STOCK FOOTAGE CINEMA – Parte 1: RANGERS (2000)

O cinema de ação em Hollywood melhorou bastante de alguns anos pra cá. Mas lembro que por volta de uma década atrás, estava difícil acompanhar os “filmes industriais” do gênero. Claro, havia algumas exceções, mas de uma forma geral o resultado era sempre mais do mesmo. Naquela época eu preferia sossegar no meu confortável sofá, degustar de um bom inebriante e colocar na agulha uma tralha de ação qualquer. Filmes onde um roteiro cretino é mero detalhe, os atores são péssimos, as situações são forçadas e o resultado é ruim de doer! Mas ao menos não possuiam pretensão alguma e cumpriam muito bem o papel ao qual foram designados: servir de diversão aos fanáticos por tosqueiras de baixo orçamento. Foi nessa época que descobri RANGERS.

RANGERS é mais uma proeza do Jim Wynorski, discípulo do lendário produtor Roger Corman. Jim surgiu no cenário dos filmes de baixo orçamento nos anos 80 e não parou mais. O sujeito possui atualmente mais de cem filmes catalogados no imdb, dos mais diversos gêneros (especialmente filmes de horror e eróticos, mas também muita ação). Mas como nem o famoso site consegue acompanhar o ritmo desses caras, aposto que o número deve ser um pouco mais alto… principalmente quando se trata de pessoas que adoram um pseudônimo, como é o caso de Jim. Em RANGERS ele assina como Jay Andrews. Costumo dizer que Jim Wynorski e Fred Olen Ray (outro diretor da mesma laia) são o Joe D’Amato e Jess Franco da nossa geração em termos de quantidade produtiva. Os filmes desses dois, somados, ultrapassaria o número de duzentas produções de qualidade duvidosa. É filme pra burro para serem saboreados.

Jim ainda possui outras qualidades. Uma delas é a façanha de ser considerado o mestre do “Stock Footage Cinema”.  Mas o que raios seria Stock Footage? Bem, a coisa pode ser explicada de forma básica numa questão: Para que gastar um dinheirão filmando determinadas cenas se todas elas já foram filmadas por outras pessoas? Portanto, Stock Footage é a inserção, na montagem, de cenas de multidões, explosões, aviões e helicópteros que pertencem a outros filmes. Vale ressaltar que se trata de um recurso legal, no qual pequenos estúdios compram os direitos de utilização de determinadas imagens de produções mais caras e as utilizam em suas obras. E Jim Wynorski usa e abusa desse recurso. RANGERS é um exemplo perfeito do Stock Footage Cinema de Wynorski!

E é perfeito especialmente pelas escolhas dos filmes que tiveram suas imagens reaproveitadas por aqui. O sujeito simplesmente catou sequências inteiras, por exemplo, de INVASÃO USA e COMANDO DELTA, ambos estrelados por Chuck Norris, para serem implantadas à narrativa na maior cara de pau! Além de outros exemplares…

Wynorski nunca filmaria uma cena dessas. Pode apostar: pertence a algum outro filme.

Mas vamos à trama de RANGERS. O entrecho envolve um grupo de agentes especiais do governo americano que inicia o filme numa missão no Oriente Médio. O objetivo é capturar Hadad (Edouard Saad), um terrorista que possui a cabeça a prêmio. Só que a missão dá errado, traições acontecem, reviravoltas e mistérios super criativos para não deixar o espectador bocejando (e isso em menos de 10 minutos), tudo porque há uma jogada intrigante por parte do governo americano e da CIA para eliminar seus próprios agentes, fortalecer suas relações com os terroristas e obter petróleo de uma forma mais fácil. É, a trama é barra pesada!

Alguns stock footage são difíceis de identificar. Outros nem tanto. Para essa sequência inicial foram utilizadas muitas imagens de NAVY SEALS, filme de ação do início dos anos 90, com Charlie Sheen e Michael Biehn.

Prosseguindo com a trama, os agentes, liderados por Broughten (Matt McCoy), conseguem escapar da cilada levando Hadad como prisioneiro. Mas infelizmente acabam deixando pra trás o oficial Shannon (Glenn Plummer). Este dá um jeito de se acertar com os terroristas, prometendo Hadad de volta, e aproveita para bolar seu plano de vingança contra aqueles que armaram pra cima dele e de seu grupo. É aí que entram em cena os enxertos de INVASÃO USA, já que os terroristas árabes invadem o país com a ajuda de Shannon para libertar seu líder. Mas, peraê, os terroristas do filme de Chuck Norris não eram árabes… ok, isso também não importa, mas é de rolar de rir com o resultado.

Um tanque de guerra do filme INVASÃO USA.
Shannon e seu poder de fogo.

A sequência de ação final de INVASÃO USA, na qual os terroristas enfrentam o exército americano nas ruas da cidade, foi inserida TOTALMENTE em RANGERS. Existem várias outras cenas roubadas, é impressionante. Mas o melhor de tudo ainda está por vir.

O duelo final entre Broughten e Shannon é inevitável. Numa fuga alucinante, Shannon pega o primeiro ônibus estacionado que encontra e foge dirigindo. Broughten para um outro ônibus, tira o motorista de dentro e inicia a perseguição pela cidade movimentada. Aposto que os mais nostálgicos e fissurados por cinema de ação já sacaram. Que filme acontece uma perseguição de ônibus no meio do trânsito entre o vilão e o mocinho no final? Acertou quem disse INFERNO VERMELHO, de Walter Hill, estrelado pelo Schwarzenegger. E vocês acham que o malandríssimo Wynorski iria filmar uma sequência como essa? É óbvio que não! E tome mais enxertos na cara dura!

Só mesmo num filme B de ação colocariam um sujeito com essa cara de bunda-mole para ser o herói!

Para completar a diversão, não deixem de reparar os furos de roteiro, cortesia do fiel colaborador de Wynorski, Steve Latshaw, diálogos impagáveis, a sombra da câmera aparecendo diversas vezes dentro do quadro, as expressões faciais do protagonista Matt McCoy, disputando com Dartanyan Edmonds, Glenn Plummer ou Rene Rivera quem tem a atuação mais ridícula. Alguém consegue me explicar como um sujeito sendo perseguido de carro consegue acertar um tiro no vidro de trás do outro carro que está na sua cola sem acertar o vidro da frente? Nas cabeças desse picaretas tudo é possível.

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