REVIEW: OUTLAND (1981)

Maior dos astros do cinema de gênero a lograr com êxito a posição de ícone pop a ator laureado, Sean Connery tinha de tudo para permanecer à sombra do personagem que o consagrou na década de 60. Já nos anos 70, principalmente a partir de sua dobradinha com o gênio Sidney Lumet (que se iniciara em A COLINA DOS HOMENS PERDIDOS, de 62, obra que já antecipava a versatilidade de Sean ao compor personagens sem traços de James Bond – diferentemente de Roger Moore, Pierce Brosnan e Daniel Craig, que, fora da franquia, pouco destila(ra)m de originalidade em suas composições), Connery buscou trafegar por papéis e gêneros que o dissociassem completamente da aura de herói das telas forjada na década anterior.

Cabe observar que o ator, ainda que prestigiado pela crítica séria, hoje tem sua credibilidade arrefecida por aqueles que reduzem às crias do Actors Studio (Brando, Hoffman, DeNiro, Pacino, etc.) o panteão dos maiores artesãos do século XX. Um ledo engano, visto que Sean, a despeito de não pertencer a essa panelinha, consegue ao mesmo tempo transitar em zonas interpretativas mais classudas – seja no hitchcockiano MARNIE – CONFISSÕES DE UMA LADRA, no western convencional SHALAKO ou no drama de ação VER-TE-EI NO INFERNO – quanto forjar maneirismos naturalistas típicos dos filhos de Stella Adler em filmes como ATÉ OS DEUSES ERRAM (um tratado minucioso sobre a psique reprimida e culpada do macho alfa) ou a obra-prima esquecida A TENDA VERMELHA, de Mikhail Kalatozov (de 69, em que Sean interpreta um já idoso explorador – aliás, o ator nunca se esquivou de transparecer sua precoce aparência madura, independente do posto de símbolo sexual que lograra). Obviamente, para os que o defenestram, seu sorriso irônico e galanteador, sempre de arma e pênis em punho, é sua marca irremovível.

No entanto, no final dos anos 70 e começo dos 80, o ator parecia atravancado ou em filmes menores (CUBA, METEORO) ou em obras deliciosamente frívolas (O PRIMEIRO ASSALTO DE TREM, BANDIDOS DO TEMPO – este, de Terry Gilliam) que em nada agregavam àquele recomeço auspicioso (em que trabalhara com, além de Lumet, John Huston, John Boorman, os Richards C. Sarafian, Fleisher, Attenborough, etc.). Sua carreira só viria a ser redescoberta por sua participação em HIGHLANDER, de 84, e principalmente, pelo Oscar conquistado por seu inesquecível Malone em OS INTOCÁVEIS. Mas em 1981, o cenário era outro. Nesse período de transição, meio que fora de foco, Sean preferiu reeditar sua verve heroica tanto em OUTLAND – COMANDO TITÂNIO, do subestimado Peter Hyams, como em um até então impensável retorno à franquia 007, o delicioso (se visto em retrospecto) NUNCA MAIS OUTRA VEZ, de 83, o primeiro Bond a lidar com questões relacionadas à sua idade avançada (Sean tinha 53 na época).

OUTLAND aproveita o caminho aberto por STAR WARS na seara da ficção futurista para aglutinar em sua narrativa modelos de cinema que remetem ao passado (MATAR OU MORRER, de Fred Zinnemann, de 54, é a obra que vem logo à mente). Na trama, o delegado William O’Neill (Connery) é o único responsável pela segurança de um complexo de mineração lunar com 2000 funcionários. Seu diretor é Mark Sheppard (Peter Boyle), cujo maior interesse é a produtividade do local. Subitamente os trabalhadores começam a cometer suicídio ou enlouquecer, e O’Neill descobre que Sheppard é o responsável pelo tráfico de “estimulantes” que os funcionários consomem e os levam à morte.

Diante do inevitável atrito entre O’Neill e Sheppard, o herói se reveste de toda sua autoridade para intimidar seu antagonista. No entanto, o drama de O’Neill ultrapassa os limites meramente investigativos, pois, depois de ser abandonado por esposa e filho pelo fato de não conseguir conciliar seu trabalho com uma vida em família na Terra, e constatar que seu trabalho naquela plataforma é uma maneira de “exilá-lo” dos locais em que arranjou problemas, o herói, consciente tanto da sombra indelével do fracasso quanto de sua impotência, trava um confronto consigo mesmo na busca de algo que justifique tudo que foi sacrificado por sua culpa.

O embate com Sheppard torna-se, pois, muito mais um ajuste de contas com os próprios fantasmas de O’Neill, atolados na redoma semiótica e anacrônica do herói clássico (do qual Connery fora seu representante-mor), que no mundo real busca um lampejo de ar que lhe dê uma sobrevida. A cena em que O’Neill, depois de uma solitária disputa de tênis consigo mesmo, dialoga com a médica da plataforma (que possui um pano de fundo tão frustrado quanto o do herói, dada a noção de que os profissionais que ali se encontram não passam de “restos” terrestres reaproveitados) explicita brilhantemente a curva em que O’Neill se encontra, pois, mesmo consciente de que, a priori, não deveria passar de mais um entulho burocrático e anódino – tal qual a médica – persiste na manutenção de sua epistemologia bondiana de cumpridor de deveres custe o que custar. Nesse instante, a imponência de Connery se liquefaz em oscilações ora desesperadamente sustentadoras de sua verve, ora decaídas pelo peso do real inexorável. Aqui sua atuação absolutamente genial, realçada pelo close estático em seu rosto combalido, equilibra perfeitamente o embate entre a iconicidade do herói clássico, macho, unidimensional, e os maneirismos à moda Actors, alguém cuja sensorialidade corporal traduz em gestos fragmentados e aleatórios a mente corroída pelo peso da realidade em choque com sua mítica. Uma disputa de escolas em poucos minutos. Brando e Gable se esmurrando. Poucos momentos na história do cinema são tão genialmente atritosos como esse.

Vale observar que o ator forjou suas marcas mais notórias através da imponência (até então Sean era o Bond que passava mais credibilidade nas sequências de perigo), o que torna a narrativa de OUTLAND quase um exercício metalinguístico de desmitificação de sua persona. A tonalidade recrudescida de Sean, realçando excessivamente sua masculinidade (como nos embates cara a cara com Boyle), pode ser equivocadamente compreendida como canastrice. Mas não. Suas marcações buscam, na verdade, afirmar sua tônica viril como se esta precisasse ser mantida (como o ícone que precisa voltar à tona), a despeito das circunstâncias reais – o poder maior de Sheppard.
Obviamente, os anos 80 não seriam tão ingênuos ao resgatar uma ideia para simplesmente mantê-la, sem perfurá-la de alguma forma. Essa rachadura ocorre exatamente no “fuck off” dado por O’Neill ao final da missão, como quem remove completamente seus ideais míticos em prol da assunção do real – O’Neill está cansado e ensanguentado, o que Bond nunca estaria; e opta por estar ao lado da família. Dane-se a plataforma, seu sistema, Sheppard, tudo. Esse instante de ruptura desestabiliza a concepção romântica sobre a qual todo o leque de heróis do faroeste clássico regatados na figura de O’Neill buscou trafegar melifluamente, chancelados pelo inverossímil. Pode-se dizer que a missão como um todo nada mais foi do que uma espécie de parto, de transição para o modus operandi dos anos 80, muito mais interessado na evocação cruzada do que na mimese literal.

A direção musculosa de Hyams é um dado que precisa ser mencionado. O diretor, responsável por algumas gemas futuristas deliciosamente B, como “2010 – O ANO EM QUE FAREMOS CONTATO” e “TIMECOP” (com Jean Claude Van Damme, com quem fez mais dois filmes) aqui mostra domínio absoluto de câmera tanto na sequências que envolvem o escrutínio do drama de O’Neill quanto nas de ação – a perseguição frenética na plataforma no meio do filme é enxuta e fantástica. Hyams, hoje injustamente relegado a projetos inexpressivos, merece uma revisão que faça jus ao seu histórico. E que OUTLAND seja o primeiro a ser redescoberto.

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2 Comentários

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  • Filmaço que assisti muitas vezes na televisão e hoje em dia ele nem passa mas na TV Aberta o que é uma pena hoje em dia nossa emissora desprezam classicos com esse e colocam em sua programação esses filme idiotas de Marvel & DC estragam o que realmente é cinema para um bom apreciador de filmes e se não basta-se as nossa emissora o que dizer de nossa distribuidoras no mercado de video que são mais covarde do que o presidente ilegitimo que não quer largar o osso do poder ,esse filme foi lançado em DVD sem á dublagem classica e por fim ate hoje ele não foi lançado em Blu-ray e tal nem seja se depender do país que nos vivemos ,Otimo texto sobre esse no qual eu gosto muito.