NICO, ACIMA DA LEI (Above the Law, 1988)

NICO, ACIMA DA LEI, possui tanto caráter de “primeiro filme”, que o Seagal nem tinha ainda seu característico rabinho de cavalo cretino. Mas não chega a ser um detalhe preocupante, porque a ausência do excesso de cabelo na nuca do ator não interfere em nada seu desempenho nas artes dramáticas ou ao distribuir pancadas e tiros nos meliantes de plantão. Com exceção, é claro, do aspecto visual dos enquadramentos, já que Steven Seagal sem cabelinho balangando é a mesma coisa que Jack Nicholson assistindo a um jogo dos Lakers sem óculos escuros. No entanto, o filme já apresenta todos os elementos essenciais, sejam eles físicos ou filosóficos, do cinema de Seagal. O que quero dizer com isso? Quero dizer que já aqui, neste debut, o sujeito esgota o seu arsenal ideológico e de braços quebrados de uma tacada só, definindo a sua persona singular para o restante de sua longa filmografia que viria a seguir nas próximas décadas e que perdura até hoje, independente da do tamanho da pança e da qualidade lamentável de alguns trabalho atuais.

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Seagal interpreta em NICO, ACIMA DA LEI o policial do título, Nico Toscani, personagem com tons auto-biográficos, já que a produção e o roteiro tem o dedo de seu criador (não é a toa que Seagal já tenha declarado que Nico foi o papel que mais gostou de fazer). O personagem é o próprio Seagal e o filme começa como um autêntico documentário sobre a vida do ator, incluindo uma sessão de fotos pessoais nos créditos de abertura e uma narração em off sobre os primeiros passos de Nico no mundo das artes marciais, mais especificamente do aikido, e que possui paralelo com a própria história do ator, assim como sua relação com a CIA . Na vida real, Seagal foi instrutor de artes marciais de agentes. Já no filme, Nico realmente torna-se um, tendo até uma passagem bem desagradável na guerra do Vietnã no início da década de 70.

Mas a trama transcorre mesmo quinze anos depois dos acontecimentos no Vietnã, com o protagonista trabalhando na polícia de Chicago – o sujeito é desses tiras durões que gostamos de ver neste tipo de filme – investigando um intrincado caso de tráfico de drogas, que acaba resultando em algo muito maior e mais perigoso e que põe a sua vida e a da sua família em risco a cada nova descoberta (a esposa do cara é ninguém menos que a delícia Sharon Stone). Nico e sua parceira (a musa Pam Grier) se vêem envolvido numa conspiração da CIA com objetivo de assassinar um senador. Barra pesada! A coisa esquenta ainda mais quando, e aí voltamos às questões do Vietnã, descobre-se que a mente maquiavélica por trás do plano é justamente um desafeto de Nico, interpretado pelo grande Henry Silva.

E aí, meu caros, é pancadaria, tiros, uma igreja explodida ali, mais pancadaria… Ação da boa!

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Um dos grandes baratos de NICO é ver Steven Seagal por aqui tão ágil e magro em contraste com sua forma física atual. Chega a ser um choque. Por isso que é tão fácil tê-lo como alvo de chacota e esquecer o quão badass e cool ele podia ser. A prova está aqui. Seagal se apresenta com muita expressividade física e realmente parece intimidante durante as cenas de luta, sem contar que seu desempenho como homem de ação é muito bom. Acreditem, ele é natural e parece mesmo confortável na frente da câmera. Não iria exigir isso de ninguém, até porque não quero perder os poucos leitores que tenho, mas sintam-se à vontade para comparar a performance do sujeito em seus primeiros filmes com seus posteriores, onde aparece visivelmente preguiçoso, duro e com má vontade até mesmo para proferir suas falas. Claro, existem algumas exceções…

Outro detalhe que vocês já devem ter percebido com NICO foi a capacidade de reunir um elenco dos bons para este primeiro filme de um sujeito até então meio desconhecido. A musa do blaxploitation Pam Grier, Sharon Stone e Henry Silva como vilão com planos diabólicos e risada maquiavélica e que possui uma boa variação de técnicas para torturar pessoas de língua presa? Puta merda! E ainda tem uma pontinha “piscou perdeu” de um jovem Michael Rooker, numa cena logo no início, no primeiro bar em que Seagal faz seu primeiro quebra-quebra da história do cinema.

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A direção de NICO ficou por conta de Andrew Davis, que era um cara legal no inicio da carreira. Realizou algumas coisas bacanas como CÓDIGO DO SILENCIO, com Chuck Norris, THE PACKAGE, com Gene Hackman e Tommy Lee Jones, e voltou a trabalhar com Seagal em A FORÇA EM ALERTA, que é um dos filmes mais divertidos do ator. Mas depois de O FUGITIVO, Davis deixou seu nível cair bastante. NICO é seu quarto trabalho e ainda tinha pulso firme para sequências de ação e porrada, elementos que não podem faltar num filme como este, especialmente quando se pode explorar as habilidades de um Steven Seagal em cenas de luta (a sequência com um facão é sensacional). Mas não só isso: tiroteios bem filmados e uma sequência de carro em alta velocidade com Nico no capô são grandes destaques em termos de ação por aqui.

Aliás, o fato de Davis ser o diretor tanto de NICO quanto de CÓDIGO DO SILÊNCIO é meio estranho, porque são filmes irmãos. Ambos se passam em Chicago, abordam temas de policiais corruptos (inclusive com os mesmos atores) e em ambos Henry Silva faz o vilão… É igual, mas é diferente, sabe como é? Uma sensação de déjà vu… Enfim, mas o principal elemento que os diferencia é Steven Seagal e seu personagem auto-biográfico. Isso, aliado a boa história, que não traz nenhuma novidade, mas também não inventa moda, fazem de NICO, ACIMA DA LEI uma bela estreia do ator e até hoje continua um dos melhores trabalhos de Steven Seagal.

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