REVIEW: A PROPOSTA (The Proposition, 2005)

Uma Balada Violenta

Poucas vozes calam tão fundo quanto a do australiano Nick Cave. Seu álbum Murder Ballads, lançado em 1996, é inspirador ao ponto de parecer trilha de filme. Não é à toa que Cave não se contentou em criar imagens nas mentes de seus ouvintes e escreveu um roteiro ambientado no período colonizador de sua terra natal, ou seja, é um filme sobre desbravadores. A PROPOSTA chegou aos cinemas em 2005, porém não pode ostentar o título de faroeste revisionista por não ter como principal interesse uma nova roupagem para uma temática já conhecida. Cave, no roteiro, e John Hillcoat, na direção, fizeram um faroeste único e inovador, sem base em nenhum outro produzido anteriormente.

Óbvio que é possível identificar traços do spaghetti western, em especial nos direcionados ao público maior de 18 anos, com altas doses de violência e tortura. Afinal, não é costume em um John Ford do início de carreira uma cena de abertura marcada por tiros ininterruptos e sangue jorrando aos borbotões. Os Sergios (Martino, Corbucci, Sollima e Leone) ficariam orgulhosos, por mais que Cave não tenha escrito cenas e diálogos para agradar corações frágeis. Sua abordagem para o preconceituoso período que a Austrália vivia no século XIX. Aborígenes eram perseguidos pelos brancos que tinham a ideia de implementação da civilidade. Ou, pelo menos, algo que eles entendiam por civilidade, já que morte e injustiça estavam na ordem do dia dos senhores da lei. Ambicioso por colocar seu plano de tornar a Austrália algo como uma Nova Inglaterra, o capitão Stanley, interpretado com precisão por Ray Winstone, resolve encurtar o caminho da captura de Arthur Burns (um inspirado Danny Huston!), o homem-cachorro que vive isolado no deserto, contando com a ajuda de seu irmão, Charlie (Guy Pearce). A tal proposta inclui que Charlie acabe com a vida do próprio irmão em nome da liberdade do caçula, Mike, acusado de estupro e assassinato.

Guy Pearce e o jovem Richard Wilson são o centro de alguns dos momentos mais poéticos e sangrentos de A PROPOSTA. A construção do roteiro de Cave se preocupa em doses iguais com o desenvolvimento da história e com os momentos de contemplação. Os traços marcados de Pearce fazem o espectador familiarizado com o faroeste reconhecê-lo como o anti-herói pelo qual se cria empatia apesar dos atos pouco amigáveis. Seu mergulho pelo deserto australiano em busca de Arthur conta com vários tons de laranja e dourado na fotografia, ficando impossível não associar ao chamado da selva feito à Willard em APOCALYPSE NOW, de Coppola. O suor que escorre dos corpos e o zunido das moscas eternamente presentes no ambiente remetem aos melhores tempos de Sam Peckinpah. Referências aos montes, porém usadas com sutileza, já que a assinatura maior é de Nick Cave, reforçada pelo também sombrio Hillcoat na condução das cenas.

Amenizar não é verbo presente. Até o alívio cômico é malvado, por assim dizer, em A PROPOSTA, com o tiro no próprio pé que um soldado dispara enquanto dorme. Até a aparentemente frágil Emily Watson, na pele de Martha, esposa de Stanley, está ao serviço de contar uma história nada agradável que parece tornar-se melhor a cada revisão, mesmo que o público brasileiro só tenha podido desfrutá-la numa pobre edição em DVD fora do formato original. Não atrapalha a atmosfera asfixiante, mas deixa no ar a ideia de que a experiência poderia ter sido mais intensa para quem assiste. Desfrutar as várias camadas do filme, com direito a breves viagens guiadas pelos versos que Charlie declama enquanto cavalga até o seu destino. Cave fez questão que sua poesia hipnotizante estivesse também na trilha, que ele assina ao lado do parceiro Warren Ellis.

A PROPOSTA é um exemplar do faroeste que merece integrar a lista de grandes do gênero, e é triste que tenha passado em branco pelos nossos cinemas e até mesmo no home vídeo. A torcida para que ele seja revisitado e dissecado até a última rachadura do solo do deserto por novos públicos está de pé.

Gostou do conteúdo? Seja o nosso patrão! Yippee Ki Yay, Motherfucker!

2 Comentários

Deixe uma resposta