TAVERNA DO TIGRE #5: O LUTADOR, O PESAR DO TEMPO

Viver é a eterna luta do homem contra o mundo. Sem esse embate ele não come,  morre de frio, tomba ainda pequeno. Contudo, por mais feroz e audaz que possa o homem ser, o mundo sempre ganha dele. Seja pelas intempéries, doença ou mesmo pelo tempo, esse fenômeno tão abstrato que graças ao colosso implacável da gravidade, sempre impediu o homem de voar ao encontro de Deus. O corpo se deteriora, a juventude e a força se perdem, e de repente um menino travesso se torna um velhinho que precisa de repouso e de uma bengala para locomoção. O mundo não quer nada com o homem, já disse Nelson Rodrigues. E o tempo, essa pantera, é uma das garantias que ele possui de que nós passaremos e ele não. A única forma de luta que há é viver o presente, aprender com o passado e aguardar pacientemente o que quer que o futuro nos reserve. Sempre se preservando, tentando “plantar sementes”.

Mas Randy “O Carneiro” Robinson (Mickey Rourke, em estado de graça) não aceita isso. Outrora um astro da luta-livre, ele odeia o presente. O Carneiro é hoje um simulacro de si mesmo, vivendo do e para o passado. Seu cabelo ainda é o mesmo, as músicas que ouve são as mesmas, ainda se exercita e usa produtos nocivos ao corpo para falsear força e robustez, mas o tempo já passou por ele. Se antigamente ele aparecia na televisão, capas de revistas, tinha até mesmo um boneco baseado em sua figura, hoje só marca presença em ringues de ligas bem menores. Mas a mágica só acontece nos fins de semana. No resto do tempo ele é obrigado a ser Robin Randzinski, com seus mais de cinquenta anos, problemas de audição, um casamento falido e com problemas para pagar o aluguel.

O filme O Lutador (The Wrestler, 2008), de Darren Aronofsky (Cisne Negro, Mãe) ao contrário do que pode parecer ao espectador desavisado, não é um filme de luta ou um drama de superação, como clássico “ROCKY – O LUTADOR”, protagonizado por Sylvester Stallone. Pelo contrário, o filme seria um “Anti-Rocky”: a deterioração, a estagnação e a derrota são constantes. O processo de franca decadência sofrido pelo protagonista é melancólico e solitário. Em certo momento, Randy chama um menino, seu vizinho, para jogar vídeo game. O jogo é de luta-livre, e foi lançado na época em que era um astro do espetáculo. O lutador joga como si mesmo e o menino como O Aiatolá, seu grande rival dos ringues na década de 80. É notório o desinteresse do garoto em jogar com o ex-campeão, está mais interessado em plataformas mais modernas, não por uma tão ultrapassada e limitada. O fascínio por quem foi o impede de admitir isso.

Sua busca nostálgica por um pouco apenas de glória o submete até mesmo aos ringues de extreme wrestling, onde lutadores se engalfinham em meio ao arame farpado, escadas, cadeiras, tudo o que puder ser utilizado uns contra os outros, em nome de um espetáculo grotesco. Em uma das cenas mais marcantes do longa, vemos o protagonista e seu oponente saindo do ringue com os corpos cobertos de sangue e vidro, e enquanto o Carneiro vai sendo atendido por enfermeiros nos bastidores, veremos através das máculas em seu torso flashbacks de como os dois chegaram àquele estado francamente deplorável. A maneira como Aronofsky detalha, sem pudores, toda a visceralidade – literal e figurativa – do embate, com planos longos, seguido de cortes para os close ups nas chagas dos indivíduos é de arrepiar. Sem dúvidas uma das cenas de luta mais brutais já vistas, quase conseguimos sentir toda a dor de Randy na cena.

Após isto, ele sofre um infarto que o obriga a parar de subir nos ringues e tentar seguir adiante. Seu corpo além de velho já foi muito castigado pelas drogas, anabolizantes e pancadas. Em uma cena marcante, quando o personagem, junto de outros ex-lutadores estão reunidos para uma tarde de autógrafos com velhos fãs do espetáculo, a câmera, seguindo os olhares do protagonista, revela que vários deles ficaram com alguma deficiência pelos excessos físicos. Além de provocar desconforto em Randy, o próprio público ao ver aquilo se dá conta de que essas lutas, mesmo sendo todas forjadas, são espetáculos tão ferozes quanto uma peleja de boxe. É de causar um misto de horror, espanto e mesmo alguma admiração pela audácia e, porque não, fanatismo desses profissionais.

Quem também chama atenção na trama é Cassidy (Marisa Tomei). Ela é uma stripper com mais de quarenta anos que, assim como seu companheiro, se vê obrigada a encarar o tempo. Embora ainda seja uma mulher muito bonita, é notório o desinteresse dos homens que frequentam a boate em pagar por danças particulares. Logo em que ela aparece em cena, a vemos tentando convencer um rapaz em sua despedida de solteiro a acompanhá-la para a “sala do champanhe” e sendo ridicularizada pelo sujeito e seus amigos. É de alguma forma na escolha dessa atriz que reside o que deve ser o único defeito da película. Fica um pouco difícil de acreditar que uma atriz tão bonita quanto Marisa Tomei, intérprete da personagem, possa ter problemas desse tipo com homens. Embora seja excelente atriz e tenha feito um grande trabalho, a sensualidade e beleza dela ainda são muito fortes, difícil enxergá-la como uma mulher “fora do seu auge”.

Seu único cliente fiel é o lutador, a quem ela sempre trata com certo “distanciamento profissional”, enquanto o sujeito confidencia a moça toda a sua vida. Deixando isso de lado, é interessante notar a cumplicidade que cresce entre ambos, mesmo a contragosto dela em um primeiro momento. O apego pelo passado e a dificuldade em seguir adiante os tornam, de certa forma, a companhia ideal um para o outro. Enquanto Pam, seu verdadeiro nome, acaba, ela dá conselhos e ouve suas queixas, Randy a retribui com carinho e respeito. O lutador fracassado que ainda quer ser Rei e a dançarina quarentona que ainda quer ser “cocota” seriam o casal perfeito, se ela não fizesse questão de mantê-lo como mais um cliente e ele não fosse tão auto-destrutivo. O arco da moça se contrapõe ao de Randy: enquanto ela, gradualmente, vai aceitando que seu tempo já passou, o lutador, seja pelas circunstâncias, mas acima de tudo, por causa de seus vícios, acaba sempre por se ver de volta à sarjeta.

Outra questão abordada na trama é da relação entre o protagonista e sua filha (Evan Rachel Wood). A menina cresceu longe dos olhos e do afeto de seu pai, mas esse infarto obriga o homem a tentar se reconciliar com a menina de vez. Depois de muito relutar, a garota aceita o convite do pai para um passeio. Em uma cena comovente, o ex-campeão dança com sua filha em um salão abandonado que no passado abrigava lindas festas, onde ela, ainda menina, viveu momentos felizes com o pai. Mas se o passado era de glórias, o presente é de derrotas. Mas o futuro deles não será tão gentil. Ao mesmo tempo algoz e vítima, o Carneiro não parece ser capaz de se comportar como um verdadeiro adulto, de encarnar a figura paterna que não foi.

O LUTADOR pode ser visto como um conto moral onde aqueles que não de desprendem do passado não conseguem desfrutar de um bom futuro, mas também é um excelente tratado sobre perdas, sacrifícios, degradação do espírito e do corpo. A busca insana do protagonista pelo reconhecimento perdido e sua tortuosa batalha por uma vida menos ordinária é não apenas comovente e trágica, mas, de alguma forma, bela, muitíssimo bela.

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2 Comentários

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  • “Anti-Rocky”. Perfeito! E tudo indica que no final, ele ainda pergunta se no céu tem pão…

  • Muito boa sua análise! Gosto muito desse filme e concordo com as suas colocações. Para mim, é o melhor do diretor (ainda não vi “Mãe). Abraço.