REVIEW: A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016)

O sonho americano já não é mais o mesmo. Desde a segunda grande crise econômica, em 2008, que muita gente vem cortando um dobrado pra sobreviver por aquelas bandas. O devagar crescimento pós-crise vivido pelas metrópoles simplesmente não chegou às cidades do interior, que viram fábricas, comércios e carvoarias serem fechadas. Nenhuma alternativa apareceu para melhorar a situação de seus habitantes.

Em A QUALQUER CUSTO (Hell or High Water, 2016) logo na cena inicial, quando vemos a funcionária de um banco chegando para abrir o estabelecimento, temos uma pichação na parede onde se lê: “três turnos no Iraque, mas nenhum empréstimo para pessoas como nós”. O dramaturgo Bertold Brecht teria questionado “O que é roubar um banco comparado a fundar um?” e é nisso que os irmãos Tanner (Ben Foster) e Toby Howard (Chris Pine) parecem acreditar. Assim que a mulher bota a chave no portão do banco, eles a surpreendem mascarados e entram. Este será o primeiro de uma série de assaltos a bancos que os dois irão cometer ao longo da trama. O primeiro, aliás, daquela manhã.  Os crimes chamarão a atenção do veterano Ranger Marcus Hamilton (Jeff Bridges), que está próximo de se aposentar, mas irá correr o Texas atrás dos dois “bandoleiros” para impedir que novos crimes sejam cometidos.

Dirigido por David Mackenzie (ENCARCERADO) com base no roteiro de Taylor Sheridan (do aclamado SICARIO: TERRA DE NINGUÉM), A QUALQUER CUSTO pode ser definido como um western contemporâneo: os irmãos Howard são os novos ladrões de bancos e trens e os tiras vividos por Bridges e seu parceiro Alberto Parker (Gil Birmigham) são os velhos homens da lei. Em vez de montarem cavalos agora dirigem um belo Ram que contrasta com a paisagem não mais por ser deserta, mas por ser pobre. Os irmãos são sujos, suas motivações dúbias, um perigo pra sociedade real e inegável. Mas são estes também vítimas das mesmas instituições que controlam esta sociedade: eles precisam de dinheiro para pagar o rancho que era de sua falecida mãe ou este será tomado por um banco,… bancos estes, aliás, que botaram boa parte do país naquela situação.

Esse ethos de arregaçar as mangas e fazer o que é preciso fazer, não importa o que aconteça (a expressão “hell or high water” que batiza o filme significa exatamente isso) representa tanto os dois bandidos quanto o veterano policial. Ambos representam, aliás, dois lados de uma mesma moeda que está em ruínas.  Ao mesmo tempo em que é condenável o que fazem, há violência em suas ações, não dá pra negar a indiferença das instituições ante ao caos que a sociedade vive. Fica-se a sensação de que há punição, mas não justiça em capturar indivíduos que fogem da linha como eles o fazem.

O elenco é incrível. A química entre Pine e Foster – facilmente um dos atores mais subestimados de sua geração – é genuína. É muito interessante observar cada um desses dois homens interagirem entre si seja no meio da ação ou nos momentos de calmaria. Cabe dizer, também, que Jeff Bridges e seu Marcus Hamilton deveriam entrar para o panteão de grandes figuras sulistas do cinema badass: reacionário, astuto, incansável e atormentado. Tudo ao mesmo tempo. Bridges empresta humanidade a um sujeito que poderia facilmente cair numa caricatura nas mãos de um ator menos capaz.

É um filme de cinematografia elegante, roteiro espetacular, personagens fortes, excelente ritmo. Vários momentos do filme são bastante definidores. Da abertura, quando vemos os irmãos em seu primeiro crime, antecedendo a primeira cena deles no rancho da falecida mãe, ou seja, é na ação que eles são introduzidos ao espectador, e não em um tradicional diálogo. Outro momento é quando no cassino, após Tanner ganhar numa mesa de pôquer um descendente de Comanches o ameaça. “Você sabe o que quer dizer ‘Comanche’? Significa ‘Inimigo de todos’”. Nisto o bandoleiro retruca. “Isso faz de mim um Comanche”.

Um crime que o filme tenha sido vendido como uma espécie de “continuação” de ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ. Praticamente ignorado no Oscar, A QUALQUER CUSTO é daqueles filmes que, se realizado nos anos 70, seria certamente um blockbuster protagonizado pelos principais machões da época. É fácil imaginar McQueen, Oates, Marvin, Bronson, Eastwood, Hackman, dentre outros encarnando alguns destes personagens fantásticos. Um filme que, provavelmente, irá ganhar mais e mais admiradores ao longo do tempo.

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