SHOCKING DARK (1989) | REVIEW

Prolífico diretor italiano, Bruno Mattei (sob o pseudônimo Vincent Dawn), mestre do eurotrash, e seu fiel roteirista, Claudio Fragasso, autores de clássicos da bagaceira italiana como HELL OF THE LIVING DEADS, STRIKE COMMANDO, RATS: NIGHT OF TERROR e ROBOWAR, ultrapassam todos os limites inimagináveis da picaretagem cinematográfica com SHOCKING DARK, uma pequena jóia mequetrefe de ação sci-fi.

O filme foi “vendido” como uma continuação não oficial de O EXTERMINADOR DO FUTURO e chegou a ser lançado em alguns países como TERMINATOR II (só para constar, a sequência oficial do filme de Arnold Schwarzenegger só foi chegar aos cinemas uns dois anos depois). Basta fazer uma comparação óbvia das artes promocionais dos filmes abaixo, para perceber que os produtores de SHOCKING DARK perderam totalmente a noção do perigo e não estavam brincando de plagiar produções alheias.

E não satisfeitos em explorar o sucesso de um filme de James Cameron, SHOCKING DARK teve a cara de pau de copiar outro clássico do diretor americano: ALIENS. Na verdade, quando digo “copiar”, quero dizer ao pé da letra que SHOCKING DARK, tirando alguns detalhes da premissa e dos elementos de O EXTERMINADOR DO FUTURO, possui exatamente o mesmo enredo de ALIENS, com várias cenas, personagens e diálogos literalmente recriados. O filme tem muito mais a ver com ALIENS que com O EXTERMINADOR DO FUTURO, na verdade. E como é natural que esses filmes italianos repletos de picaretagens possuam vários títulos espalhados pelos países em que foram lançados, não surpreende o fato de SHOCKING DARK ser conhecido como ALIENS 2 em alguns territórios.

SHOCKING DARK é um festival de violação de direitos autorais. Uma mistureba tão exagerada e absurda, não de referências à la Tarantino e De Palma, mas de plágio mesmo, que acaba gerando algo totalmente autêntico e singular, especialmente levando em consideração a pobreza da produção, rodado à toque de caixa em uma usina qualquer cheia de tubulações como cenário, as péssimas atuações de um elenco fraquíssimo e algumas das criaturas mais fuleiras que já vi tocando o terror pra cima de um bando de soldados do futuro armados com shotguns esfumaçantes… Ou seja, um filme ridículo, mas uma delícia para quem conseguir entrar na brincadeira.

A premissa, que é a parte “original” que Fragasso teve capacidade de conceber, se passa num futuro não muito distante, numa Veneza arrasada por uma poluição tóxica que a deixou inabitável. Uma companhia chamada The Tubular Corporation administra uma rede de túneis subterrâneos construídos para ligar a cidade ao resto do mundo e por onde os cientistas tem acesso ao local para estudar, fazer testes e tentar reverter a situação da histórica cidade italiana. O problema é que alguns cientistas descobriram uma espécie de criatura mutante sanguinária, que tem causado transtornos nos laboratórios subterrâneos.

Uma pelotão chamado Mega Force, cujos membros são versões caricatas dos soldados de ALIENS, é convocado para adentrar na rede de túneis e investigar o que está acontecendo, procurar cientistas sobreviventes e, se possível, levar de volta as pesquisas. Uma cientista chamada Sara, uma cópia cretina da Ripley de Sigourney Weaver em ALIENS, também os acompanha, além de um soldado cibernético com o nome de Samuel Fuller (WHAT!?!?).

A partir de determinado ponto, Fragasso ficou sem idéias, pegou um VHS de ALIENS, botou no vídeo-cassete, encheu um copo de uísque e foi copiando o roteiro de ALIENS, seguindo cena por cena, todas as principais situações do filme de James Cameron. A coisa é absurdamente descarada. Quando chegou a hora de escrever o final, o efeito do uísque deve ter batido forte e o que temos aqui é tão bizarro que só poderia mesmo ter saído da mente desses italianos picaretas. Sem pé nem cabeça, o terceiro ato de SHOCKING DARK envolve viagem no tempo e o andróide exterminador, o tal Samuel Fuller*, num dos melhores festivais nonsense do cinema italiano oitentista!

* Não sei se é necessário, mas se por um acaso você não souber quem é Samuel Fuller, vou-lhe dizer: trata-se de um dos diretores mais “fodas pra cacete” que já pisou num set de filmagem. Seus filmes são obrigatórios e você deve parar tudo neste momento para assisti-los.

Voltando. Uma impressão errada que o leitor pode ter em relação a SHOCKING DARK é a de que se trata de um baita filme movimentado. Não é. Sem muito dinheiro para investir em efeitos especiais, cenas de ação espetaculares e cenários suntuosos, o filme basicamente se resume a noventa minutos de personagens espreitando por corredores escuros, que sopram gases e vapores. Eventualmente enchem alguns monstros de chumbo com suas escopetas e gritando incessantemente. Mas mesmo essas cenas de ação não possuem muita elaboração, Mattei mostra apenas planos de tiros alternando com planos das criaturas sendo atingidas, com muita fumaça camuflando tudo, e nada mais. Nos últimos vinte minutos, quando o filme força a situação EXTERMINADOR DO FUTURO e chuta o balde para o nonsense é que a coisa fica mais tensa e animada.

Na verdade, é um filme que diverte mais pelos motivos errados. As atuações terríveis, por exemplo, são de rachar o bico de tão hilárias. O joguinho que o espectador faz de tentar detectar as cenas que eles “roubaram” de ALIENS, ou as que plagiaram de TERMINATOR, também faz parte da graça em assistir SHOCKING DARK. Situações como a que o grupo encontra uma sobrevivente, uma garotinha assustada no meio das tubulações, assim como Ripley e outros soldados encontram Newt em ALIENS; ou a cena em que algum desafortunado é apanhado e preso por uma espécie de teia no covil mutante que implora “mate-me, mate-me”, que é uma cópia exata de uma cena de ALIENS. Eu poderia continuar porque há muitas cenas xerocadas aqui, porém é mais legal se você conseguir rastrear por conta própria estes momentos e aproveitar toda essa loucura.

E é simplesmente maravilhoso o fato de um filme como SHOCKING DARK tenha sido autorizado a existir. Seria impossível filmá-lo hoje em dia sem sofrer um belo de um processo na justiça, com a rígida proteção da “propriedade intelectual” atual. Mais um motivo para admirar essa façanha inacreditável de Bruno Mattei.

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