REVIEW: THE BIG RACKET (1976)

article-1091379-0026EF9E00000258-619_468x625Na autobiografia do grupo Monty Python, John Cleese relata uma conversa a respeito de um dos episódios da série Flying Circus. Um amigo disse que havia gostado muito do programa mas que ficou preocupado com a esquete do Ministry of Silly Walks, mais precisamente a respeito de como os pais que tem filhos com problemas motores iriam reagir àquela piada. John diz que ficou surpreso, mas não conta o que respondeu ao homem. Provavelmente não ligou para a reação exagerada do homem. Não há nada na esquete que possa sugerir algum tipo de deficiência. Mas mesmo assim aquele homem ficou incomodado com alguém andando de um jeito absurdamente exagerado. Isso porque estamos falando de um programa de comédia inglês. E o que dizer de um exploitation? Como distinguir qual é o momento em que se deve impor limites para que o filme não se banalize (às vezes essa até é a intenção) e quando é necessário que o publico fique realmente chocado para que a história carregue algum valor emocional mais forte?

O que Alex Marlow-Mann diz em seu artigo a respeito dos poliziotteschi é que, por mais que filmes tratassem de problemas comuns da Itália no período a respeito da criminalidade, seu propósito era o entretenimento e com moral ingênua ou contraditória em sua resolução – o final de THE BIG RACKET é pessimista e não triunfante. A crítica colocava nesses filmes uma visão muito simplista à respeito de como um espectador comum os veria, como se assimilassem tudo sem um filtro, que aquilo seria manipulação reacionária e fascista. Mas os personagens tem ações que muitas vezes podem contradizer o texto geral do filme. Alex os chama de “textos incoerentes”. Filmes como os de George A. Romero, Larry Cohen e Martin Scorsese, que mostram personagens em contextos de ambiguidade. Eu sei que existem muitos motivos políticos e morais quando se debate sexo e violência em algum filme, mas não é exatamente sobre isso que eu estava pensando quando assisti THE BIG RACKET, de Enzo G. Castellari. Acho que mais do que pensar sobre como o problema da criminalidade deve ser tratada ou suas causas, você deve se importar com os personagens e se envolver com a história.

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O filme de Castellari veio na esteira do sucesso de DESEJO DE MATAR (e levou Vincent Gardenia para Itália), um filme que ganhou a fama (principalmente pelas sequências) de propagandear que bandido bom é bandido morto. Então os vilões de THE BIG RACKET são os seres mais vis e doentios possíveis, com um plano de assustar os comerciantes da região para que paguem por proteção. Tudo o que fazem é para deixar o espectador sedento por vingança e entrar em êxtase quando os bandidos forem moídos a balas pelos (anti) heróis. Existia uma escalada de violência nos filmes italianos que competiam atenção com os americanos e com produções conterrâneas filmadas a rodo num curto período. Mas o que eu estava tentando puxar com toda essa introdução sobre a violência é que alguns filmes se propõem a passar dos limites daquilo que seria necessário dentro do contexto do filme para apenas criar polêmica e se vender. Isso me incomoda um pouco. Acho difícil defender o gênero (ou alguns exemplares do horror e do giallo) quando acusado de machista…

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THE BIG RACKET nem é um filme tão violento assim. Mas é que teria aproveitado muito mais se ele não passasse tanto tempo com os bandidos, mostrando sua rotina de extorsão e demência. Essa superexposição dos meliantes cansa quando a gente não tem personagens bem desenvolvidos, com mais de uma dimensão. Faltou um vilão de peso (que seria o Joshua Sinclair, mas ele não convence). Ninguém liga para os capangas. Lembra aquela piada no filme do Austin Powers em que um dos homens que trabalham para o Dr. Evil é morto pelo agente secreto e sua família recebe uma ligação sobre o “acidente de trabalho”? Ou aquela conversa sobre a segunda Estrela da Morte ter explodido com centenas de trabalhadores honestos em o CLERKS?  Se o vilão do filme é bem desenvolvido todos que trabalham para ele somente são obstáculos para quem  tenta prendê-lo. Marlow-Mann chama atenção para o discurso de um dos chefões no final do filme: “As pessoas logo vão aprender que não terão como se defender sobre contra o terror que vamos causar” e completa, “políticos adoram o caos; ele dá a eles maior controle sobre seus governados“. É o tipo de fala que deveria aparecer no começo, mas Castellari quis manter a identidade deste criminoso um “mistério” até o final do filme…

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Em THE BIG RACKETFabio Testi interpreta o policial Nico, que está no encalço de uma quadrilha que extorque vários comerciantes, todos com medo de ir a julgamento e denunciar os bandidos. Ele tenta de várias maneiras deixar os criminosos na cadeia mas sempre há uma brecha que acaba fazendo com que eles não cumpram a pena. Todos que se envolvem e ajudam Nico perdem alguém nas mãos da quadrilha infernal. O dono de um restaurante, um atirador olímpico, um informante… No fim Nico pede que todos eles façam um último sacrifício, algo pessoal, já que o policial agora foi demitido. Vários chefes do crime vão se reunir numa fábrica e Nico quer matar a todos com a ajuda destas três vítimas, mais o dono de uma boate atropelado pela gangue e um assassino profissional que receberia sua liberdade em troca de participar da tocaia. Esse é o momento mais interessante e divertido do filme. Todos esses personagens que não tem nada a perder, cada um com sua vingança pessoal, numa mesma missão suicida. Castellari esboça alguns conflitos como Giulti, o dono do restaurante, já totalmente transtornado depois da morte da filha, ameaçando Dorgingo, o assassino, por ele ter participado da máfia.

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Mas esse já é o terceiro ato do filme e não há tempo para desenvolver os personagens e jogar com dilemas ao enfrentar esse tipo de situação. Ninguém vai trazer a pessoa amada dos mortos. Logo todos já estão no meio do tiroteio que fecha o filme. Nico acaba o filme desesperado e consumido pela raiva. Uma das coisas que Alex Marlow-Mann aponta em seu texto é a chamada “estratégia da tensão”, em que os membros de uma direita mais extrema acreditavam que praticar o terrorismo e o culto ao medo na população favoreceria  um regime opressivo. Reduzir o filme a uma estratégia dessas é um erro na opinião de Alex porque ele não fecha com uma resposta satisfatória. Castellari já havia feito um filme que abordava toda a trajetória que leva um homem à descida ao inferno que é a vingança de um modo muito satisfatório em  STREET LAW, produzido quase que concomitante com DESEJO DE MATAR. É um filme mais coerente que THE BIG RACKET quando tenta analisar os motivos que levam alguém para o outro lado da lei. Seja o vigilante interpretado por Franco Nero, seja o ladrão de carros Tommy, com quem o protagonista cria uma forte amizade.

THE BIG RACKET é um filme de ação. Seria mais interessante talvez se Castellari apresentasse o esquadrão lá pelo meio do filme. Outra coisa que senti falta foram os squibs em todos os bandidos que são alvejados. Alguns dos atores e dublês se chacoalham sem que nenhuma gota de sangue saia de seus peitos quando são “alvejados”, o que deixa o filme datado. Em compensação cada membro da gangue principal toma um tiro sangrento em cada membro do seu corpo em câmera lenta, cortesia do atirador olímpico interpretado pelo Orso Maria Guerrini e alegria geral da nação.

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Mas vou ser justo com Castellari. O filme é melhor do que a propaganda negativa que eu posso estar fazendo. Seu uso de câmera lenta e o modo como filma a ação o coloca ao lado dos grandes como Sam Packinpah na década anterior e John Woo na seguinte. A cena em que capotam o carro de Nico é sensacional! Gosto do fato que o começo investe em cenas de pancadaria, mesmo que os atores não saibam lutar muito bem e depois nos presenteia com dois grandes tiroteios. Castellari sempre escolhia bem as locações para essas cenas que sempre funcionam a favor da ação. O diretor sempre utiliza elementos dos cenários, como na excelente dupla emboscada no meio do filme com bandidos pulando por cima dos vagões de trens ou abrindo suas portas para sair metralhando. A trilha sonora em poliziotteschi é sempre um prato cheio e neste aqui não é diferente com a presença dos irmãos Guido e Maurizio de Angelis que fizeram várias trilhas para filmes do Castellari.

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Pontos Fortes:

  • Todo o clima de policiais durões e filmes de vingança que só o cinema dos 70 pode oferecer.
  • É um antecessor do tipo de ação que a década seguinte nos brindaria: o parceiro que morre, tiroteios bem elaborados, donos de boates cheirando cocaína, ocidentais fingindo que sabem lutar…

Pontos Fracos: 

  • O ritmo do filme se perde quando o personagem Pepe aparece e temos que acompanhar todo seu arco.
  • Um certo sadismo e misoginia nas cenas mais pesadas.
  • A falta de squibs! Deveriam ser prioridade no orçamento de qualquer filme…

Uma conclusão: De novo os italianos te surpreendem nos 45 do segundo tempo. A ideia do esquadrão vigilante dá um sabor especial ao filme.

Bônus: Críticas do filme no Filmes para Doidos e no Dementia¹³. E o texto de Devin Faraci sobre DESEJO DE MATAR que me ajudou a pensar um pouco sobre o que escrevi.

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