LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI (1990) | REVIEW

LEÃO BRANCO – O LUTADOR SEM LEI talvez mereça ser observado com mais atenção. Não que seja maltratado ou coisa do tipo, os fãs de filmes de luta até gostam, mas poucos veem algo a mais. E quem estou tentando enganar? Provável que nem exista esse “algo a mais”. É simples, direto, filme da mais pura essência narrativa voltada para a pancadaria como eram tantos outros que alegravam a infância dos moleques nos anos 90. Ou seja, funciona perfeitamente como aquilo que se propõe a ser, um veículo para Jean-Claude Van Damme demonstrar seus talentos em artes marciais e contar uma história que lhe proporcione isso. E só. No entanto, revendo essa semana, percebi umas nuances subjetivas por trás de toda a simplicidade narrativa que colocaria LEÃO BRANCO como o filme mais definitivo dessa fase inicial pós-estrelato da carreira de JCVD.

É o filme que sintetiza a obra de Van Damme: a linguagem do físico, do corpo como instrumento de dramaturgia, dos excessos, dos desacertos, da superfície, da maneira mais intensa que qualquer outro filme estrelado por ele até então. Principalmente em como se entrega a este personagem específico, Lyon, o legionário desertor, que foge para os Estados Unidos após receber a notícia que seu irmão está à beira da morte. Entrega-se mais até do que ao interpretar Frank Dux em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, ou quando viveu Kurt Sloane em KICKBOXER, pra ficar em dois dos seus filmes de maior sucesso no período. Há uma expressão facial que Van Damme carrega todo o filme, um olhar que o desconstrói como típico herói dos “kickboxer movies”, um olhar insuportavelmente triste, vulnerável, um olhar de pedra no qual só vejo paralelo em um Buster Keaton.

leao branco

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É a partir daqui que Van Damme prova estar preparado para encarar o peso de ser o astro de ação que fora nos anos 90. É como se depois de ter atingido o estrelato com seus primeiros filmes, o sujeito quisesse confirmar seu propósito como ator e realizar alguns trabalhos mais pessoais e intimistas – ainda que totalmente subjugados ao gênero, mas que também faz parte das suas idiossincrasias – antes de finalmente alçar vôos maiores. LEÃO BRANCO é o resultado dessa prova, um filme menor, mas que lá no fundo sintetiza toda uma carreira que estava por vir e reafirma o fenômeno Jean-Claude Van Damme dos anos 90.

Mas vamos à trama, que também nos interessa. A história começa em Los Angeles, com François, um sujeito que é incendiado durante uma negociação de tráfico de drogas. Ele sobrevive, mas tem o corpo todo queimado e grita por seu irmão, Lyon! Mas Lyon está no norte da África fazendo trabalhos forçados para a Legião Estrangeira Francesa. Quando recebe a notícia sobre o estado de seu irmão, conversa com seus superiores para pedir uma licença ou algo parecido para poder visitar o ente querido. Mas seus superiores são filhos da puta o bastante para não deixar. O jeito é escapar, arrumar um barco e ir para os EUA.

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Chegando em Nova York às duras penas, sem um puto no bolso, percebe uma movimentação estranha debaixo de um viaduto. Descobre um pequeno negócio de luta clandestina rolando solto em plena luz do dia e vê a oportunidade de, à base da pancada, descolar uma grana. Lyon não perdoa, quebra a cara do seu oponente e ainda ganha um autoproclamado agente de lutas, Joshua (Harrison Page), que promete levá-lo para L.A. Acaba, no entanto, se envolvendo num universo de lutas clandestinas bem maior, onde rola muita grana e diverte milionários entediados com lutas de boxe convencionais, buscando uma emoção a mais. Uma das responsáveis pelo circuito é Cynthia, interpretada por Deborah Rennard (GUERREIROS DO APOCALIPSE), que além de perceber potencial em Lyon, faz de tudo para usar o corpo do sujeito para outras coisas… Vale destacar também a presença do grande Brian Thompson (COBRA) como braço-direito de Cynthia.

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Ao desembarcar em L.A, Lyon descobre que seu irmão já bateu as botas e agora tem de lidar com a viúva, Nicole (Ashley Johnson), que o culpa por tê-lo abandonado. Então decide fazer a única coisa que sabe, entrar de vez no círcuito de lutas clandestinas e ganhar dinheiro suficiente para ajudar o que resta de sua família. Ao mesmo tempo, possui dois legionários lhe vigiando, tentando prendê-lo e levá-lo de volta para ser julgado por deserção – uma situação parecida com a de Frank Dux, personagem que JCVD viveu em O GRANDE DRAGÃO BRANCO, que vai participar do Kumite em Hong Kong e dois agente do governo ficam na sua cola para levá-lo de volta. Uma curiosidade aqui é que um dos dois legionários é vivido por Michel Qissi, que é ninguém menos que o Tong Po, de KICKBOXER.

Um detalhe que gosto bastante em LEÃO BRANCO é que Lyon nunca segue a trilha da vingança atrás dos responsáveis pela morte de seu irmão. O médico diz que provavelmente o assassino já foi capturado, nunca se sabe… Mas isso basta. O filme simplesmente deixa isso de lado e o protagonista apenas se concentra em tentar compensar sua ausência e obter dinheiro para ajudar sua cunhada e a adorável sobrinha. E o faz sujando as mãos de sangue, sem que isso desperte qualquer reflexão ética sobre seus atos, não há momento para julgamentos num filme desses. É um filme de porrada, caralho, vence quem fica em pé, não importa o que aconteça! Menos ética e mais honra era a palavra de ordem dos filmes de luta dos anos noventa, algo que o politicamente correto nos fez o favor de exterminar no cinema atual, com raríssimas exceções. E que LEÃO BRANCO segue à risca.

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Mas falando em porrada, um dos principais atrativos de LEÃO BRANCO é a diversificação das cenas de luta. São vários momentos em que Lyon arregaça as mangas e arrebenta seus adversários sem que, no entanto, o filme soe repetitivo, sempre inovando em oponentes e ambientes. Cada confronto, uma narrativa, cada rival, uma personalidade diferenciada – um escocês, de kilt e tudo; um cabeludo meio capoeirista; o desafiante final, Attilla, um brutamontes que sai de uma limousine de terno preto e um gatinho branco no colo… Os cenários também se renovam em cada luta: uma garagem iluminada com os faróis de carros à uma quadra de squash ou uma piscina com água em um dos lados…

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O diretor de LEÃO BRANCO é Sheldon Lettich, co-roteirista da KICKBOXER, e faz aqui um trabalho muito seguro, mas com certa personalidade. Manda bem nas cenas de luta, coloca a câmera no lugar certo, mas em alguns momentos chega a impressionar. Há um plano, por exemplo, de Nicole e sua filha saindo do apartamento e caminhando pela rua enquanto a câmera as segue numa grua bem lenta mostrando a rua e o bairro. Não parece que o plano tenha qualquer outro propósito que isso… No entanto, de repente, a câmera chega no apartamento do outro lado da rua e, no primeiro plano, mostra um dos legionários pra fora da janela as espionando. Uma cena simples, mas filmada com a mesma elaboração que veríamos num filme de um Brian De Palma… O tipo de coisa que não se espera ver num filme do Van Damme do período.

Mas isso é o de menos. O que realmente impressiona mesmo em LEÃO BRANCO é a sua veia definidora, a presença física e grande atuação de Van Damme, numa entrega que há muito não se vê nesse tipo de filme. Vale destacar que o filme é o primeiro roteiro escrito pelo próprio JCVD (juntamente com Lettich) que é levado às telas. O que intensifica ainda mais essa ideia de entrega tão pessoal que senti nessa revisão. Ok, LEÃO BRANCO certamente não vai mudar a vida de ninguém, nem quero dizer que seja uma obra-prima a ser redescoberta. Continua sendo o filme escapista de pancadaria que se espera. Muita pancadaria, aliás. E é bem provável que eu prefira outros filmes citados aqui neste texto, além de CYBORG, outro exemplar que veio antes, e que talvez seja o meu favorito do homem. Mas deem um pouco mais de atenção ao desempenho do belga quando forem ver ou rever LEÃO BRANCO. Garanto que vão se surpreender.

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4 Comentários

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  • Gosto muito desse. E o que vocês acham daquele em que o Van Damme participa de um torneio em que o Roger Moore interpreta um sujeito salafrário.

    • Esse é ainda mais pessoal pro JCVD, tanto que ele mesmo dirigiu. Eu gosto, embora nunca tenha achado grandes coisas. Mas é um dos que já faz mais de uma década que não vejo… carece de uma revisão.

  • Esse filme realmente é um dos melhores da “fase clássica” do Van Damme. A história até pode soar meio batida, mas sempre tive impressões semelhantes ao autor do texto de que é bem filmando, com bom desenvolvimento dos personagens e lutas diversificadas e acima da média.

    Duas curiosidades que não sei se o autor sabe, mas espero estar contribuindo:
    • O Attila foi feito pelo ator Abdel Qissi, que é irmão do Michel Qissi (e que também fez o lutador da mongólia no The Quest e, se não me engano, ainda enfrentou o Van Damme naquele filme que ele se mete com uns templários ou algo do tipo).
    • É um dos primeiros filmes do INIGUALÁVEL Billy Blanks. Ele é um dos soldados genéricos que apanham quando o Van Damme foge do exército.

    • Olá Eric, comentários assim sempre contribuem! A primeira curiosidades eu até sabia, mas acabei esquecendo de citar… A do Blanks eu já tinha ouvido falar, mas nunca soube quem ele era no filme! Valeu!