ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO (Robocop, 1987) | REVIEW

Uma grande metrópole está na bancarrota. Tudo pode ser privatizado, inclusive a segurança pública. Policiais morrem todos os dias, os chamados “cidadãos de bem” estão cada vez mais inseguros e a criminalidade só aumenta. As corporações tomam conta de tudo, não há absolutamente nada que não seja considerado um produto à venda. A violência é alta, a miséria idem e as únicas soluções que parecem interessar aos homens no poder envolvem o quanto de dinheiro podem conseguir com isso. Não, não é o Rio de Janeiro, Brasil, em 2017. Estamos falando de Detroit, Michigan em um “futuro não muito distante” do filme ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO (Robocop, 1987) escrito por Ed Neumeier e Michael Miner e dirigido por Paul Verhoeven.

Na trama, o policial Alex Murphy (Peter Weller) é dado oficialmente como morto após ser trucidado por uma cruel gangue, liderada pelo sórdido Clarence Boddicker (Kurtwood Smith, magistral). O seu corpo e mente são escolhidos para serem usados no protótipo de um novo tipo de policial: Robocop. Metade homem, metade máquina, este novo tipo de “homem” da lei, financiado (e patenteado) pela OCP – a corporação que domina basicamente toda a Detroit, dos meios de comunicação até a comida que vai aos lares – é uma ferramenta do sistema. O Robocop supostamente não possui memória, personalidade ou vontade, que responde a três diretrizes básicas: servir ao interesse público, proteger os inocentes e manter a lei. Mas claro, a OCP não é feita de homens benevolentes e honestos e o cérebro humano, esta “máquina” misteriosa, é capaz de armazenar muito mais do que pode julgar um bando de acionistas interesseiros.

ROBOCOP foi um dos grandes ícones dos anos 80. Para além de um universo insuportavelmente crível, que cada vez mais vem ganhando forma nos dias atuais, ficou marcado pela sua violência e sujeira. Num período em que o cinema de ação era visualmente mais agressivo e sangrento, Verhoeven e sua equipe conseguiram elevar o nível para outro patamar. Tanto que o corte original, de 102 minutos, foi limado para meros 78 para ser exibido nas TVs. A execução de Murphy pela gangue de Boddicker – que conta também com Ray Wise interpretando um de seus membros – é facilmente uma das cenas mais chocantes do cinema americano daquela década.

Mas para além de um Action Sci-Fi  sórdido e movimentado, com excelentes cenas de ação misturadas a cavalares doses de humor negro, o filme ainda consegue lidar com uma questão presente na literatura clássica do gênero: o que nos faz humanos? Alex Murphy, antes de sofrer seu cruel destino, está tomando um café com sua parceira Lewis (Nancy Allen), quando esta o vê por repetidas vezes a girar sua arma e guardá-la no coldre. Ele diz que o faz porque seu filho é fã de TJ Lazer, um herói de ficção presente no universo da trama, e o menino acredita que todo bom herói é capaz de fazê-lo. Momentos depois, já devidamente transformado numa máquina, em sua primeira exibição no stand de tiros da polícia, Lewis observa como o cyborg faz o mesmíssimo movimento de seu ex-parceiro antes de guardar sua arma. É neste momento que ela o identifica.

Murphy ainda é apenas o Robocop, sem memória, apenas uma máquina a serviço de seus inventores. Mas fica claro que ele ainda guarda esse fragmento de passado em seus circuitos. O desenrolar da trama, quando sua memória cibernética começa a se fundir com a orgânica e ele começa, pouco a pouco, a rememorar seu passado e a entender o que aconteceu consigo, o faz partir para uma busca pessoal por justiça contra aqueles que o colocaram naquele estado e o tiraram de sua vida pacata e feliz.

Essa busca o levará a descobrir que Boddicker e seus asseclas não são meros bandidos de rua, mas também homens a serviço de Dick Jones (um asqueroso Ronny Cox). Jones, um dos grandes nomes de dentro da corporação OCP, também tem um projeto pessoal de policial do futuro, o andróide ED-209, que logo em sua primeira demonstração mata um dos altos executivos e demonstra sua instabilidade. Até mesmo a mais fria máquina de aplicar a lei necessita, no fim, de algum traço de humanidade.

A crítica ácida a um modelo corporativista sórdido, em busca do lucro e dos resultados a qualquer custo – lembre que os anos 80 foram a época do “a Ganância é boa” – foi tanto exaltada quanto mal interpretada. Um filme de ação e sci-fi com uma pegada política tão latente, onde bandidos da “ralé” e grandes empresários negociam ações por debaixo dos panos, não era algo tratado de forma tão explícita quanto o que vemos aqui. Quando o mal não era um comunista, geralmente era um mafioso, um terrorista, um narcotraficante… Dificilmente um “respeitado” homem de negócios. Mais fácil, neste período, o vilão ser um PREDADOR de outro planeta ou mesmo um EXTERMINADOR DO FUTURO do que um engravatado bem-sucedido.

É por essas e outras que mesmo tendo se passado 30 anos, ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO ainda mantém sua relevância e uma legião de fãs. A refilmagem de 2014, dirigida pelo brasileiro José Padilha – cuja versão sofreu infinitamente mais nas mãos dos produtores que a original – até tentou “atualizar” o tema, mas como renovar aquilo que, no fim, jamais envelheceu? O resultado foi um blockbuster de ação genérico e sem alma, o oposto completo do que acontece aqui. Estamos entrando em um novo momento interessante para o nosso gênero favorito com tramas minimamente bem escritas e cenas de ação muitíssimo bem encenadas. Será que um dia teremos um novo filme com a mesma pungência estética e ideológica que o clássico de 1987? Fica a pergunta e uma esperançosa expectativa.

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4 Comentários

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  • Boa resenha. O primeiro Robocop tem uma crueza e ousadia, aliado a violência explícita (porém não gratuita), são coisas corajosas que não se tem em filmes “populares” nos dias de hoje. Diferentemente do segundo, que eu também gosto bastante, mas não tem a ousadia deste, acabou por ser uma diversão descompromissada (como não rir da cena que apresenta os novos Robocops?).

    Percebe-se como a direção do Paul Verhoeven não sofreu igual ao novo Robocop do Padilha, que claramente foi picotado e pasteurizado pra não chocar.

    Pessoalmente, acho que nenhum blockbuster voltará a ter esses tons. Filmes mais corajosos são relegados a segundo escalão, mas ainda existem, e sempre estamos aí para apreciá-los.

    • Sim, é possível. Mesmo pra época, o Robocop foi um filme diferente. Mas nunca se sabe. A gente pode se surpreender. Fico torcendo pra algum diretor “maluco” conseguir subverter as normas e fazer algo tão radical quanto o que foi feito 30 anos atrás. Não custa nada sonhar, rs.

      Valeu pelo comentário e pelo elogio!

  • Hollywood esta sem coragem de lançar otimos remakes e quando o faz lançam um produto sem alma do original ” Robocop” de 1987 continuara sem sombra de duvidas um grande filme de ação da decada de 80,mostrando o quanto o futuro pode ser sombrio…
    “Robocop ” do Padilha é um lixo se comparado com o de 1987.. faltou coragem e ousadia,fora remakes !

    • Ou, pelo menos, que façam remakes que filmes que envelheceram mal, que não alcançaram seus objetivos, né? Robocop tá ficando tão relevante que chega a assustar! rs
      Abraços!