UM AGENTE FORA DE SÉRIE (2016) | REVIEW

UM AGENTE FORA DE SÉRIE (The Bodyguard aka My Beloved Bodyguard, 2016) marca dois “comebacks” para essa lenda viva do cinema chamada Sammo Hung. O 1o. como diretor 19 anos depois dos sucessos MR. NICE GUY e ERA UMA VEZ NA CHINA E NA AMÉRICA e o 2o. como ator em um papel de protagonista após uma série de personagens coadjuvantes. Só isso é motivo o suficiente para que essa obra seja assistida.

Não demora muito para que o longa revele ser algo um pouco diferente do esperado, a julgar pelo marketing em torno dele, podendo desapontar aqueles que esperam um filme repleto de ação. Também não se trata de algo com tanto humor como o título nacional pode sugerir, pelo contrário. Por vezes, o filme é bem sombrio e violento mas quem conhece um pouco a obra de Hung como realizador poderá não se espantar tanto, já que híbridos de gênero são uma constante em sua filmografia.

No início deste enorme sucesso no mercado chinês, um homem velho e acima do peso chamado Ding (Sammo Hung, quem mais seria?) é testemunha ocular de um asssassinato cometido por uma gangue. O porém é que ele não consegue ajudar nem um pouco quando a polícia o interroga para identificar o principal suspeito, Choi (Feng Jiayi). Ding, na verdade, foi um agente aposentado da polícia secreta de Pequim e que hoje sofre de demência, em seus estágios iniciais.

Na vila onde reside, numa região fronteiriça entre Rússia e Coréia do Norte, Ding é constantemente chamado para jantar pela senhora Park (Li Qinqin), que tem uma quedinha por ele. Ding ainda tem o costume de cuidar de sua vizinha, Cherry (Jacqueline Chan), uma garotinha cujo pai (Andy Lau, também produtor) é um apostador incontrolável que se mete em uma encrenca das brabas justamente com Choi e sua gangue. O episódio fará com que o então sempre quieto e pacífico senhor aposentado faça de tudo para proteger quem ama.

O que pesa em UM AGENTE FORA DE SÉRIE é o fato dele ser uma obra onde o melodrama açucarado típico do cinema comercial de Hong Kong sempre se sobressaia aos demais aspectos da narrativa. É preciso ter algum costume com isso (ou até mesmo, uma tolerância) para aproveitar melhor todas as cenas com o trio Hung, Jacqueline Chan e Li Qinqin, que abrilhantam o filme com suas atuações e é o responsável pelos melhores momentos da produção.

Porque não há muito o que dizer da parte da história que envolve crime e o personagem de Andy Lau. Também não é nada difícil se esquecer da existência do caricato vilão principal e seus capangas e de uma gangue russa mais caricata ainda que entra no meio da história. São personagens que só servem para introduzir as (poucas) cenas de ação ao longo do filme em sequências que soam forçadas, como uma forma de suprir a expectativa de um filme com a participação do ator de ação Sammo Hung.

Já o diretor Sammo Hung usa e abusa de algumas técnicas ‘mudernas’ nas cenas de luta, com um excessivo slow motion sendo empregado como se fosse uma dádiva dos deuses. Sem falar nos diversos close-ups em golpes realizados com as mãos que infelizmente nos fazem lembrar das atrozes cenas da franquia Bourne e (lamento dizer…) da preguiça de Steven Seagal que utiliza dublês de mão para fazer isso nos seus filmes mais recentes.

Dean Shek, Karl Maka, Tsui Hark
Yuen Biao

Embora tudo isso também seja um lembrete de que, claro, Hung não se movimenta mais como o sujeito que víamos em seus trabalhos nas décadas de 70, 80 e 90. O astro de OPERAÇÃO DRAGÃO GORDO hoje tem quase 70 anos e está com uma barriguinha ainda maior. Ou seja, até mesmo algo que um fã hardcore de ação pode enxergar como uma falha, termina servindo – sem querer – na reflexão que o filme quer provocar a respeito da velhice. As charmosas participações especiais de gente da velha guarda do cinema de Hong Kong e grandes amigos de Sammo Hung em seus mais de 40 anos de carreira como Dean Shek, Karl Maka, Tsui Hark, Yuen Biao, Yuen Wah e outros podem ser tudo, menos gratuitas. Shek (que rouba a cena em ALVO DUPLO 2), por exemplo, não aparecia em um filme desde 1991.

Ao tentar surfar na onda recente dos filmes de ação com protagonistas maduros e badasses que não deve terminar nem tão cedo (ainda bem), Sammo Hung perdeu a linda oportunidade de fazer deste filme o seu GRAN TORINO. Um foco ainda maior no drama com uma leve pegada de ‘thriller’ cairia bem melhor para esse projeto do que algo que insiste em tentar ser um filme de ação aqui e ali, inclusive em cenas do tipo sem qualquer participação do astro do próprio filme! Mesmo com essas falhas, o longa tem inegável qualidade e um evidente carinho da parte do diretor e equipe em um trabalho que provavelmente teve mais significado do que uma grana na conta do banco para todos os envolvidos. Viva Sammo Hung!

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UM AGENTE FORA DE SÉRIE foi lançado em DVD pela A2 Filmes através do selo Flashstar e pode ser encontrado nas melhores lojas. O disco é uma edição simples, com o filme sendo muito bem apresentado em sua janela correta (widescreen, 16:9), som original chinês 5.1 e dublagem em português 2.0. De extras, apenas um trailer legendado. Todas as imagens utilizadas na resenha são capturadas desta edição nacional. O filme também pode ser alugado ou comprado em plataformas digitais como o Looke.

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