LADY SNOWBLOOD – VINGANÇA NA NEVE (1973) – Mostra Kung Fu Cinema

Hoje, na Mostra Kung Fu Cinema, às 20h, teremos LADY SNOWBLOOD, mais um petardo do cinema japonês.

Lançado ao estrelato como um punk rocker, de zé-ninguém a revolucionário, Tarantino virou o ídolo da geração da apropriação, do remix. O grande trunfo do cara foi colocar bons diálogos em personagens de exploitations que geralmente são bem rasos fazendo com que você goste de ouvir eles falando, além de agindo (“That woman, she deserves her revenge… And we deserve to die…“). Mas hoje já dá para considerar o cara como um puta cineasta (o começo de BASTARDOS INGLÓRIOS chuta pra longe tudo o que fez antes como diretor), sem ter que ficar apelando para referências pop a todo momento.  O lance é que muita gente para no meio do caminho na apreciação da obra dele. Ver os filmes que ele tanto ama e copia é essencial para quem se diz fã do diretor. Um dos filmes mais amados da galera é KILL BILL. Mas poucos assistem um dos principais filmes que inspiraram a saga de vingança da Noiva: LADY SNOWBLOOD (lançado pela Versátil e pela Criterion). Em relação a outros filmes que são sempre citados como grandes fontes de referência do diretor, LADY SNOWBLOOD também me passava batido . Mas não mais! Que baita filme…

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Com um começo bem intrincado, o diretor Toshyo Fujita, vai revelando aos poucos a identidade e os propósitos da protagonista Yuki Kashima , a Lady Snowblood do título. Só depois de meia hora que os flashbacks param de ser intermitentes na explicação de seu passado e com pitadas da história do Japão. Parece uma crítica mas não é. Fujita é muito criativo ao inserir essas informações, usando montagens, fotonovela, pinturas mais clássicas e até páginas do mangá que inspirou o filme para ilustrar as narrações em off. Fiquei até curioso para saber o quanto o diretor se inspirou ao utilizar o material original na decupagem das cenas, escolhendo os enquadramentos e na narrativa de um modo geral.

Não conheço muito do cinema japonês para notar se o estilo de Fujita tem toques de outros diretores que faziam filmes de chambara na época e assim saber o que é mangá e o que é Seijun Suzuki. Mas o mangá foi escrito Kazuo Koike, o mesmo escritor de LONE WOLF AND CUB. Este ganhou uma adaptação dirigida por Kenji Misumi em 1972, um ano antes de LADY SNOWBLOOD, também pela Toho, com muito sucesso e gerando cinco sequências. Ou seja, mesclar o cinema clássico de samurais com uma pegada pop regada a sangue era a tendência.

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Eu vi os dois primeiros capítulos de LONE WOLF AND CUB e por mais que tenham semelhanças com o filme de Fujita, a transposição de LADY SNOWBLOOD parece ser mais próxima de um estilo de mangá, em que poucas vezes o enquadramento é um plano mais aberto (os splash pages). Planos mais longos e com a câmera parada são mais comuns em LONE WOLF AND CUB. O resultado de uma espadada é mostrado num plano bem definido, às vezes com o próprio Lone Wolf ainda na pose do ataque. A câmera em LADY SNOWBLOOD se move bastante e procura enquadrar os personagens seguindo a ação. Como a steadycam ainda não havia sido inventada, esses movimentos as vezes ficam um pouco atrapalhados e o operador tenta não tremer tanto. Na primeira cena em que os pais da Lady aparecem, o diretor tenta emular um movimento de grua. A câmera parece que desce amarrada numa corda e treme pacas. Talvez os comentários no DVD do filme poderiam esclarecer cada uma dessas gambiarras.

O filme é uma saga de vingança. As quase mil páginas da série escrita entre 1972 e 1973 até poderiam render mais do que os 96 minutos do filme, mas acho interessante deixar só essencial, o cerne da trama super concentrado. Como um Dragon Ball Z Kai. Um stacker triplo. Ainda quero assistir os outros capítulos da saga de LONE WOLF porque cada um tem menos de 90 minutos de duração (tirando o terceiro filme). Agora se cada um tivesse la seus 120 minutos eu já não prometia nada. Noventa minutos seria o ideal para 90% dos filmes já feitos na história da humanidade. Mas voltando a LADY SNOWBLOOD, acompanhamos a jovem Yuki atrás dos assassinos de sua família. Eram mercenários “protegendo” uma vila contra agentes do governo que recrutavam jovens para a guerra. São eles:

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1) Tokuiche Shokei – Ele leva a mãe de Yuki para servir de acompanhante e satisfazer seus desejos sexuais sendo depois morto por ela. A mãe de Yuki é condenada à prisão perpetua e tem relações com vários homens na prisão para dar luz a um filho que possa matar os outros membros da gangue e vingá-la. Quando Yuki nasce, sua mãe, pouco antes de morrer, lhe chama de “filha do submundo”.

2) Banzo Takemura – Depois de passar toda infância sendo treinada com crueldade pelo monge Dokai, Yuki procura seu primeiro alvo. Banzo agora está velho e doente. Perde todo dinheiro que tem na jogatina e sua única filha, Kobue, tem que trabalhar como prostituta para cuidar do pai. É interessante ver os caminhos da vingança ao apresentar os assassinos agora como pessoas “comuns” ou arrependidas e o fato de que Yuki sente compaixão pela jovem que logo deixará órfã. Isso torna o fato de que o espectador deseje as ver decepadas um pouco mais complicado.

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3) Okono Kitahama -Yuki conhece o jornalista Ryurei Ashio que publica a história de Lady Snowblood o que atrai Kobue e Okono. Esta última sequestra o jornalista para descobrir o paradeiro da “filha do submundo” em busca de vingança. Yuki invade a fortaleza de Okono e consegue resgatar Ryurei mas não tem o prazer de matar a mulher com sua própria espada porque ela se suicida. O que não impede que Yuki mande um overkill só de raiva e corte Okono ao meio ainda pendurada pelo pescoço!

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4) Gishiro Tsukamoto – O último membro da gangue já tinha lápide e tudo, o que também frustra a jovem Yuki. Mas a morte na verdade era um disfarce para que Gishiro trocasse de identidade. Ele agora é um traficante de armas e também pai de Ryurei! O confronto final acontece num baile de máscaras numa mansão com membros da elite da sociedade japonesa.

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Um desfecho sensacional. As músicas clássicas famosas tocadas no baile servem de contraponto a trilha musical mais jazzística e pop que havíamos ouvido até então, aumentando o escopo da colagem pós moderna que tornaria Tarantino famoso vinte anos depois. A balada que abre e fecha o filme é cantada pela atriz que interpreta Yuki, Meiko Kaji, e isso também é sensacional. Qual foi a última vez que você viu um filme em que o protagonista canta o tema do personagem que interpreta? Qual foi a última vez que viu um filme que tem um tema cantado?

Uma balada poderosa com a pegada que Morricone colocava nas suas, como em Un Amico, tema de REVOLVER de 1973 e que na minha opinião está no top 5 de sua carreira. Cadê esse tipo de emoção usada no cinema contemporânea sem ser irônica ou vista como brega? O exagero é uma arte. LADY SNOWBLOOD é exagerado  nas cores, na edição, enquadramentos e dramas. A violência é plástica. Uma lição de como dar uma cara única e inesquecível a algo tão batido como uma trama de vingança.

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1 Comentário

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  • Escrever sobre Tarantino e o cine -fake é um droga. cara não cria nada só chupa o que já foi feito é por isso que eu não assisto nada desse cidadão e inclusive vai passar hoje na Globo o tal Django Livre .. Western homenagem á outros filmes do genero ,Argh! nem vou perder meu tempo assistindo isso. Mas valeu por publicar esse artigo sobre Lady Snowblood filme que ainda nem tem em minha Videoteca.. pois esta caro em possui-lo.