REVIEW: LUTADOR DE RUA (Hard Times, 1975)

OS TEMPOS DIFÍCEIS E POÉTICOS DE WALTER HILL

Porrada e elegância parecem duas coisas impossíveis de habitarem o mesmo ambiente, mas o cinema prova que não há problema em dar certo charme a pancadaria. Um dos diretores adeptos da causa é, sem dúvida, o norte-americano Walter Hill. E ele começou cedo nos negócios.

Seu longa-metragem de estréia é LUTADOR DE RUA (um título apelativo para o sutil original HARD TIMES). O filme tem seu ritmo e roteiro, também assinado por Hill, visivelmente inspirado nos contos ambientados no submundo do boxe dos anos 30 e 40, escritos por Jack London*, um dos autores mais visuais do seu tempo. Referências à parte, LUTADOR DE RUA começa com ares de interior, com Chaney, interpretado – muito bem, por sinal – pelo Charles Bronson, chegando de trem à cidade de Nova York. Visual de homem pacato do interior, reforçado por seu olhar melancólico ao avistar duas crianças antes de partir para a metrópole, Chaney não é cowboy mas tem tiro certeiro. De poucas palavras e expressões, ele vai direto ao ponto em todos os quesitos e o espectador fica a par dessa qualidade já no primeiro encontro do personagem com Speed, vivido por um sorridente James Coburn. Espécie de empresário de lutadores amadores, ele sobrevive das apostas feitas para seus protegidos. Chaney quer ser um deles e pede uma oportunidade sem contar historinhas tristes. Precisa de dinheiro e tem um bom cruzado de direita. Speed o testa e percebe que ele não é só rápido nas conversas, mas também em derrubar o adversário. Bem derrubado, aliás. É o início de uma parceria que irá abalar as lutas clandestinas da mítica New Orleans, destino escolhido pela dupla para alavancar a carreira de Chaney.

lutador de rua

O talento para fazer as coisas sem rodeios do protagonista também se aplica a camada de romance do filme. Sim, Hill acredita que os brutos também amam ou, no mínimo, se divertem. Jill Ireland, esposa de Bronson na vida real, interpreta Lucy,  a “mocinha” que, enquanto o marido não sai da cadeia, impressiona-se com a sinceridade de Chaney. Sem falsas promessas ou elogios baratos, o primeiro encontro dos dois, que ocorre no mesmo local do início da parceria com Speed, contém alguns dos diálogos mais sem frescuras dos anos 70.  Sem joguinhos, logo, irresistível.

Seduções à parte,  LUTADOR DE RUA, mesmo lembrado por seus embates com bons socos e pontapés, é um filme sobre um dos períodos mais complicados da história dos Estados Unidos. A Grande Depressão não é apenas pano de fundo, mas a fonte de toda a trama. Chaney deixa seu lar no campo para que os bolsos voltem a estarem cheios. E nem precisam transbordar. Ao contrário de Speed, seus gostos são simples e luxo não está entre as suas prioridades. A direção de arte de Trevor Williams explora as paredes repletas de rachaduras, as construções antigas de New Orleans, que parece exalar o suor e o jazz em quantidades equivalentes e as arenas de luta improvisadas. Se o reboca está descascando, a vida vai no mesmo caminho, com a crise tornando-se mais presente no cotidiano americano. Walter Hill equilibra drama humano com ação, já mostrando qual seria a sua marca registrada, que se confirmou em seus dois filmes seguintes, CAÇADOR DE MORTE e THE WARRIORS.

lutador de rua

LUTADOR DE RUA tem homens sem nada a perder, mas que nem por isso são destituídos de alma. Speed e Bronson, ambos incríveis em seus papéis, tentam se manterem firmes na corda bamba, um por paixão pelo jogo e outro para garantir a refeição do dia. Se os objetivos são diferentes, o que não muda é o desejo de que dias melhores enfim, cheguem e fiquem. E os socos destinado ao oponente tenha menos raiva da realidade e mais técnica.

*Vale conferir a coletânea Por um Bife e outras histórias de boxeadores, de Jack London, lançado no Brasil pela editora L&PM.

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1 Comentário

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  • Muito bem colocada a comparação com a obra de Jack London. Ainda não li “Por Um Bife”, entretanto sei que o realismo imprimido por London em suas páginas é tão incisivo que chegou a assustar lutadores profissionais de boxe.