REVIEW: CAÇADA DE MORTE (The Driver, 1978)

Alta quilometragem

por Bianca Zasso

É automático: o espectador que já assistiu DRIVE, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, terá um breve déjà-vú durante as cenas iniciais de Caçada de morte, do diretor Walter Hill. Além da fotografia em tons esverdeados da noite de Los Angeles, o rosto inabalável de Ryan O’Neil, no papel do protagonista deixam claro onde Ryan Gosling foi buscar inspiração para criar uma das melhores atuações de sua carreira. Outra semelhança é o fato do motorista de ambos os filmes usarem suas habilidades com o volante para garantirem a fuga de bandidos após assaltos. As coincidências param por aí, já que Refn gosta de poesia visual simbólica e equilibrada e vale-se das falácias sentimentais de seu personagem para explorar isso. Já CAÇADA DE MORTE é um filme de Walter Hill. E isto também significa poesia, mas não a que acalenta o coração, mas a que ativa a insônia.

Não há desperdícios em CAÇADA DE MORTE. Cada cena, cada movimento de câmera é preciso e tem como objetivo levar adiante a história do motorista (“The Driver” do título original) que só quer garantir o pagamento por seus serviços mas tem pelo caminho um policial de ego gigante e paciência idem, interpretado por um Bruce Dern áspero e preciso até quando faz piadas idiotas com seus colegas de trabalho. As sequências de perseguição de carros e as fugas investidas pelo motorista de O’Neil são construídas para colocar o público em taquicardia. Viradas, derrapadas e batidas sem fim ditam a presença da raiz do filme B de ação que, pelas mãos de Hill, tornam-se uma arte que, para os mais sensíveis, podem ser difíceis de entender. Há no balé de pneus de CAÇADA DE MORTE tanta beleza quanto nas pradarias percorridas por John Wayne e Montgomery Cliff em RIO VERMELHO, de Howard Hawks. As influências da geração da Nova Hollywood fazem com que, ao contrário de muitos faroestes que optavam por embelezar as agruras da vida do caubói, Caçada de morte não faça cerimônia para mostrar Los Angeles pelo ângulo de seus becos escuros ou hotéis baratos, ou traga opacidade para o sol californiano.

Mesmo contendo boas cenas de ação, DRIVE ficou na lembrança de muitos pela delicada cena do elevador, que culmina num beijo cheio de significados entre Gosling e Carey Mulligan. CAÇADA DE MORTE não tem espaço para o romance e as curvas de Isabele Adjani ficam o tempo todo cobertas. Walter Hill, contrariando muitos de seus parceiros de câmera quer acreditam que, mesmo no mais hostil dos filmes de ação deve haver um belo corpo feminino a mostra para dar um respiro, acredita que se paga um ingresso por adrenalina e carros arrebentados, eles é que devem ser explorados. Mesmo que Adjani não tenha um desempenho digno de nota, está dentro da trama como uma jogadora compulsiva, interessada em dinheiro e não em conquistar o herói.

Mas quem é o herói nestas paragens? Por mais que seus rendimentos venham de ações ilícitas, o motorista e seu olhar bucólico é que têm a torcida da plateia. Bruce Dern, por mais brilhante que seja, quer estragar a festa que vem acompanhada da mala recheada de dólares. Uma festa quieta, bem ao gosto do homem que pisa no acelerador sem dó mas não perde a calma.

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