDE DRAGÃO BRANCO (além de ter uma pequena participação no filme, é ele que tem a perna quebrada por Chong Li). Em KICKBOXER, colocaram uma maquiagem no homem para parecer asiático, a célebre trancinha, e já está. Um dos mais icônicos vilões da galeria que Van Damme encarou em sua carreira.

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VAN DAMME E UM CLIMAX À MODA ANTIGA

Como é habitual nesses filmes de início de carreira, Van Damme é um bocado rígido no seu desempenho. Mas até que tenta, dentro de seus limites, explorar seu “talento” dramático. Ele consegue convencer, por exemplo, na situação de desespero quando seu irmão se machuca. Ou passa tristeza no momento em que recebe a notícia de que Eric nunca voltaria a andar. Claro, o sujeito nunca foi um Orson Welles, não dá pra exigir uma atuação shakespereana do belga. Ademais, Van Damme preenche os requisitos que o tornaram num dos grandes astros do cinema de ação do período. É hábil lutador, tem presença em cena e, principalmente, muito carisma.

É evidente que vamos perceber melhor a arte de Van Damme nas sequências de pancadaria. É quando o sujeito fica mais à vontade. Em KICKBOXER essa lógica chega ao seu limite no combate final entre Kurt e Tong Po. Por mais que eu tenha ressalvas quanto a luta em si, é impossível não encher os olhos ou estampar um sorriso na cara se você for um autêntico fã desse tipo de material. Temos Van Damme e Qissi explorando ao máximo do que chamamos de “cinema físico”, há uma excelente ambientação – a luta foi planejada nos “moldes antigos”, nos subterrâneos, iluminado por tochas – e há ainda o memorável detalhe das mãos enfaixadas, mergulhadas em resina e, em seguida, coberta de cacos de vidro. Mas que de certa forma não parece causar tanto dano quanto parece.

As ressalvas vão para a própria construção e encenação da luta. Pelo menos enquanto Eric se encontra refém dos capangas de Freddy Li e Van Damme é obrigado a perder a luta, a coisa toda ainda funciona e prende a atenção. Tong po é brutal e não dá moleza, mesmo fazendo diversos joguinhos para agradar o público presente na arena. Obviamente ele sabe que vai ganhar de qualquer jeito. O problema é a partir do momento que Kurt nota que seu irmão está a salvo e percebe que pode atacar de verdade. Tong Po, de repente, se torna mais fácil de bater que bêbado em fim de festa. O tailandês não demonstra a mínima resistência e todo golpe de Kurt entra fácil. A partir daí é só pose. É só Van Damme enrijecendo os músculos pra ficar bem nos enquadramentos. E em termos de qualidade de luta, coreografia, até mesmo edição, a coisa desanda…

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Se na execução do confronto entre Kurt e Po, deixaram a desejar, ao menos os diretores foram inteligentes o suficiente para incluir no meio da sequência de luta uma outra cena mais agitada na qual alguns coadjuvantes têm a oportunidade de botar para quebrar. Xian e Taylor aproveitam o evento e resgatam Eric dos seus sequestradores, com direito a tiros e explosões ao melhor estilo anos 80. E Eric até ajuda da maneira que pode, desferindo alguns golpes mesmo preso em uma cadeira de rodas. Portanto, no fim das contas, o resultado final do climax é positivo. Tem seus problemas, mas é divertido de se ver.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tirando pequenos detalhes, KICKBOXER é um grande filme, feito na medida certa para quem curte o gênero. É honesto, não tem receio de parecer ridículo e tem Van Damme esbanjando carisma. Se você gosta de uma história inspiradora, montagens de treinamento e cenas de luta legais, tá na hora de (re)ver KICKBOXER. Vale lembrar ainda que o filme teve quatro continuações nos anos 90. Nenhuma delas com Van Damme. Mas duas dirigidas por Albert Pyun, que é o responsável por CYBORG, um dos meus trabalhos favoritos de JCVD. Recentemente tivemos uma espécie de refilmagem, KICKBOXER: VENGEANCE. Van Damme reaparece como coadjuvante de luxo, interpretando o mestre que treina um jovem lutador. E os caras parecem incansáveis. Já preparam mais duas continuações deste último. KICKBOXER RETALIATION sai ainda este ano, e KICKBOXER: ARMAGEDDON tem previsão para 2018. Haja chute na cara!

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4 Comentários

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  • Boa noite. Caro amigo, seria possível que todas as resenhas de filmes fossem tão extensas quando essa? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.