A ROCHA: Michael Bay e o Cinema do Irrompimento

Brasil, 2017. Tempos austeros, o país na merda e ainda tem gente escrevendo textão sobre filme do Michael Bay…

Revi, no entanto, há alguns meses, a “trilogia” de filmes de ação que o Nicolas Cage protagonizou nos anos 90 e não ia desperdiçar a chance de comentar a experiência de retomar contato com essas obras depois de quase vinte anos. Especialmente A ROCHA, do Bay, o primeiro deles, um filme que me marcou bastante como apreciador de filmes exagerados de ação. Os outros são A OUTRA FACE, de John Woo, e CON AIR – A ROTA DA FUGA, de Simon West, que tiveram o mesmo efeito, mas ficam os comentários para outra oportunidade.

CINEMA DO IRROMPIMENTO

A ROCHA é o ponto mais alto da carreira de Bay, mesmo sendo seu segundo filme, realizado um ano após BAD BOYS. Já neste primeiro trabalho, estrelado por Will Smith e Martin Lawrence, Bay conseguia imprimir uma assinatura pessoal muito significativa, baseada num estilo visual extremamente elaborado e num ritmo ágil de montagem que poucos diretores haviam experimentado até então. Sem falar no que talvez seja sua marca registrada: sequências de ação que vão além do exagero, transformadas em exibições abstratas de pirotecnia deflagradora.

Uma das sequências mais notáveis de A ROCHA resume bem esse ponto. É a exibicionista (mas honesta) perseguição de carros que acontece no meio do filme. Como nada nas mãos de Bay é tão simples, a sequência acaba não sendo uma perseguição qualquer. Como já salientei, é exibicionista, é Sean Connery numa Hammer fugindo em alta velocidade de milhares de policiais e agentes do FBI, incluindo Nicolas Cage. Numa Ferrari. Amarela. Destruindo metade de São Francisco.

Ninguém esquece essa sequência facilmente, exceto o fato de que ela não possui qualquer relevância à narrativa e poderia ter sido limada ou ignorada quando Bay a propôs. Isso não traria qualquer prejuízo para a história. O personagem de Connery poderia ter simplesmente escapado dos seus algozes e desaparecido sem ter provocado o estrago da fuga. Mas Bay conseguiu convencer todo mundo a filmar tal feito e acabou concebendo a perseguição de carros mais exagerada, explosiva e absurda até aquele ponto da história do cinema.

Na verdade, isso explica toda a essência de A ROCHA e do cinema de Bay. Um cinema que se baseia na lógica de elevar o mais banal dos detalhes numa sucessão de imagens-espetáculo sensoriais que prende o espectador na cadeira e lhe diz: “Segure-se, filho, prepare-se para o impacto“! É como se seus filmes fossem projetados não para contar uma história, mas para injetar uma carga de adrenalina no público através de uma hecatombe de imagens freneticamente montadas, configurando e ressignificando coisas e corpos no espaço, com uma estética cuidadosamente elaborada, com todas as luzes, paleta de cores carregada, a trabalharem e a modelarem-se… Os elementos narrativos em A ROCHA, por exemplo, existem apenas como marcação, enquanto Bay constrói um passeio numa montanha russa que, por acaso, é um filme. Por acaso, é cinema. O seu cinema.

Por isso a sequência da perseguição pode não ter motivo algum de existir, mas acaba justificada sob este pretexto. Quero dizer, é tudo o que o público de espaços culturais e críticos de cinema odeiam em Michael Bay. Ele é totalmente desdenhoso em relação às partes fundamentais do desenvolvimento de uma narrativa, mas as utiliza como artifício para configurar o que realmente importa: explosões, efeitos especiais, destruição, seres humanos explodindo coisas, coisas explodindo seres humanos e, claro, mais explosões.

É preciso, portanto, estar preparado psicologicamente para apreciar A ROCHA dentro desses níveis formais, estéticos, dramáticos e até filosóficos de cinema de ação que nasce da cabeça de um diretor como Michael Bay. Ou talvez não precise de nada disso e o filme funcione como uma bobagem hiperbólica divertida cheia de explosões e tiros. Ou até mesmo um lixo cinematográfico no qual cada celuloide deveria ser queimado em praça pública, onde figuras de respeito como Ed Harris e Sean Connery o renegariam de suas filmografias. Eu prefiro a primeira opção. Quero dizer, a primeira mesmo, a dos vários níveis. A ROCHA pra mim não é apenas um filme de ação exagerado, é uma força da natureza, um daqueles filmes cuja expressão “obra-prima” está longe de ser vulgarizada.

CAOS HUMANISTA: UMA ODE AO GENERAL HUMMEL

O roteiro de A ROCHA, escrito à seis mãos por David Weisberg, Douglas S. Cook e Mark Rosner, é um pastiche de clichês absurdos como qualquer coisa na qual Bay ou o produtor Jerry Bruckheimer tenham trabalhado. Mas possui um forte apelo moral e emocional que vem das personalidades dos personagens centrais. Difícil de acreditar, mas é isso o grande diferencial de A ROCHA na filmografia de Bay. Em meio a tantas obras explosivas com robôs gigantes que falam, este aqui se destaca justamente pelo tratamento que o diretor dá à figura humana.

É evidente que o enredo, basicamente, nos convida a acompanhar uma missão que consiste em invadir a prisão de Alcatraz, resgatar 80 reféns e desativar armas biológicas apontadas para a cidade de São Francisco. E Bay está pouco se lixando para a quantidade de mortes que vão ocorrer no percurso. Mas, logo de cara, o filme apresenta um dos personagens mais fascinantes do cinema de Bay: Hummel (Ed Harris), um General militar das forças armadas americanas desiludido, mas honrado, indignado pela forma como o governo trata seus filhos combatentes e veteranos. Depois de muito insistir para que o governo pague as devidas indenizações às famílias de militares mortos, o sujeito reúne seus homens e decide ocupar a antiga prisão de Alcatraz, faz civis de reféns e ameaça disparar uma arma química dentro de foguetes em São Francisco, a menos que suas demandas sejam cumpridas.

E esse é o vilão da história. Vilão? Logo no início do filme, um personagem expressa o tipo de sujeito que Hummel é: “Passagens no Vietnã, Panamá, Grenada, Tormenta do Deserto, duas estrelas de prata e a medalha do Congresso. Jesus. Esse homem é um herói“.

Mas não se deixe enganar, Hummel é o vilão… Um vilão com um senso de honra tão forte, que é até possível nos identificarmos com ele. Mas o que realmente torna Hummel único e original é que toda a situação criada por ele acaba por ser um blefe. Na maioria dos filmes de ação, o vilão até pode revelar algum senso de honra, mas quando as coisas apertam acabam mostrando que não estão para brincadeiras. Com Hummel não é bem assim. Ele vai até o limite que pode ir sem matar pessoas e, quando a coisa desanda, ele simplesmente resolve abandonar toda essa loucura e aceitar as consequências. O problema para Hummel são os mercenários cuzões que ele contratou e que não querem desistir da missão. E não por um código de honra, mas por dinheiro.

Mason: Tem certeza que está pronto pra isso?
Goodspeed: farei o meu melhor.
Mason: Seu “melhor”!? Perdedores sempre lamentam por tentarem fazer o melhor. Vencedores vão para a casa comer a rainha do baile.
Goodspeed: Carla foi a rainha do baile.
Mason: Sério?
Goodspeed: [Engatilhando a pistola] Yeah.

Uma das sacadas de A ROCHA é colocar dois heróis como protagonistas, totalmente opostos, vividos por Cage e Connery, lado a lado com a responsabilidade de salvar o dia. Mas não é essa a regra dos bons e velhos Buddy Movies? E a química entre os dois, os diálogos bobos, e todas as situações criadas a partir da premissa, são um deleite para os apreciadores do filme. Numa sequência logo no início, somos apresentados ao personagem de Cage, Goodspeed, já em ação, selado em uma câmara, desativando uma bomba química mortal; Mas o cara é isso, basicamente um rato de laboratório com experiência mínima de campo ou de combate. Mesmo assim é designado para se juntar à força-tarefa para invadir Alcatraz, porque sabe como desarmar os foguetes biológicos, que contém as famigeradas bolinhas verdes. O outro lado da moeda é Mason, um espião britânico badass que roubou com sucesso todos os arquivos secretos de J. Edgar Hoover (“até a verdade sobre o assassinato da JFK“) antes de ser encarcerado secretamente para a toda a vida sem julgamento. Além disso, uma das principais qualificações de Mason é ter sido o único homem a escapar com sucesso de Alcatraz.

E é curioso pensar que o personagem de Connery, um envelhecido ex-espião britânico badass, pode muito bem estar retratando uma espécie de James Bond de um universo alternativo, que passou os últimos trinta anos numa prisão. Obviamente o leitor deve se lembrar que Connery foi o primeiro ator a interpretar o agente secreto na série oficial que imortalizou o personagem criado por Ian Flemming e pelo menos para mim é difícil dissociar seu personagem em A ROCHA do famoso espião britânico.

O elenco do filme continua enchendo os olhos com David Morse, William Forsythe, Michael Biehn, John C. McGinley, Tony Todd, Marshall Teague, Tom Towles, Jim Caviezel e Philip Baker Hall.

EXPLOSÕES E MAIS EXPLOSÕES…

Do mesmo modo que a cena da perseguição é de um baita exagero exibicionista e todo aquele blá, blá blá que falei no início do texto, que representa o cinema do diretor, todas as cenas de ação em A ROCHA, sem exceção, seguem esse padrão explosivo que é tão caro à Michael Bay, que faz questão de transcender os excessos estilísticos sempre buscando um novo ângulo, um novo enquadramento, uma forma diferente de filmar a ação, que é notável também pela variedade e pelo uso dos espaços, incluindo tiroteios nos mais diversos ambientes, combates corpo-a-corpo, explosões, e mais explosões, além é claro da perseguição de carros destrutiva por São Francisco.

E é do olho do furacão que Bay consegue extrair os momentos mais poéticos de A ROCHA. Na ação, nas chamas que saem das armas ou de um cenários que explode e cria quadro que são verdadeiras pinturas cinematográficas, como na sequência do “clímax do clímax” (as cenas de ação são tão épicas que todas parecem ter camadas de clímax) em que os jatos do exército americano recebem autorização para explodir Alcatraz e, no último segundo, a autorização é cancelada, o que não evita o disparo de um míssil, enquanto Goodspeed, exausto, tenta avisar com uma fumaça de sinalização que tudo está sob controle… Sublime.

Mesmo as cenas mais simples, de diálogos, com raras exceções, são filmadas como se um furacão estivesse passando ao lado dos personagens, e o simples fato de Connery e Cage estarem sozinhos em Alcatraz abarrotado de soldados inimigos numa corrida contra o tempo, tensa e angustiante, cria uma situação que já causa um efeito bem mais eficiente como filme de ação do que as próprias composições espetacularizantes que definem o gênero. Tudo questão de câmera, montagem, ótimos efeitos especiais e, o principal, especialmente em A ROCHA: bons atores (o trio Cage, Connery e Harris é um dos mais brilhantes do cinema de ação noventista).

E é curioso como já em 1996 Bay realiza o tipo de produto de ação moderno que até hoje é feito em Hollywood. São poucos os momentos que você se dá conta de que o filme já passou dos vinte anos. Não estou dizendo que A ROCHA é o exemplar que redefiniu o gênero, mas com certeza foi um dos alicerces dessa modernização, junto com A OUTRA FACE, CONAIR, FORÇA AÉREA 1, INDEPENDENCE DAY, os James bond com o Brosnan… Obviamente, todas as palavras ditas neste texto vem de um fanático por filmes de ação que possui um carinho especial por esses trabalhos, que o acompanharam na adolescência, quando passava noites e mais noites assistindo a evolução do gênero, para o bem e para o mal (os efeitos nocivos desses filmes para o gênero no início dos anos 2000 renderia outro artigo).

Mas vistos hoje, vinte anos depois, esses trabalhos seminais ainda me despertam os mesmo sentimentos de quando eu era um adolescente estúpido. E estupidez por estupidez, aprendemos nessa vida de cinéfilo de meia-tigela que existem filmes inteligentes e existem filmes estúpidos. E existem filmes como A ROCHA, uma obra inteligente com personalidade o suficiente para ser extraordinariamente estúpida.

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4 Comentários

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  • Junto ao primeiro “Bad Boys” e o primeiro e terceiro exemplares da franquia “Transformers”, “A Rocha” é um dos poucos exemplos que prestam do cinema de Michael Bay.

  • Na época foi definido como Duro de matar em Alcatraz. MAS TEM CONNERY E ISSO FAZ ENORME DIFERENÇA. AÇÃO DE PRIMEIRA, DE ENCHER OS OLHOS E GUARDAR NA MEMÓRIA!!!!!!!!!

  • Acho o Bay meio merdão, mas tirando os filmes dos Transformers, o restante de sua filmografia consigo assistir quando não se tem nada melhor pra fazer e ainda me divertir, não vejo tanto motivo pra ódio em cima do sujeito.