REVIEW: JCVD (2008)

Dor é a palavra que melhor resume JCVD. Desde UM FILME PARA NICK, autobiografia de Nicholas Ray que mostra o gênio agonizando em seus últimos dias de vida, nunca uma obra se mostrou tão direta e cortante em expor sem floreios os dramas sofridos por um mito normalmente associado à força. Não há um só momento aqui em que as fraturas emocionais e físicas de Jean-Claude Van Damme sejam superadas com simples clichês como “força de vontade e determinação”. O abismo em que se afundou é profundo demais para que sua ultrapassagem advenha de ideias cinematográficas. Pelo contrário. Na medida em que o filme transcorre, o ator se enreda em situações cada vez mais insuportáveis e de resoluções cada vez menos prováveis.

A primeira sequência de JCVD é um quase elogio ao Van Damme herói, derrubando poderosos inimigos com as próprias mãos e pernas no meio de uma guerra. “Quase” porque na verdade trata-se de um set de filmagem de uma dessas produções baratas e genéricas que cobrem seu custo em nichos específicos (o mercado asiático é sempre um dos grandes focos). Tudo sendo filmado em uma única tomada para diminuição de gastos. Van Damme interpela o jovem diretor (um moleque completamente desatento que está brincando de dardos no momento da cena): “Não dá para fazer tudo em uma única tomada, tenho 47 anos, não posso ao menos usar algumas armas?”. Ao que o jovem responde: “Claro que não! Armas vão tirar a pureza do personagem!”. O olhar de desânimo do astro ao ouvir tais palavras, um nítido embuste travestido de “autoralidade”, dá a perfeita tônica de desequilíbrio entre imagem e vida privada que perpassará toda a narrativa, um exercício metalinguístico cruzado com um lado ficcional que servirá mais como uma metáfora para as mazelas sofridas por Van Damme do que de exaltação para sua imagem de herói de ação.

A sequência seguinte reverbera a anterior não só por estabelecer o mesmo jogo de forças opostas – vida real e cinema – mas também por desvelar a hipocrisia contida na fala daqueles que zombam dos filmes de pancadaria, vangloriando-se de conseguir enxergar falhas historiográficas ou maniqueísmos políticos em suas narrativas. Dois rapazes assistem a COMANDO DELTA” em uma vídeo-locadora na Bélgica, para onde Van Damme volta depois de longa estada nos EUA. Criticam todos os equívocos listados com a arrogância do intelectual evasivo. Listam Stallone, Norris, Arnold e etc. como símbolos de uma Hollywood preconceituosa e burra. Até que avistam Van Damme atravessando a rua nesse exato momento. Os dois correm para fora da locadora e bradam como o mais histérico fã ao encontrar seu ídolo. Essa sequência dialoga com a primeira por mostrar o anverso dessa moeda chamada cinema, por concentrar seu foco agora não na hipocrisia com que os diretores geram suas obras, mas na dissimulação advinda também de um perfil de público que as vilipendia. Van Damme os trata com educação, a despeito dos entulhos que o remoem internamente, enquanto os dois mancebos pulam como crianças em loja de doces.

Idas e vindas temporais elucidam de forma semidocumental o drama do ator nos tribunais tentando reaver a guarda da filha, tendo que ouvir do advogado da mãe impropérios como “qualquer pai com bom senso não permitiria que seu filho assistisse a filmes como o que esse sujeito faz”. As acusações atingem o rosto do astro como verdadeiras chibatadas, e seu olhar retraído e amargurado parece carregar o peso de todos os erros do mundo. “Eram feitos com coração!”, ele momentaneamente grita, retirando um último resíduo de força de sua escuridão, quase num pedido de desculpas por ter feito aqueles filmes. Interessante observar que a fala do advogado representa a mentalidade do mundo moderno, inquisitorial e politicamente correto, que vê em Van Damme um artigo obsoleto e digno de escárnio. O grande estopim dessa dolorosa cena está no momento em que a própria menina declara não querer ficar com ele pelo fato de seus colegas de escola caçoar dela. Nesse momento Van Damme se cala e todas as suas forças se esvaem.

A espiral descendente do ator parece não ter fim quando ele, ao entrar numa agência dos correios para retirar o valor da pensão de sua família (algo em torno de meio milhão de dólares), acaba se tornando uma das vítimas de um assalto que já estava em andamento. O elemento ficcional a partir desse momento se torna preponderante, mas ainda assim as metáforas contidas nele dizem muito mais respeito à maneira como a realidade se dissocia da ficção (em momento algum Van Damme reage) do que ao viés de uma narrativa policial. Aqui a máxima do “não há nada tão ruim que não possa ficar pior” cabe como uma luva. E para piorar ainda mais a situação, os criminosos utilizam o ator como bode expiatório para a polícia, que acredita ser ele o líder da quadrilha.

Mas a cena que perdurará como o exemplo mais ilustrativo de um talento nunca bem aproveitado se encontra no já icônico monólogo que Van Damme faz diante da câmera, confrontando diretamente o espectador a encarar o que talvez seja o mais pungente exercício de catarse metabiográfica já realizado no cinema. A linha tênue que separa a ficção da realidade aqui se liquefaz, entrelaçando atuação e desabafo, tal a veracidade transmitida em suas palavras. Tanto uma opção quanto outra são dignas de nota, pois caso Van Damme esteja interpretando, se revela um ator de absurdo alcance minimalista, pau a pau com Stallone, dado o contingente de nuances que atinge sem nunca resvalar no fácil maniqueísmo da autoindulgência; e caso sua dolorosa expressão seja “simples” remissão do reservatório interno de fraturas acumuladas, que vomita sem piedade na cara do espectador despreparado para encontrar tanta vulnerabilidade num astro associado à potência, esse fator só realça a octanagem dramática da cena, pois remove o alento de, no final das contas, tudo não passar de ficção. O pendor realista aqui fala muito mais alto. Não há uma nesga de esperança no desabafo do homem que observa o passado como alguém que não tem orgulho nenhum dos caminhos pelos quais optara, sempre movido pelo desejo de ascese na famigerada indústria de cinema. As renúncias que fizera, seu contato com as drogas, o ingênuo contraste que estabelece entre os códigos do lutador oriental e o sórdido desapreço de Hollywood, o sentimento insuportável de culpa por ter dado mais valor à “máquina” – que hoje o regurgita – do que à sua própria família, todos esses momentos são enfileirados de forma arrebatadora, ao custo de muitas lágrimas reprimidas. Por vezes, o sorriso que esboça é muito mais proveniente de uma cruel constatação do quão tolo e errático pôde ter sido, do que de apreço por um tempo de inocência. “Eu não fiz absolutamente nada de bom nessa vida, fiz tudo errado!”, ele diz, encarando o espectador como quem tenta desesperadamente se libertar de seus demônios. No entanto, em vão.

Os desdobramentos narrativos de JCVD prosseguem sempre no espaço bifurcado entre a perspectiva do mito e seu desnudamento, tendo a subtrama do sequestro como mera plataforma para que essas questões sejam postas. Uma piadinha aqui, outra acolá (como a sutil rivalidade entre Van Damme e Steven Seagal, por vezes abordada) não obliteram o mal estar de ver um ídolo de outrora posto completamente à margem de qualquer sistema, seja ele familiar ou artístico. A imagem final, uma espécie de happy ending às avessas, acaba servindo ao mesmo tempo de ironia e epitáfio para sua carreira. Porque, ao ensinar artes marciais para os outros presidiários, que o obedecem com reverência, o astro reencontra um tipo de respeito que o mundo externo não mais o devota. Os homens que ali se mostram atentos às suas orientações, a despeito de serem criminosos, simbolizam um paradigma de Homem que a civilização moderna não mais admite. O homem que um dia assistiu a KICKBOXER, LEÃO BRANCO, DUPLO IMPACTO, etc. só pode existir no perímetro circunscrito de uma prisão. Van Damme enfim encontra o respeito. Um círculo ali se fecha.

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