TAVERNA DO TIGRE #2: Sanjuro: O Samurai Sem Destino

Observa o ambiente, quieto, astuto
Sentado à mesa nada lhe foge
Parece distante, como é matuto
Em seu fingimento, ele se recolhe

Vestido sem luxo, sem garbo, vulgar
Assim ele gosta, não chama atenção
Munido de espada e sempre a vagar
Pois lobo da estepe é bicho ermitão

O nome quem sabe? Família não tem
Suas pernas o movem pra terras além
De cara fechada e ar de homem duro

Caminha no agreste abismo da alma
Jamais se abala, mantém sua calma
Assim é o andarilho, que chamam… Sanjuro

Quando Akira Kurosawa realizou YOJIMBO (1961), ele já havia dado sua contribuição (e talvez revolucionado) os Jidaigeki – como os filmes passados na época do Japão medieval eram chamados. Seja por RASHOMON (1950), em que a questão da Verdade Absoluta é posta em cheque, por OS SETE SAMURAIS (1955), onde realiza um filme de aventura onde inaugura uma série de convenções dentro do gênero men on a mission, em TRONO MANCHADO DE SANGUE (1957), onde Shakespeare flerta com o terror do teatro Noh e ainda em A FORTALEZA ESCONDIDA (1958), uma aventura em que os personagens secundários é quem nos introduzem a trama central, fato provavelmente inédito no cinema, além de ter sido uma das obras de inspiração para a criação de STAR WARS (1977).

Foi em 1961, entretanto, que Kurosawa faria o filme que não só seria sua maior bilheteria no Japão como, também, uma de suas obras mais importantes no Ocidente: YOJIMBO. O filme conta a história de um ronin (um samurai sem mestre), interpretado por Toshiro Mifune, que vaga solitário pelos arredores de uma fazenda até que ouve a conversa de uma família com um jovem, que desiste largar tudo para trabalhar pra uma família de criminosos que operam numa pequena cidade próxima ali. Após escutar isso, ele decide, então, ir para a mesma cidade, onde descobre que, na verdade, o poder é disputado por duas famílias rivais, que se odeiam frontalmente. Ao saber disso, o ronin tem uma ideia: vai trabalhar, secretamente, para ambas, fomentando em segredo disputas e conflitos sem que uma saiba do seu envolvimento com a outra.

YOJIMBO é o mesmo filme que serviu de base, no ano seguinte, para Sergio Leone e seu POR UM PUNHADO DE DÓLARES, protagonizado por Clint Eastwood. Dois filmes imensamente importantes e influentes. Embora dividam a mesma trama, fica a recomendação para quem não os assistiu para perceber como dois grandes diretores, com duas estéticas distintas, conseguem trabalhar e fazer filmes também diferentes entre si.

Em YOJIMBO somos apresentados a este ronin misterioso, de passado desconhecido, com seu quimono negro, puído, com símbolo de seu antigo clã e sua inseparável katana. Quando perguntado sobre seu nome, ele olha para a janela e observa um pé de amoras. Sua resposta? Kuwabatake Sanjuro (algo como “Amoreira de Trinta anos”). “Embora eu tenha quase quarenta” conclui.

Frequentemente vemos Sanjuro observando a cidade, pelas janelas do restaurante, pelas frestas… Kurosawa, aliás, faz questão de nos mostrar pelos seus enquadramentos, sempre colocando o personagem a espreita de alguma conversa, esse lado voyeur do personagem. Observando a tudo e a todos, prestando silenciosa e calmamente atenção em cada conversa, sempre tentando mostrar sua competência, levando vantagem em todas as circunstâncias. Ele está ali como guarda-costas (yojimbo) e irá fazer a segurança de ambas a facções que dominam o lugar, como mencionado. Assim, fazendo-se de linha de frente do explorador, Sanjuro irá, ao seu modo, explorar estes mesmos, colocando os inimigos em atrito com frequência, criando o caos onde, em um momento, havia relativa paz. Para os tiranos, não exatamente para os habitantes. Não à toa, um dos homens mais ricos da cidade é o coveiro. No fim, não sabemos de onde vem, seu nome e nem porque diabos ele decide avacalhar com os planos dos malvados. Senso de justiça? Ambição? Afinal, dois patrões em conflito, mais missões, mais dinheiro entrando.

Se em YOJIMBO o clima que permeia a trama é de caos, niilismo, em SANJURO (62), por outro lado, veremos o mesmo personagem em outro ambiente. A trama abre com um grupo de jovens samurais organizados em uma casa, tramando contra o tio de um deles, que julgam ser corrupto. Sanjuro aparece de surpresa, pois estava dormindo em um quarto ao lado da mesma casa abandonada. Ao ouvir os jovens conspirarem, ele começa a mostrar a eles todos os buracos e possíveis falhas dos planos: o tio, ao que tudo indica, apesar de velho e de gestos duros, é um homem honesto; o superintendente que os inspira, apesar de jovem, aparentemente heróico, estaria na verdade tramando para tirar o homem de sua posição de poder; os jovens, naquela casa, abandonada, longe da proteção do tio, seriam em breve o alvo de uma emboscada. Dito e feito. Não demora muito e aparecem vários homens para matar os jovens samurais. Sanjuro, com sua malícia, irá peitar estes homens, enganá-los oferecendo suas habilidades marciais para, por fim, ajudar os rapazes a salvar o clã.

SANJURO veio por causa do sucesso de YOJIMBO. É um filme mais leve, com toques de humor, com muito mais cenas de combate (magnificamente encenadas, aliás) e veio, também, de um roteiro adaptado. O personagem, originalmente, não faria parte da trama, mas foi inserido graças ao grande sucesso do filme de 61. Muitos criticam, inclusive, a mudança de personalidade do personagem nos dois filmes, além de certa imprecisão histórica (a ambientação do segundo filme não poderia ter acontecido depois do primeiro). Contudo, venho defender uma questão: Sanjuro é o mesmo personagem. Não interessa qual filme veio antes, se SANJURO é continuação ou prólogo. Nunca foi pelo dinheiro que ele foi à cidade no primeiro filme.

Neste segundo, pouco após livrar os jovens samurais da morte certa, eles perguntam seu preço, ele diz que quer apenas sakê e arroz (cito de memória, posso estar equivocado quanto ao “preço”). Um dos rapazes tira de seu quimono um saco de moedas e dá ao espadachim. O que ele faz? Diferente do que poderíamos esperar, ele abre o saco, retira o exato valor que necessita e devolve o resto do dinheiro ao jovem. Está bem claro pelos seus trajes e pelo seu estilo de vida que Sanjuro não é um nobre nem está “nadando em dinheiro”. Não está, nem deseja estar.

Enquanto em YOJIMBO vemos apenas um lobo da estepe, aparentemente interesseiro, metido em uma briga de cachorros raivosos. Aparentemente, porque percebemos também que quando inocentes estão em perigo, ele é capaz de atos de altruísmo: quando a mulher de um camponês é tomada a força por Unosuke (Tatsuya Nakadai) após ganhá-la numa aposta, ele arrisca a própria pele para salvá-la, e paga o preço por isso. Ele mata sem remorsos, verdade, mas sua lâmina não encosta em absolutamente ninguém que não esteja envolvido com aquele caos.

Em SANJURO, o homem dá sermões, evita matar e, quando mata, o faz mais por necessidade do que por vontade. Como vejo? Sanjuro está cansado. Quando depois de uma luta duríssima desembainha sua espada e tira a vida de vários samurais inimigos, ele é louvado pelos jovens. Sua resposta? Quase um choro raivoso. Não era pra ter sido assim. No duelo final, contra Hanbei (mais vez, Tatsuya Nakadai), a cena mais famosa da película e, certamente, um dos duelos de samurai mais lembrados da história do cinema, quando ambos disputam um duelo de saques de espada (uma notória referência fordiana de Kurosawa), Sanjuro faz um corte que jorra um sangue quase infinito de Hanbei. Mais uma vez ele é aplaudido por sua violência. Uma vez mais ele repreende os jovens e lamenta. Em seguida, ele parte. Outra vez mais, ele teve que ser fera para poder estar entre feras.

Ele podia ter voltado a ser samurai, mas preferiu ser ronin. Ele podia ter dinheiro, mas preferiu, ser andarilho. Um estóico, sem dúvida. Um lobo solitário, que vaga por um Japão que não lhe pertence, indo para sabe-se lá onde. Sanjuro é, provavelmente, o mais cowboy dos samurais japoneses e, ao mesmo tempo, é o menos parecido com um vaqueiro que poderia existir, já que nem mesmo da companhia de um animal ele goza. O Ethan Edwards de Kurosawa só conhece o combate, mas não tem ódio. Somente um ethos: seguir em frente, até que um dia não possa seguir mais. De olhos e ouvidos atentos, com sua katana em punho. Até que não possa mais.

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2 Comentários

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  • Boa noite. Caro amigo, falando em samurai sem destino, assista RONIN ( 1998), com Robert DeNiiro e Jean Reno. Se gostar ( EU ADOREI), poderia, por favor, escrever sobre ele? Muito obrigado pela atenção e um forte abraço.