REVIEW: FREE FIRE (2016)

Um admirador deve reconhecer quando seu artista preferido comete um deslize. Não que Ben Weathley seja um exemplo disso, mas tenho gostado bastante do seu trabalho, principalmente KILL LIST (11) e SIGHTSEERS (12). A FIELD IN ENGLAND (13) e HIGH RISE (15) possuem resultados mais discretos, mas não menos interessantes. Este último deu a Wheatley seu maior orçamento, embora essa adaptação de J.G. Ballard, a partir de uma obra de 1975, com suas premonições sobre Margaret Thatcher e temas e ideias já vistos em tantas coisas subsequentes, parecia, em 2015, um pouco atrasado e servia mais como um exercício estético e de fetichismo retrô dos anos 70. FREE FIRE, o último trabalho de Weathley, vai mais ou menos por esse caminho, mas sem muita substância, é apenas um filme de ação que sofre da síndrome de ser um “exercício de gênero”.

FREE FIRE também se passa na década de 70, quando Chris (Cillian Murphy) e Frank (Michael Smiley), membros do IRA, chegam numa negociação para comprar armas com a ajuda dos pequenos criminosos locais Justine (Brie Larson), Bernie (Enzo Cilenti) E o sobrinho doidão de Frank, Stevo (Sam Riley). Eles são todos recebidos ao lado de fora de uma fábrica abandonada por Ord (Armie Hammer), que organizou o encontro com o traficante de armas sul africano Vernon (Sharlto Copley) e seus associados Martin (Babou Ceesay), Gordon (Noah Taylor) e Harry (Jack Reynor).

Stevo se apresenta todo machucado por conta de uma briga que teve na noite anterior depois de quebrar uma garrafa na cabeça de uma mulher e ser espancado pelo primo dela. No local, o sujeito reconhece Harry como esse primo e tenta se esconder e manter distância das negociações, que já não está das melhores por conta de Vernon, que não trouxe as armas exatas que lhe foram encomendadas e tenta empurrar um outro modelo para os compradores. As tensões aumentam, sempre com um ou outro tentando aliviar as coisas… Mas o inevitável acontece e tudo explode quando Harry finalmente reconhece Stevo. Empurra-empurra daqui, turma do deixa disso pra lá, mas no fim das contas, Harry pega uma arma e atira em Stevo. O estopim para desencadear um tiroteio que estrutura todo o restante do filme.

FREE FIRE se resume nisso, num longo tiroteio num mesmo ambiente. O que é divertido durante algum tempo. Mas é também onde mora o perigo. Em alguns momentos me peguei bocejando. Mesmo com os tiros comendo solto.

De vez em quando Wheatley consegue sair do piloto automático e temos lampejos criativos – na sequência que envolve Sharlto Copley e um pequeno incêndio, ou a cena em que um furgão passa sobre a cabeça de um sujeito espirrando cérebro pra todos os lados ao som de John Denver no toca-fitas… Um dos usos mais bizarro de música acompanhada de violência que já vi, mais até mais que “Ordinary World“, do Duran Duran, na cena do espancamento em LAYER CAKE (04), de Matthew Vaugh. Sim, ajuda bastante a trilha sonora, com alguns clássicos setentistas que se encaixam muito bem à algumas ceninhas que pagam de cool. Mas em outros instantes o filme não consegue sair de um lenga-lenga repetitivo, sem muita criatividade, com os personagens apenas se arrastando e gritando irritantes desaforos.

Pois é, FREE FIRE talvez não tenha substância o suficiente para se sustentar, mas até que consegue divertir o espectador que só quer ver mesmo alguns tiros deflagrados na tela, especialmente com elenco cheio de figuras famosinhas e character actors do cinema britânico atual que conseguiram reunir. Então não posso chamá-lo realmente de deslize. O filme tem alguns méritos, apenas espero mais que um “estudo de gênero” vindo de um diretor do calibre do Weathley. Muita gente, no entanto, comprou a ideia de FREE FIRE com boa vontade. Nos créditos, por exemplo, temos como produtor executivo um tal de Martin Scorsese…

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1 Comentário

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  • Boa tarde. Caro amigo, POUR HAZARD, você já assistiu SOB FOGO CERRADO ( Under fire, 1983), com Hackman e Nick Nolte? Se não, ASSISTA E DEPOIS ME AGRADEÇA. É OBRIGATÓRIO E BASEADO EM HISTÓRIA REAL ( depois veja nas trivias do IMDB – e na seção de spoilers – o que aconteceu aos involvidos). É daqueles filmes acerca dos quais você vai querer escrever e guardar pra sempre na memória. Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.