REVIEW: TOURO INDOMÁVEL (Raging Bull, 1980)

O cinema, a arte e o boxe como válvula de escape e redenção

No livro Easy Riders, Raging Bulls (Como a Geração Sexo- Drogas-e-Rock´n-Roll Salvou Hollywood) de Peter Biskind um dos trechos mais interessantes aborda o processo criativo de TOURO INDOMÁVEL com o envolvimento de três figuras centrais: o roteirista Paul Schrader, que encharcou a sua escrita com os seus pesados traumas familiares, incluindo a conturbada relação com o irmão Leonard; o ator principal Robert De Niro que visualizou na biografia e na oportunidade de interpretar o polêmico boxeador Jake La Motta, a chance de entregar uma das atuações mais arrasadoras de sua carreira, aplicando o “método”, entregando o seu corpo e sua mente para o papel; e o diretor Martin Scorsese, que vivia a fase mais difícil de sua vida, internado em uma clínica devido ao seu vício em drogas, que por muito pouco não o matou naquela época.

Robert De Niro, muito amigo do diretor, primeiramente precisou ir diversas vezes ao encontro do acamado Scorsese e demonstrar ao combalido, mas extremamente talentoso mestre, todo o seu entusiasmo com o projeto de TOURO INDOMÁVEL  até conseguir convencê-lo a assumir a direção. E posteriormente, ambos precisaram de mais esforço ainda para bater de frente com as restrições do estúdio e entregar a grande obra-prima moderna que resultou de meses de suor.

Assim como um pintor ao fazer um quadro, ou um músico a compor, os cineastas igualmente a todos os outros artistas imprimem e entregam em seu trabalho as emoções e sentimentos de acordo com o que estão vivenciando no momento. Por este motivo, não é nenhum absurdo imaginar que caso não tivessem a oportunidade de se expressar através da arte e descarregar através do cinema suas cargas psicológicas mais pesadas, muitos artistas poderiam estar presos.

touro indomavel

Esta constatação também serve perfeitamente para a relação esporte/profissão versus vida familiar do pugilista Jake La Motta, que quando estava dentro do ringue exorcizava com muita brutalidade todos os problemas que ele mesmo criava em sua vida doméstica com a sua esposa, interpretada pela jovem e muito bonita Cathy Moriarty e com o seu irmão, em uma das primeiras atuações de Joe Pesci. Além disso, da mesma forma que toda a sua ascensão ocorrera nas ruas do bairro do Bronx em Nova York, La Motta, assim como muitos ítalo-americanos com talento no boxe, também precisava conviver com as interferências da Máfia local e sua rede de apostas.

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É na filmagem das cenas de luta, com fotografia em preto e branco de Michael Chapman, que Scorsese criou técnicas impressionantes através do som (em alguns momentos a trilha sonora de fundo das lutas é proveniente de gravações, misturas e rangidos da selva animal e em outros o mais puro silêncio precede as conclusões mais transgressoras de cada confronto) e através da amplitude das lentes das câmeras (para isso o diretor chegou ao ponto de construir ringues de diferentes tamanhos para cada cena, progredindo da claustrofobia e do isolamento de alguns instantes para as mais absolutas explosões de violência dos nocautes).

Em sua histórica e lendária rivalidade com o boxeador Sugar Ray Robinson, La Motta sempre se vangloriou que, apesar de ter sido surrado impiedosamente pelo adversário, o mesmo nunca o derrubou ao chão. Em irônico contraste com a vida real, uma das grandes virtudes do atleta era a sua capacidade de resistência contra as cordas, suportando os golpes enquanto permanecia em pé. Mas nas ruas, por outro lado, ele não resistiu a sequência de porradas do seu destino e por causa dos seus próprios pecados foi ao chão e regrediu as condições mais humilhantes que um homem pode passar, sendo afastado de sua família e preso, como retratado nas dramáticas sequências finais de TOURO INDOMÁVEL.

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Mas conforme aqui provado, para tudo na vida, inclusive na arte, existe redenção e assim como La Motta,  que depois de muito bater a cabeça contra a parede se levantou a ponto de poder até hoje em sua velhice contar a sua história, muitos afirmam que esta obra-prima foi a válvula de escape que salvou Martin Scorsese e que graças a ela tivemos – e ainda temos – a oportunidade de conferir ao longo dos anos muitas outras realizações deste diretor.

O classicismo e a leveza dos créditos iniciais abaixo de TOURO INDOMÁVEL é um belo contraponto para a potência e fúria da violência nas cenas de luta.

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