REVIEW: VELOZES E FURIOSOS 8 (The Fate of the Furious, 2017)

Um dos melhores momentos de VELOZES E FURIOSOS 8 é um racha que acontece nos primeiros minutos de filme, numa Cuba pós-Fidel turística e americanizada, mas que serve de palco para uma corrida alucinante entre Dominic Toretto (Vin Diesel) e um chefe do crime local, com o primeiro vencendo de marcha ré e o motor pegando fogo! Serve também para lembrar que embora tenha crescido e sofrido mutações em direções que ninguém poderia antecipar há uns quinze anos atrás, a série VELOZES E FURIOSOS nunca esqueceu suas raízes.

E por falar em raízes, uma das preocupações que eu tinha em relação a VELOZES E FURIOSOS 8 seria quanto ao êxito de um novo capítulo sem a presença de  Paul Walker. Tá certo que grande parte do público é atraído por esses filmes somente pela ação, pela adrenalina, pelo gosto de ver carros em perseguições e rachas em alta velocidade, muito tiro, quebra-pau, barulho e explosão. No entanto, foram as relações – por incrível que pareça – humanas criadas entre espectador e personagens ao longo dos anos que a franquia tem ganhado tanta força e acabou se tornando a mina de ouro da Universal. E Walker, sem dúvida alguma, era um componente essencial nesse sentido.

Mas, não se preocupem! VELOZES E FURIOSOS 8 prova que Vin Diesel e o resto da sua tripulação ainda tem potência suficiente em seus motores para manter a franquia em alto nível por mais alguns filmes!

Na trama, a lua-de-mel de Dom com Letty (Michelle Rodriguez) em Cuba é interrompida por uma terrorista cibernética, Cipher (Charlize Theron), que faz uma misteriosa chantagem para que Dom traia seus companheiros durante um trabalho e roube uma arma tecnológica que Cipher quer botar as mãos. Agora, o que sobrou da equipe, liderada pelo agente Hobbs (Dwayne ‘The Rock’ Johnson), precisa juntar os cacos, recuperar artefato roubado e deter Dom.

O diferencial de VELOZES E FURIOSOS 8 é justamente o fato de que na maior parte do filme Vin Diesel está separado da sua “família”. Isso nos nega a química que ele possui com seus parceiros, fazendo o papel de mentor que todos buscam orientação e uma palavra final. Mas também abre espaço para o Hobbs de Johnson ter seus momentos de protagonismo. Vai ver por isso rolou aquelas tretas entre os dois… Aliás, não me lembro exatamente desse detalhe, mas acredito que Vin Diesel e The Rock nunca apareçam juntos no mesmo enquadramento em VELOZES E FURIOSOS 8, o que faz com que esses tais rumores da treta pareçam mais legítimos.

Fofocas à parte, o fato é que The Rock nunca esteve com tanta evidência na série como neste oitavo episódio. Totalmente à vontade, a empatia de seu personagem é especialmente forte com Deckard (Jason Statham), que retorna do filme anterior num processo de reabilitação como um bom sujeito. Agora ele é legal. É um cara maneiro. Embora seja estranho ver todo mundo aceitando de boa na equipe o cara que matou Han no desfecho do sexto filme. Mas enquanto sua evolução dentro dá série faça algum sentido, esse detalhe realmente não importa. Tão à vontade quanto The Rock, Statham parece ter se divertido à valer com sua participação. E enquanto fizer sequências como a que envolve um bebê e um tiroteio ao estilo FERVURA MÁXIMA, por mim ele já está oficializado no time. O filme ainda introduz uma impagável Helem Mirren como mãe de Deckard.

Kurt Russell também retorna como o operário do governo, Mr. Nobody, com Scott Eastwood como seu estagiário. O filho do grande Clint Eastwood ainda tem que comer muito feijão para chegar no dedinho do pé de seu velho e aqui, na maior parte do tempo, serve como cobaia das piadas de Tyrese Gibson, que já se tornou o alívio cômico oficial da série. Russell aparece muito pouco desta vez e nunca entra na ação. No filme anterior tivemos o prazer de vê-lo dando alguns tiros. De qualquer forma, é sempre divertido ver sua figura na tela. O cara é um ícone! Enquanto isso, temos Charlize Theron como a grande vilã de VELOZES E FURIOSOS 8 e parece estar gostando de brincar de malvada, embora sua participação praticamente se resuma a ficar num compartimento escuro do seu avião fazendo expressão de cuzona. Quanto ao nosso homem chave da franquia, Dom Toretto, o fato de trabalhar para Cypher força a Vin Diesel a desempenhar um papel fora do habitual na franquia, dando-lhe uma abordagem mais dark e enigmática, embora o sujeito não seja lá tão versátil nas expressões e solte algumas habituais frases de efeito quando possível.

F. Gary Gray é quem comanda a parada desta vez e entra para a galeria de cineastas que trabalhou na franquia, ao lado de Justin Lin, James Wan, Rob Cohen e John Singleton. Em 2003 fez seu próprio trabalho ao estilo VELOZES E FURIOSOS, UMA SAÍDA DE MESTRE (remake de um clássico de Peter Collinson, com Michael Caine) e já havia dirigido Vin Diesel no bom O VINGADOR. A escolha do sujeito é interessante, os filmes de ação de Gray geralmente possuem certo peso no lado dramático, que é o que a série precisa, apesar de seu estilo mais sóbrio e discreto em de dirigir sequências mais movimentadas.

Em VELOZES E FURIOSOS 8, é preciso destacar a maneira na qual Gray comanda os atores e faz com que certos diálogos que seriam insuportavelmente ridículos tenha ao menos alguma dignidade. E pela forma como trabalha bem o lado dramático da “família”, que se não possui a densidade dos filmes de um Michael Mann ou William Friedkin, ao menos mantém o mesmo nível que estabeleceu as relações entre personagens e público a partir de VELOZES E FURIOSOS 4, que é quando todos os elementos realmente começaram a cozinhar. E fizeram os filmes da série ganharem sua própria personalidade.

Já em termos de ação, Gray realmente parece fora do seu habitat natural, tendo que conceber sequências extremamente épicas e exageradas, que é o usual do padrão VELOZES E FURIOSOS pós-capítulo quatro. Mas embora não tenhamos nada do mesmo nível da perseguição de carros puxando um cofre, em VELOZES E FURIOSOS 5, ou o tanque de guerra em VELOZES E FURIOSOS 6 ou até mesmo o final hiperbólico de VELOZES E FURIOSOS 7, até que o sujeito se sai bem por aqui e VELOZES E FURIOSOS 8 mantém o nível de ação deflagradora. Apresenta um espetáculo barulhento e explosivo digno com algumas sequências realmente impressionantes, como a fantástica perseguição onde centenas de carros são controlados por Cipher em plena New York, com direito a uma chuva de automóveis, ou o imponente gran finale onde temos um submarino nuclear caçando os nossos heróis motorizados num mar congelado da Sibéria, com The Rock desviando mísseis com as mãos limpas…

Enfim, a coisa chegou num ponto que você poderia enviar Dom e sua “família” para o espaço sideral que provavelmente a coisa funcionaria. Mesmo para quem começou, lá no primeiro filme, roubando DVD players de caminhão de transportadora…

Eu sei, parece estúpido. Na verdade, é. Mas também é diversão certa. Obviamente, a lógica de gostar de um filme como VELOZES E FURIOSOS 8 depende muito da sua relação com os outros capítulos da série. Pessoalmente, nunca tinha achado muita graça até parar, por alguma ironia do destino, numa sessão de VELOZES E FURIOSOS 5 no cinema e perceber o que a série se transformou (naquela altura, eu só tinha visto o primeiro). Foi paixão no ato! De alguma maneira fiquei fascinado pelos personagens e, principalmente pela ação magistralmente conduzida pelo Justin Lin na ocasião. Clima que permaneceu em todos os filmes seguintes, dos quais me tornei um grande adminirador.

Que venha então os já anunciados nono e décimo capítulo da saga de Toretto e sua turma. Aguardamos ansiosamente.

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