KONG – A ILHA DA CAVEIRA: Eu quero mais filmes B de 200 milhões de dólares. Se é que isso existe…

Eu nunca fui um fã de KING KONG. Fui ver o filme de 1933 só ano passado e aquele do Peter Jackson vi há uns dez anos atrás. O primeiro é realmente muito mais interessante: um clássico do cinema de ação que todo mundo deveria conferir um dia e ver como os efeitos da época ainda impressionam, como o filme é acelerado e violento, criativo e maluco, enfim, divertido pacas. Isso tudo mesmo com mais de 80 anos nas costas. Mas também não cai da cadeira e me revirei em êxtase. Então fui ver a nova roupagem do personagem em KONG: A ILHA DA CAVEIRA sem uma grande ligação emocional, nostalgia ou algo assim, só empolgado pelos trailers, com suas referências a APOCALYPSE NOW, uma bela fotografia, Creedence na trilha sonora e Kong quebrando tudo. E não me decepcionei. Gostei bastante do filme. Muito mais até do que achei que ia gostar. Mas logo vieram mais críticas do que elogios ao filme nos canais do Youtube que costumo seguir e no Letterboxd a recepção também foi morna. E o que acho estranho é que várias vezes ouvi esse pessoal se referindo a ILHA DA CAVEIRA como um filme B. Usando isso num tom meio pejorativo, obviamente mais pela temática e pelo tom do que pelo orçamento.

O filme acompanha um grupo de militares e cientistas que vão explorar uma ilha do Pacífico Sul, escondida no meio de um círculo impenetrável de nuvens e tempestades elétricas, desconhecida antes do mapeamento geográfico por satélites. John Goodman faz o papel do chefe da expedição, Bill Randa, que esconde do resto da expedição seu desejo de encontrar criaturas pré-históricas na ilha, até que seus helicópteros começam jogar bombas no solo e Kong que aparece para tomar satisfação. A cena pra mim é a melhor do filme. Na trilha sonora, Paronoid do Black Sabbath entra em sincronia com as hélices dos helicópteros e fica lenta quando Kong derruba algumas das aeronaves. Ou seja, uma música muito manjada e que se não fosse por esses detalhes deixaria a trilha mais esquecível, de momentos óbvios com Run Through the Jungle do CCR, apenas uma coleção de músicas bacanas pra quem tem 12 anos conhecer pelo Spotify. O que não é ruim também. É difícil ver ESCORPIÃO VERMELHO com o Dolph Loundgren e não se divertir com perseguições e tiroteios ao som das mesmas músicas de sempre do Little Richard. Mas voltando ao filme, depois que Kong destrói os helicópteros seguimos dois grupos, o de Goodman com Samuel L. Jackson e seus soldados e o de Tom Hiddleston e Brie Larson com mais uma meia dúzia de personagens esquecíveis até que eles encontram o John C. Reilly como um soldado da Segunda Guerra perdido na ilha desde então.

Aqui eu até entendo as críticas do filme. Os personagens são bem rasos, com exceção de C. Reilly e Sam Jackson. E todos servem seus devidos arquétipos, falam e morrem sem que você se importe tanto. Eu não vou me estender aqui e querer analisar todos eles porque de fato existem “protagonistas” demais. São uns 10 personagens (sem brincadeira) que necessitam de seu momento de destaque, mas que ao mesmo tempo significam tão pouco dentro do todo. Talvez se o Hiddleston fosse um pouco mais interessante no filme (que brilha só quando está espalhando sangue azul de pássaros por uma nuvem verde de gás tóxico) acho que não notaria tanto essa falta de alguém para carregar a história, um action-hero de fato… Mas não é culpa dele. Nem dos outros atores. Esse filme é sobre o Kong, como ele se tornou “rei”. E obviamente não é um TUBARÃO, que mesmo sendo um filme de “monstro” todos os personagens têm profundidade e diálogos fodidos. Assim como nem todo filme de ação é DURO DE MATAR. E isso é ótimo!

O que quero ressaltar com isso é que acho estranho que muitos dos que criticaram o filme se dizem os fãs de filmes B (sim, eu sei que existem diversas definições para um termo amplo como esse) como o próprio KING KONG VS. GODZILLA de 1962, se me permitem dizer isso mesmo não tendo visto o filme. Eu duvido que este filme tenha uma grande preocupação com as motivações dos personagens, arcos dramáticos e o escambau. Eu não estou dizendo que isso não é importante. É sim, e muito. Mas essas preocupações com estrutura e roteiro tem de ter níveis de importância de acordo com a proposta de cada filme. Querer privilegiar tudo é muito difícil e um filme menos pretensioso tem mais chance de acertar seu alvo. Muitos de nós, fãs de filmes como TROPAS ESTELARES e PREDADOR, muitas vezes reclamamos como queríamos de volta esse tipo de filme, mais despojado e casca-grossa, mas quando um filme como a A ILHA DA CAVEIRA aparece a gente procura pelo em ovo. Um filme colorido, sem aquele cinza monótono, de censura 13 anos mas com um soldado empalado por uma perna de uma aranha gigante numa referência a HOLOCAUSTO CANIBAL e que até tem um texto ambientalista e pacifista como todo bom filme de revolta da natureza dos anos 70.

Eu senti algo parecido com ROGUE ONE que eu achei bem melhor do que o mais “amigável” episódio VII de STAR WARS. Várias pessoas criticaram o fato dos personagens serem fracos e pouco carismáticos. Que era difícil se apagar a eles. O fato é que tudo que acontece num filme é escrito e reescrito várias vezes, ainda mais num filme grande como ROGUE ONE ou A ILHA DA CAVEIRA. Você é inclinado a gostar mais de tal personagem ou não pela habilidade do roteirista é claro, mas também pela vontade dele. Se ele quer isso ou não. Se serve o propósito da história ou não. Você imaginou se no final de Uma Nova Esperança se todo mundo morresse que bosta que ia ser?

Em ROGUE ONE os personagens são os verdadeiros expendables (descartáveis) e não os MERCENÁRIOS do Stallone. O fato deles morrerem tem um propósito, tanto dentro do contexto (morrer por um ideal) e como da estrutura (uma missão suicida). E fazer isso foi um risco para um filme de STAR WARS. A ILHA DA CAVEIRA não corre o mesmo risco com seus personagens já que você espera, sendo também um filme com uma temática militar, e parecido com JURASSIC PARK, que algumas pessoas vão morrer pelo caminho. Mas o como e quando é o que importa. Em que situações de risco eu vou colocar meus personagens. Se eu vou mostrar um pseudodáctilo arrancando o braço de um cientista em pleno ar no contra-luz do sol poente ou não. Ele pode ter uma edição truncada, ser uma bagunça no tom, ter CGI ruim nas cenas noturnas ou abusar de clichês, mas mesmo com tudo isso eu senti que tentaram fazer uma coisa diferente do blockbuster genérico de TRANSFORMERS pra-vender-brinquedo que esperava que ia ser. Pra mim é o que me faz levantar a bunda do sofá e ir para o cinema.

E o que esse novo filme de Kong poderia trazer do espírito de um filme e aventura dos anos 80 e de monstro dos anos 60 eu acho que ele trouxe, mesmo eu não tendo a infinita bagagem de todos os filmes de Kaijun e Tokusatsu que todo mundo parece ter agora… E que venha Godzilla – The King of Monsters com mariposa gigante e tudo!

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