TAVERNA DO TIGRE #4: Bruce Lee – O Mito Maior que Seus Filmes

Sabe-se lá se o ocidente teria abraçado o cinema de Kung Fu com tanto carinho se um certo ator da TV americana, vindo de uma série cancelada, não tivesse assinado um contrato com uma certa Golden Harvest e se tornado o astro que sempre deveria ter sido. Bruce Lee já se foi há 44 anos mas seu legado continua pulsante, com novos filmes sendo produzidos contando sua história. O fascínio que ele causou foi tanto que, cada vez mais, o vemos menos como uma pessoa e mais como um herói popular, como um Wong Fei Hung do século XX.

Venho por meio deste artigo, entretanto, defender um ponto de vista um tanto quanto polêmico. Exatamente por isso, vou começar, meu caro leitor, dizendo o quanto que considero Bruce Lee uma espécie de Muhammad Ali chinês: move-se como uma borboleta, ferroa como uma abelha. É preciso, também, contextualizar o momento em que o homem apareceu no cinema de artes marciais chinês. Seu primeiro filme pela Golden Harvest, O DRAGÃO CHINÊS (Tang Shan Da Xiong, 1971) veio apenas um ano depois do suposto primeiro filme de Kung Fu completamente sem armas, THE CHINESE BOXER (Long Hu Men, 1970), dirigido e estrelado por Jimmy Wang Yu, o primeiro grande nome do cinema do gênero. Em uma indústria tão prolífica quanto a de Hong Kong, o que o filme de Lo Wei trouxe de novo foi apenas isso: a estréia em solo chinês de um homem que havia se tornado um astro nos EUA e que tentaria a sorte no cinema local.

A trama do filme não era lá essas coisas. Dura, sim. De uma aspereza ímpar para muitos que não estavam acostumados, mas pra quem acompanha o gênero, sabe que aquilo não era exatamente uma novidade dentro do cinema local. A produção, filmada na Tailândia, ajudava a cobrir um pouco do baixo custo. O que realmente fez O DRAGÃO CHINÊS se destacar é o instante em que Bruce dá o seu primeiro chute na cara de um adversário. O astro da primeira metade do filme, James Tien é, convenhamos, apenas um frangote comparado ao Dragão. Absolutamente NINGUÉM na China lutava como Bruce. A plástica de seus movimentos, combinado ao seu carisma, é o que fez o filme ficar marcado. Enquanto o cinema de artes marciais ainda engatinhava em termos de coreografias marciais, o homem trouxe um novo ritmo, uma nova dinâmica, uma nova plástica.

Seu filme seguinte, A FÚRIA DO DRAGÃO (Jing Wu Men, 1972) fora coreografado por ele próprio. Aliás, é neste que temos a eterna sequência de Bruce lutando contra os caratecas no dojo (reverenciada e copiada até hoje). Embora Lo Wei seja o diretor do filme, Bruce assumiu a direção da cena como um todo. Não à toa, é a melhor do filme. O timing dos dublês, dos golpes, tudo funciona perfeitamente. Tente achar outra sequencia de luta tão bonita filmada no mesmo ano. Sammo Hung, Yuen Woo Ping e Lau Kar Leung já estavam em atividade. O ASSASSINO DE SHANTUNG, de Chang Cheh, é um filme melhor, com cenas de luta incríveis. Chen Kuan Tai, o primeiro campeão de artes marciais a se tornar uma estrela de cinema, é o protagonista e o faz com esmero. OS CINCO DEDOS DA MORTE, protagonizado pelo eterno “Pai Mei”, Lo Lieh, também causara furor nos EUA. Mas Lieh não era um lutador, era um (bom) ator treinado pela Shaw Bros. para fazer filmes. David Chiang e Ti Lung também já protagonizavam épicos marciais dirigidos por Chang Cheh. Nenhum deles, entretanto, tinha o magnetismo e a beleza dos movimentos de Bruce. Contudo, todos eles possuem filmes melhores no currículo.

Em 72 ele iria para Roma dirigir o seu primeiro (e, infelizmente, único) filme O VÔO DO DRAGÃO (Meng Long Guo Jiang). Este é o filme onde ele enfrenta Chuck Norris, um dos duelos mais lembrados da história do cinema. Fica a impressão ao longo da fita que a escolha de Roma pode ter sido, em parte, pelo amor que notoriamente Bruce tinha pelo cinema de Sergio Leone. Ele utiliza os mesmos acordes que Ennio Morricone usou para introduzir Henry Fonda em ERA UMA VEZ NO OESTE nas cenas onde Norris aparece. Quando estão no coliseu, existe uma longa busca de Lee pelo seu adversário. Nota-se uma tentativa – um pouco canhestra, verdade – de emular o suspense que Leone tão bem criava antes de suas cenas de ação. Nenhuma fala, poucos cortes, um Lee caminhando pelo labiríntico local em busca de seu adversário, até que o duelo de fato se dá. Quando ele e Norris se vêem, trocam olhares, apenas. Ficam diante um do outro. É quando um gato faz um barulho que o embate começa. Lee é cinema. Um roteiro mais enxuto, melhor escrito, menos “egotripitico”, e este seria seu melhor filme. Vale, contudo, pela tentativa de fazer humor (elemento nada presente em suas produções com Wei), pelo choque cultural – certamente que o racismo vivido na América o deixou marcas -, e pela maneira como seu herói vai ganhando uma presença “maior que a vida” ao longo da trama.

Em 1973, Bruce realizaria OPERAÇÃO DRAGÃO (Enter The Dragon). Dirigido por Robert Clouse e co-protagonizado por John Saxon e Jim Kelly. O filme, pra muitos, é o seu melhor. Venho aqui discordar. Essa co-produção da Golden Harvest e Warner Bros., embora tenha sido pioneira pela maneira como retratava a ação e tenha algumas das sequências mais lembradas, como o duelo na sala de espelhos, sofre desde já do mal de várias produções do gênero: o arco de Bruce ter de ser dividido com ocidentais. Embora as subtramas de Jim Kelly (que também se tornou um astro após o filme) e Saxon tenham seus méritos, Bruce aqui é menos humano e mais uma máquina de bater. Sabemos que sua irmã (Angela Mao em especialíssima participação) é morta por Robert Wall. Mas em nenhum momento o personagem é mostrado como mais do que um super agente numa missão de vingança. O vilão, feito pelo saudoso Shek Khin, quase não representa uma ameaça.

Aliás, outro problema de Bruce: ele era SEMPRE muito melhor que seus adversários. Não tinha duelo ou briga coletiva onde de fato sentíamos que algo podia acontecer com ele. Se Fong Sai Yuk vier, honestamente, que venha armado: Bruce vai dar uma meia-dúzia de golpes e o lendário lutador cairá morto. Mesmo em seu clássico duelo contra Norris, onde o vemos levar golpes certeiros, não notamos um desafio tão grande assim para o Dragão. A vida é um desafio em modo Easy para um sujeito que veio ao mundo em modo God. Mesmo Wang Yu, um dos maiores egos de Hong Kong, entendia a necessidade de uma luta parelha entre dois antagonistas. Nem Bruce, nem Lo Wei e nem Robert Clouse pareciam compreender essa regra.

Bruce ainda estava a filmar mais um projeto, mas infelizmente veio a falecer. O que ficou das filmagens foi lançado em 1978 como O JOGO DA MORTE (The Game of Death), dirigido em parte por ele e parte por Robert Clouse. O filme é uma divertida história de ação e pode ser visto como uma homenagem ou uma exploração da imagem do Dragão. Seus últimos 20 minutos incluem as famosas cenas de luta com a roupa amarela, onde enfrenta seu discípulo e amigo Dan Inosanto e o astro do basquete Kareem Abdul Jabbar, numa performance assustadora e subestimada. Aliás, o perrengue que passa nesta luta mostra uma evolução estética e narrativa de Bruce como diretor de ação. São, facilmente, alguns dos melhores 20 minutos que o homem participou. Uma pena que jamais consigamos ver o diretor/coreógrafo certamente maravilhoso que ele se tornaria. Mas pelo menos, em filmes abaixo de sua figura, temos momentos inesquecíveis. Ainda vai demorar para que Bruce deixe de ser A LENDA.

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2 Comentários

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  • Boa avaliação da carreira do mestre Bruce Lee. Sou muito fã dele, mas também sempre tive essa pequena decepção de suas lutas serem completamente desparelhas, ninguém tinha a menor chance contra ele. Claro, levando em consideração que foram feitos apenas 5 filmes, não é uma crítica, pois quem sabe como seriam os próximos? Ele estava fisicamente no auge, se não fosse seu falecimento certamente teria hoje tantos filmes para apreciarmos quanto Jackie Chan.

    Uma curiosidade, que descobri não muito tempo atrás, as cenas de luta final do Jogo da Morte foram editadas, tem no youtube elas na íntegra. Todas as 3 lutas são mais longas e tem uma subtrama de uns caras querendo subir a torre antes do Bruce Lee (e apanhando bastante, mas é divertido de ver). Devem ter sido cortadas por não combinarem com a trama (que é sem pé nem cabeça) que fizeram do filme.

    • Aparentemente esse corte é parte do filme original. Bruce estava fazendo um filme, infelizmente veio a falecer e, anos depois, reaproveitaram o que ficou para as cenas finais do “Jogo da Morte”. Aliás, sei a respeito, mas eu mesmo nunca assisti nada desse corte original, rs. Obrigado pela dica, amigo, vou caçar isso no youtube. Obrigado também pelo elogio!