OS QUATRO DA AVE MARIA (I quattro dell’Ave Maria, 1968) | REVIEW

Uma oração para Colizzi.

Ser um admirador de spaghetti westerns não é uma tarefa fácil, ainda mais no Brasil, onde a maioria dos filmes, apesar de terem sido exibidos inúmeras vezes na televisão, são lançados com pouca ou nenhuma dedicação pelas distribuidoras. Um dos poucos exemplares que foge a regra e chegou ao mercado de home video em formato widescreen e com boa qualidade de imagem e som é Os Quatro da Ave Maria, segunda parte da trilogia do diretor Giuseppe Colizzi que traz a dupla Bud Spencer e Terence Hill no elenco. Iniciada com Deus Perdoa…Eu Não!, de 1967, e seguida por Boot Hill – A Colina dos Homens Maus, de 1969, o filme chegou a ser anunciado por estas bandas como um pré-Trinity, uma jogada de marketing enganosa, já que a história nada tem a ver com a trama que Enzo Barboni iria dirigir no início dos anos 70 e que é um dos símbolos da última fase do spaghetti western, mais voltada para a comédia física que para pistolas certeiras. Mas deixemos de lado o mercado de DVDs e vamos ao que interessa.

Os Quatro da Ave Maria foi lançado em 1968, dois anos depois de Três Homens em Conflito, de Sergio Leone. Esta informação é válida pois o filme de Colizzi carrega resquícios do clássico encerramento da Trilogia do Dólar que vão além da presença de Eli Wallach no elenco. O nome do americano não está em destaque nos créditos à toa. Seu semi-vilão (ele não é de todo malvado) Cacopoulos é uma pepita num imenso garimpo. Não desmerecendo Spencer e Hill, que cumprem suas funções com muito charme, mas Wallach ilumina a tela desde sua primeira aparição. Talvez por isso Colizzi optou por adiá-la além do tradicional para um protagonista. A cena de abertura é toda da dupla mais amada (e lembrada) do cinema italiano. Spencer, que dá vida ao rabugento Hutch, surge conduzindo uma carroça e usando um nada elegante casaco de pele mais sujo que a estrada que percorre. Ao seu lado, Hill interpreta Cat Stevens (impossível não lembrar do autor da bela canção Father and Son), uma versão mais séria do que viria a ser o seu Trinity. A dupla é surpreendida por Cacopoulos após esvaziar o banco de uma cidadezinha e de novos ricos os dois passam a pobres almas perdidas no deserto. Mas logo aquelas reviravoltas típicas do gênero acontecem e o que eram dois contra um tornam-se três em compasso. Ou pelo menos com momentos de harmonia.

Quem gosta da pancadaria coreografada, que inclui os tradicionais socos na cabeça desferidos por Hutch nos inimigos, não terá do que se queixar. Há, inclusive, um tiroteio na fronteira com o México que não deve em nada para os exemplares americanos e ainda é permeado pelo clima do Western Socialista ou Zapata Westerns, onde Cacopoulos encarna a figura do gringo idealista que conquista um vilarejo camponês com dinheiro e simpatia. E o espectador não fica imune, já que é impossível desgrudar os olhos da tela quando Eli Wallach aparece, mesmo que seja para apenas cuspir no chão.

Fica claro desde os primeiros minutos de filme que Giuseppe Colizzi não é nenhum às da direção. Sua câmera peca pela simplicidade em algumas cenas, em especial nas de embate, mas não se pode ignorar sua criatividade para criar situações insólitas. O diálogo entre Cacopoulos e Hutch entre os cestos onde descansam os bebês enquanto os pais curtem uma farra, é das melhores do longa. Só perde talvez para a sinuca disputada sobre cavalos ou a fala em ritmo de canção de ninar de Cacopoulos sobre sua origem grega, com direito a citação de filósofos e escritores.

Os Quatro da Ave Maria, apesar de ter tido um investimento alto para os padrões dos ciclos de cinema italiano, com locações no México e na Espanha, não costuma marcar presença nas listas de melhores do spaghetti westerns. No entanto, poucas vezes tivemos mais que simples duelos e roubos dentro de uma trama e atuações que dão gosto de ver. Tudo bem que não é preciso muito para ser superior a um Anthony Steffen, mas mais da metade da magia de Os Quatro da Ave Maria está nos olhares, nos sorrisos e nas entrelinhas presentes em cada bala disparada, coisa que não se vê com tanta facilidade mesmo na fase áurea do gênero. E o superduelo final, ao som de uma valsa que só podia ser composta por Carlos Rusticelli, é para se guardar na memória.

Giuseppe Colizzi merece nossa oração, daqueles que a gente faz na hora do aperto para os deuses do cinema garantirem boas histórias em nossas vidas.

Capa do VHS brasileiro da CIC Video.
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