REVIEW: SHARK (1969)

O filme (justificadamente) renegado por Samuel Fuller

Em 1969 o diretor Samuel Fuller estava em uma verdadeira batalha com o estúdio durante a pós-produção de SHARK, seu ultimo trabalho. Os desentendimentos envolviam quase todos os pontos de montagem do filme. Para falar a verdade, as coisas já não andavam nada bem desde que um acidente fatal ocorrerá durante as filmagens. Um dublê mexicano chamado Jose Marco infelizmente foi morto por um tubarão branco enquanto as câmeras rolavam. A versão foi de que um dos animais não estava adequadamente sedado o que ocasionou a tragédia. Pois em meio às discussões com o diretor, os produtores resolveram se utilizar da fatalidade para impulsionar o marketing do filme, inclusive promovendo uma matéria de quatro páginas em uma revista famosa, além de vários slogans com trocadilhos infames. Esta triste atitude foi o estopim para Sam Fuller, que justificadamente virou as costas e abandonou o trabalho. Para piorar ainda mais, o estúdio resolveu reeditar tudo, mudando diversos detalhes e inclusive excluindo as cenas que Fuller mais gostava, estragando toda a história. Ao assistir o corte final, o diretor inconformado até mesmo demandou que retirassem o seu nome dos créditos, mas não foi atendido. Posteriormente em diversas entrevistas ele demonstrou desconforto e se absteve de comentários, renegando a sua participação.

A pilantragem foi tanta que o filme nem era para se chamar SHARK. A versão do diretor seria um filme pragmático de ação/aventura, mas imprimindo uma linha dramática e autoral um pouco mais aprofundada, com a presença dos tubarões ficando em segundo plano e iria se chamar CAINE, nome do personagem principal interpretado pelo Burt Reynolds. Mas os produtores, na ânsia de promover um filme de ataque animal e arrastar um público mais jovem para as salas de cinema, mudaram o título e ainda lançaram a seguinte tagline: “Um filme realista que se tornou real demais”. Posteriormente, provavelmente se sentindo culpados e arrependidos por tamanha insensibilidade e ganância, colocaram a seguinte mensagem junto aos créditos iniciais: “Este filme é dedicado aos destemidos dublês que repetidamente arriscaram suas vidas em águas infestadas por tubarões durante as filmagens”. Logo em seguida os créditos são ironicamente finalizados com o nome do diretor na maior fonte de letra possível (tudo o que ele não queria).

É sempre importante ressalvar o quão perigoso é o trabalho de um dublê, principalmente naquela época onde tudo era feito no braço e na coragem, mas homenagens não equivalem à valorização profissional e a verdade é que em algumas realizações do gênero, o dublê é que deveria ganhar o status de astro.

Portanto com toda essa polêmica, SHARK inicia da única maneira possível: com uma cena de ataque de tubarão a um mergulhador. Bem filmada, diga-se de passagem, (aqui vale a ressalva de que a única maneira recomendada de assistir a este filme é na versão restaurada em Blu Ray com a imagem cristalina). Concluído o ataque as coisas claramente não terminam muito bem para o mergulhador e a próxima cena corta para Anna, a patroa do falecido, interpretada pela loira Silvia Pinal, “consolando” a família e pagando a eles o último salário do trabalhador que pelos olhares reprovadores de sua mãe seria muito baixo, considerando que o pobre homem perdeu a vida enquanto procurava nada mais, nada menos, que ouro no mar do Sudão.

Em terras muito próximas dali está Caine (Burt Reynolds), um transportador de armas americano também passando umas “férias” no Sudão (na verdade enquanto a história se passa no norte da África, as filmagens ocorreram no México!), quando sua caminhonete cheia de explosivos é parada em uma blitz por uma patrulha. Depois de uma perseguição e algumas explosões, ele escapa com vida, mas perde todo o seu carregamento e chega entre trancos e barrancos no vilarejo mais próximo sem nenhum tostão no bolso. Emperrado ali, Caine na verdade não demonstra grandes ambições e considerando que o seu único pertence de valor é um relógio de ouro, inicialmente ele traça um plano de sobrevivência bastante simples. A ideia é oferecer o relógio a diferentes comerciantes locais em troca do almoço e contar com a ajuda de um garoto de rua e ágil ladrãozinho local, cuja tarefa é furtar o relógio dos comerciantes minutos depois que a negociação é concretizada, recuperando o pertence ao amigo para depois repetir todo o processo.

Mas apesar de se envolver em toda essa palhaçada com o ladrãozinho, o que empresta um tom de humor meio pastiche e fajuto ao filme, Caine não deixa de ficar profundamente interessado quando descobre que a loira e femme fatale Anna está no vilarejo procurando um novo funcionário para a embarcação comandada pelo professor Dan Mallare (Barry Sullivan), um empresário ambicioso e pouco amigável. Os três acabam indo trabalhar juntos no barco e com temperamentos opostos a sociedade não se torna muito amistosa, sendo que no final das contas o convívio entre eles fica tão perigoso quanto mergulhar com os tubarões.

Para desapontamento geral, apesar de ter potencial SHARK passa muito longe de ser um bom filme. Com graves problemas de roteiro e montagem, o ponto alto fica por conta de duas extensas cenas de luta nas quais os atores destroçam os cenários chutando e golpeando tudo que encontram pela frente. O suor e raiva desprendidos nestes momentos talvez expressem um pouco da frustação dos envolvidos por terem a oportunidade de trabalhar com um grande diretor, mas em um momento no qual o mesmo teve a sua liberdade e independência criativa afundada pelo estúdio.

Falando um pouco sobre o cineasta, Sam Fuller (1912-1997) – autor da histórica sentença “Um filme é um campo de batalha.  É amor, ódio, ação, violência, morte. Em uma palavra: emoção.”, dita no filme O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS, de Jean-Luc Godard – foi um grande artista e evidentemente têm em seu currículo realizações muito mais interessantes que esta bagunça chamada SHARK, que apesar de passar rápido e de ter alguns esparsos momentos onde se percebe a mão do autor, por todas as situações citadas no início do texto em muito pouco lembra os seus melhores trabalhos. Dentro de sua extensa filmografia, segue abaixo quatro recomendações que considero essenciais. Todos estes são filmes de gênero e ao mesmo tempo estudos profundamente inteligentes e impactantes da natureza humana, ação e reação, loucura, suor, sangue e lágrimas com alta carga dramática e sequências explosivas:

1) Capacete de aço (1951).
2) Cão branco (1982).
3) Shock Corridor (1963)
4) The big red one (1980).

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