SABOTAGEM (Sabotage, 2014) | REVIEW

Ao observarmos a trajetória de Arnold Schwarzenegger, fica nítido que seu projeto de construção de carreira cinematográfica é parte de uma prerrogativa de vida baseada no desafio, na “fome” constante, que se espraiou em diversos âmbitos de sua vida (empreendedorismo imobiliário, fisiculturismo, política, etc). Não à toa, ao atingir seu apogeu em cada uma dessas instâncias, via-se mais uma vez iniciando uma busca que o demovesse de qualquer zona de conforto. Uma espécie de anti-Stallone, cuja curva de ascendência se inicia a partir de circunstâncias bem mais desfavoráveis – e que, consequentemente lhe imbuiu de um senso de autoralidade baseado na expiação através da dor física –, Arnold construiu sua filmografia tendo como base o extremo-oposto dessa via, ou seja, refletindo a gana de sua trajetória pessoal vinculada aos inúmeros êxitos que obtinha a cada empreitada – daí a plenipotência de seus personagens, ao contrário da vulnerabilidade slyneana. Através dessa mítica de super-herói – muito mais sedutora para o público juvenil do que a dramaturgia elaborada de Stallone –, Arnold angariou inúmeros sucessos de bilheteria, ultrapassando seu rival em gosto popular.

Em 2014, o nome Arnold Schwarzenegger participa muito mais de uma mítica forjada ao longo de tais buscas e conquistas do que das fartas bilheterias. Depois de um longo período sem filmar (tendo apenas pequenas participações em filmes de colegas), sua trajetória cinematográfica voltou ao zero. O que seria um fator melancólico para muitos, para Arnold renova seu apetite pelo desafio de atingir êxito a partir do nada. O que nos remete a SABOTAGEM, certamente o filme mais incompreendido de sua carreira.

O tiro certeiro dessa pequena grande obra é apostar num viés muito mais realista do que o forjado (e muito mais bem sucedido) por seu ex-rival em OS MERCENÁRIOS. Enquanto Sly trouxe à baila a mítica do herói de ação oitentista, com toda sua potência e fulgor (cujo epicentro foi exatamente Schwarzenegger), Arnie, em SABOTAGEM, faz o caminho inverso, resgatando nuances dramáticas muito mais peculiares a Stallone. Há uma equipe sim (no caso, de policiais especializados em narcóticos), mas o companheirismo entre eles é questionável, diferentemente da brodagem do grupo de Sylvester; a unidimensão moralista também é posta em xeque (uma de suas integrantes é viciada em cocaína), e a própria figura do líder, representado por Arnold, tem desdobramentos atípicos quando nos são revelados seus intuitos.

Inicialmente, o grupo liderado por John Wharton (Arnold) realiza um ataque ao cofre de um cartel, numa sequência que já evidencia não se tratar de um filme típico do austríaco. Não há um momento “solo” memorável, com frases de efeitos ou bem-humoradas. Todos tem sua participação na empreitada, que culmina com o desaparecimento do dinheiro roubado por eles. Seus subordinados começam a ser mortos, o que leva o grupo a acreditar que um de seus integrantes se aproveitou da incursão e roubou dinheiro dos chefões. Daí por diante é uma sucessão de acusações e rupturas que atingem seu ápice na estonteante e reveladora sequência final (cujo desemboque é elíptico). Vale atentar que, além de democratizar seu tempo em cena com outros atores (Sam Worthington, Terrence Howard, Joe Manganiello, etc), dado quase inexistente em seus filmes como protagonista, Arnold tem aqui a composição mais dúbia e complexa de sua carreira. Outrora alçado a uma categoria de esfinge do mundo dos heróis de ação, seu personagem aqui carrega um dilaceramento interno que o despe dos códigos de ética de seus antigos arquétipos. A primeira imagem do filme já é reveladora: Arnold revê, masoquisticamente, um vídeo em que sua esposa é brutalmente assassinada. Não há como passar imune às suposições da falta de limites morais para alguém que carrega tanta dor e fúria dentro de si.

Afora a sequência inicial, os primeiros quarenta minutos possuem uma dinâmica lenta e fotograficamente escura, por vezes reverberando numa estética televisiva (planos fechados muito longos) que, se surpreende àqueles que esperam o oposto disso num filme de Arnold, é igualmente necessária ao criar um eixo de apresentação de personagens que revelam a face verdadeiramente cruel do que é ser um “descartável”. Diferentemente do lado cool do grupo de Stallone, que se reúne em barzinhos, conta piadas ingênuas e mantém a união acima de tudo, o grupo de Arnold frequenta puteiros, fala palavrões, cria confusões em bordéis, é extremamente machista, etc. Algumas cenas são até bem desagradáveis de se assistir, como a em que recebem a visita da agente que investiga a subsequente morte dos integrantes (Olivia Williams), e esta é molestada com vários impropérios. Logicamente, o background de “banimento” do grupo justifica o fato de carregarem a ferida característica dos desajustados, o que só realça o tom de veracidade que Ayer almeja. As cenas protagonizadas por Lizzy (Mireille Enos, a melhor atriz do elenco), a mais errática do grupo, são de causar repugnância por subverter – negativamente – a ordem do que se espera da única mulher que o integra.

A decupagem, se em muitos momentos esbarra na síndrome do “amadorismo” televisivo com suas câmeras tremulantes, por outro propõe uma estética muito mais tensa e realista se comparada à dos mercenários de Sly. As cenas em que John Wharton se flagela reassistindo ao vídeo em que sua esposa é brutalmente assassinada – em uma espécie de masoquismo necessário para que sua sanha vingativa nunca diminua – remete a um processo de expiação eastwoodiano, ilustrado pela silhueta de Arnold engolfada numa escuridão que se confunde com sua própria mente. Wharton carrega o peso de um mundo nas costas, como os mais recentes personagens de Eastwood. Mesmo a sequência final, de certo modo anticlimática, carrega muito mais a essência heterodoxa do que se espera de um ajuste de contas vinculado a OS IMPERDOÁVEIS ou GRAN TORINO do que a ortodoxia pop de um COMANDO PARA MATAR. A imagem final, de Wharton mais uma vez encoberto pela escuridão, traz em seu bojo tanto a metáfora da satisfação – o cigarro depois do gozo – , quanto a da transcendência de sua alma imbricada na fumaça do charuto.

Cabe mais uma vez observar que Arnold se reveste de um viés trágico mais compatível com a filmografia de Stallone, enquanto este, em sua franquia recente, incorpora uma persona indestrutível muito mais próxima da imortalizada por Arnold nos anos 80. Comercialmente falando, Stallone soube atualizar seu público, o que é um grande mérito para um astro que há pouco mais de uma década atrás fora relegado ao terreno quase irrevogável dos direct to video. Agora, dramaturgicamente falando, Arnold começa a esboçar uma trilha muito mais consistente, corajosa e até autoral, pela qual deve caminhar com mais frequência: a do herói em seu crepúsculo. A mesma via transitada pelo Clint pós-Imperdoáveis, e que se confirma nos dois filmes subsequentes a SABOTAGEM: o belíssimo drama MAGGIE, em que Schwarzenegger tem sua melhor e mais dramática atuação, e o peso-pena AFTERMATH. Que continue assim.

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1 Comentário

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  • Gostei. É um policial realista. Não tem a ação vertiginosa e espetacular das séries Máquina Mortífera e Duro de matar. É mais no estilo setentista de Operação França e Dirty Harry. Tem uma trama muito bem urdida e um TWIST final muito interessante. Nota 7,5. Agora, mudando de assunto: o ACTION NEWS está substituindo o DIA DE FÚRIA? Caso positivo, você poderia, por favor, repostar a filmografia do John Millius, ampliando os textos de cada filme ( alguns têm apenas um parágrafo ou dois) para, ao menos, do tamanho desse ( principalmente os filmes de guerra)? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.